Pular para o conteúdo principal

MUITO ALÉM DA RAZÃO DAS MASSAS

Muito mais importante do que querer ter razão em discussões travadas no calor do momento, é termos uma disposição férrea para nos conhecermos, tintim por tintim, como nós realmente somos.

 

Toda vez que canalizamos todos os nossos esforços para demonstrar, para pessoas que estão literalmente nem aí para o que estamos dizendo, que estamos cobertos de razão sobre isso ou aquilo, sem nos darmos conta, acabamos por nos corromper.

 

Sim, nos corrompemos quando entregamo-nos a esse tipo de prática. Quando estamos muito mais preocupados em persuadir os outros, menos nos interessamos em nos convencer de que devemos aprofundar os nossos conhecimentos e, deste modo, acabamos nos prendendo de modo tolo num círculo sem fim de enganos e autoenganos que são sustentados pelo nosso vaidoso desejo de querer parecer estar com a razão.

 

Isso mesmo! Quanto mais nos apoquentamos em querer ter razão, menos nos inquietamos em procurar conhecer a verdade porque, todo aquele que quer, porque quer, ter razão, não está interessado em ter a sua alma iluminada por ela, pela verdade, mas sim, em projetar a sombra da ignorância da sua alma desordenada sobre tudo e sobre todos para poder dizer para si mesmo ao final: “eu estava certo, apesar de nunca ter me esforçado para agir de modo verdadeiro”.

 

Enfim e por fim, não queiramos ter razão. Queiramos sim testemunhar a verdade. E, para a realização de tal empreitada, é de fundamental importância que procuremos conhecê-la e nos esforcemos para caminhar sob seu guiamento.

 

Se procurarmos agir assim, desse jeitão, não mais nos preocuparemos em ter razão, porque a verdade terá nos libertado de nós mesmos e de nossa intratável boçalidade.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NA NOITE MAIS ESCURA

Lembro-me de ter lido, num dos livros de Domenico De Masi — Criatividade e Grupos Criativos: Descoberta e Invenção —, que um cidadão ateniense adulto, por volta dos seus trinta anos de idade, teria assistido a aproximadamente trezentas peças de teatro. Ao ler isso, mais que depressa, coloquei-me a matutar com meus alfarrábios e a me perguntar quantas peças assisti em minha porca vida. Quantas? Pouquíssimas, tendo em vista que sempre fui um caipira que vive entocado no mato. Na verdade, poucas são as pessoas que podem se vangloriar de ter tido a grata satisfação de assistir a tantas peças. Pouquíssimas mesmo. Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações. Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima arte e toquei-me da ...

A VIDADE DA CRÍTICA DESNECESSÁRIA - Notas e reflexões heterodoxas

1. Todo bom mané gosta de dizer que pensa criticamente, como se afirmar isso transformasse sua opinião sem valia em alguma coisa que preste. # 2. Toda vez que dizemos que apreciamos a opinião de alguém por considerarmos a pessoa crítica, não estamos dizendo que o que foi dito seja algo inteligente pra caramba. Nada disso, cara-pálida. Na real, estamos apenas dizendo que concordamos com o que foi dito pelo fulano porque está de acordo com aquilo que nós pensamos. Só isso e olhe lá. # 3. Quando o assunto é esse trololó de criticidade, estou com o filósofo espanhol Gregorio Luri, que, de forma curta e grossa, feito pino de patrola, nos lembra que apenas podemos dizer que pensamos criticamente quando somos capazes de pensar a partir dos corolários opostos às nossas convicções e, vez por outra, sermos capazes de discordar de nós mesmos — de admitir que estávamos redondamente errados. Se não somos capazes disso, sinto muito, mas nós não somos críticos nem na casa do chapéu. # 4. Colocar defe...

A PEDREGOSA ESTRADA DA CIDADANIA

É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei. E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção. Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no pr...