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OS DENTES DO JUÍZO FINAL


Quando moleque, e isso já faz bastante tempo, a galera dizia que quando nascessem os tais dos dentes do siso a gente criaria juízo. Bem, esse que vos escrevinha, por volta dos treze anos de idade, já tinha os quatro benditos. Os quatro. Pois é, mas juízo que é bom, nada. Continuei sendo um moleque da pá virada.

 

Neste ano, com a idade de quem já está com a certidão de nascimento amarelada, resolvi arrancar os tais sisos. Detalhe: solicitei ao dentista que tirasse todos eles de uma só vez e sem clemência. Sim, sem clemência, mas com anestesia.

 

Rapaz do céu, foram praticamente três horas de peleja, mas os infelizes não mais se encontram junto aos demais dentes remendados e cobertos de tártaro da minha boca suja e, diante desse fato ortodôntico, fiquei cá com meus alfarrábios, matutando em termos ontológicos: se eu já não tinha juízo tendo os tais sisos, ao arrancá-los, eu, enfim, tornar-me-ei mais ajuizado ou irei descambar de vez? Melhor nem pensar.

 

Mas firmemos nosso pé junto ao problema do tal do juízo, ou da falta dele. Este, nada mais seria, que o problema da aquisição e do cultivo da tal da virtude da prudência. E não adianta reclamar, apenas nos tornamos prudentes, de verdade e pra valer, depois de termos nos metido nuns pares de arrebentamentos e confusões, pois, como Johann Goethe nos ensina, o talento se cultiva no silêncio e no recolhimento, mas o caráter é, necessariamente, formado na agitação do mundo.

 

Sim, eu sei que o tolo aprende apenas com a experiência e, o sábio, por sua deixa, é capaz de aprender com a sofrência vivida pelos outros. Sim, é claro que eu sei disso, mas, infelizmente, não sou sábio e, algo me diz, que nem tão pouco você. Não tem escapatória. Quebrar a cara uma vez ou outra, digo, de vez em sempre, faz parte da vida.

 

E tem outra: se voltarmos nossas vistas para todas as grandes tradições religiosas e sapienciais, todas, sem exceção, apontam para o fato de que o sofrimento não é um adereço [chatão] a mais na nossa vida, mas sim, um dos elementos fundamentais da existência. Por isso, não tem essa de “mamãe, a barriga me dói”. Temos que aprender a lidar, sim, com nossas frustrações, decepções, arrependimentos, mágoas, enfim, como todas as pedras que integram o rosário da existência humana neste vale que não é de rosas.

 

Com ou sem sisos, nos incomodaremos com a vida e ela, a vida, irá nos incomodar, porque fomos feitos para aprender com ela, mas ela, a vida, não está nem aí para nos ensinar. Ela é dura na queda. Na verdade, nós também não estamos muito ligados nesse papo de aprender, não é mesmo? Não somos flor que se cheire. É sim. É isso mesmo.

 

Pois é. E para entornar mais ainda esse angu encaroçado, nós fomos ensinados - pela mentalidade modernosa reinante - a esperar tudo, praticamente tudo, dos outros, do mundo, dos poderes constituídos, e a nunca nos preocuparmos em exigir o mínimo que seja de nós mesmos e, por essa e muitas outras razões, que pouco ou nada aprendemos com os nossos arrebentamentos e, muitíssimo menos, com as experiências vividas pelos outros porque, no fundo, sempre estamos esperamos que os outros vivam nossas vidas por nós para que, não sei como, possamos gozar os dias sem termos de nos preocupar com nadica de nada ao que se refere, diretamente ou indiretamente, às responsabilidades inerentes às escolhas que dão forma a nossa existência.

 

Enfim, não é à toa que nós, hoje, sejamos tão fracos, frágeis e tolos e, ao mesmo tempo, tão soberbos e petulantes. Não é à toa mesmo e, diante disso, francamente, creio que não há siso que nasça ou que doa que resolva alguma coisa.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

Nosso site: https://sites.google.com/view/zanela


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