Pular para o conteúdo principal

A PONTA DO RABO DA SERPENTE

O ser humano é um bichinho falador. Um baita contador de causo. Todos nós gostamos de ouvir uma boa história e, é claro, gostamos mais ainda de passa-la pra frente, recontando-a para os nossos como se fôssemos os primeiros a fazê-lo.

 

Tal atitude vê-se claramente presente em torno de uma mesa de bar, como também nos meandros discretos de um grupo de whatsapp. Tanto na primeira como na segunda situação, lá estamos nós repassando uma informação e, ao repassá-la, acabamos aumentando, em alguma medida, um ponto do conto.

 

Não há dúvida alguma que é muitíssimo prazeroso fazer isso, tanto ouvir quanto contar histórias, porém, a porca torce o rabo, e torce disfarçadamente, quando começamos a confundir a sensação agradável que nos é propiciada por esses momentos, com a impressão de estarmos realmente por dentro de todos os fatos e acontecimentos.

 

Quando contamos um causo, quando repassamos uma notícia, ou uma sequência de informações, essas acabam sendo comunicadas a nós, e repassadas por nós, juntamente com um encadeamento previamente elaborado para dar a impressão de coerência e certeza ao que está sendo compartilhado. Impressões essas que, na maioria dos casos, não são tão sólidas assim.

 

Seria aquilo que o filósofo Nassim Taleb chamou de a “falácia da narrativa”, que consiste em reunir fatos desconexos em um todo narrativo, como se cada um deles estivesse integrando, dando forma a uma história tremendamente coerente.

 

Dito de outro modo, por termos uma tendência natural a ouvir e contar prosas, de forma desatenta e distraída, acabamos por nos habituar a nos informar de uma maneira leviana e inconsequente e, tal atitude, frente a história e a rede de informações que nos cerca, acaba por nos tornar presas fáceis frente às "guerras de narrativas”.

 

Para não ficarmos numa posição de fragilidade frente às torrentes de informações que chegam até nós, é imprescindível que procuremos ser tão perspicazes quanto pacientes diante de tudo o que nos é apresentado como sendo [supostamente] algo ao mesmo tempo “científico”, “democrático” e “inquestionável”.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...

A FRIA SOMBRA QUE NOS ASSOMBRA

Sempre desconfiei daqueles caboclos que dizem, com o peito estufado, que não têm medo de nada, porque coragem é uma virtude que, como toda e qualquer virtude, dispensa alardes. De mais a mais, coragem não significa viver sem nada temer, mas sim viver e enfrentar os seus temores, mesmo estando se borrando de medo. O resto, te digo, é apenas encenação e efeito pirotécnico. Eu, de minha parte, admito: tenho um punhado de medos. Um deles é de pessoas e organizações que dizem que aqui estão para “restabelecer a verdade”, “salvaguardar as instituições” e tra-la-lá. Toda vez que uma turma se apresenta assim, com toda essa marra e sofisticação, não tenho dúvida alguma: são discípulos da Rainha de Copas que não medirão esforços para fazer imperar a insânia e o engodo. Por exemplo, ao voltarmos nossos olhos para a história desta terra de desterrados que é o nosso país, lembramos que, nos idos dos anos 60, quando aqui imperava o tempo do “Ame-o ou deixe-o”, o regime militar jurava, de coturnos ...

LULA E AS MÁS COMPANHIAS

 por Percival Puggina (*) Pais responsáveis certamente não cansam de repetir a seus filhos frases feitas e perfeitas que ecoam mundo afora, através dos milênios, expressas em milhares de idiomas. Uma delas é esta: “Evita as más companhias”. É um ensino da mais rigorosa prudência. As más companhias agenciam o mal e são fonte de desgraça e infelicidade. Quanto mal se evitou no mundo cada vez que essa frase, repetida de modo oportuno, encontrou adesão prudente em quem a ouviu! Escrevo este artigo na noite de sexta-feira 26 de julho. Já repercutem os vilipêndios à fé cristã durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. É a má companhia que os mal intencionados proporcionam aos idiotas. Estes aceitam os impedimentos às manifestações religiosas populares e majoritárias para que os mal intencionados possam exercer com total liberdade o suposto direito “laico” de desrespeitar a fé alheia. Domingo, a Venezuela decide entre Nicolas Maduro e o banho de sangue prometido à nação caso sej...