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PARA QUE AS PANELAS SEJAM FURADAS

Eugen Rosenstock-Huessy, em sua obra “A origem da linguagem”, nos ensina que quando os amigos não mais conseguem se entender, temos uma crise. Agora, quando os inimigos não mais são capazes disso, temos uma guerra.


E isso acontece quando as palavras perdem o seu valor, devido ao uso inapropriado que as inflaciona com toda ordem de significados subjetivos, inviabilizando qualquer discussão minimamente razoável.


Por essa razão, Confúcio, em seus “Analectos”, nos lembra que todo aquele que queira trazer paz e justiça para a sociedade, antes de qualquer coisa, deve procurar retificar as palavras para que as pessoas possam realmente vislumbrar as realidades às quais elas se referem e não apenas as impressões turvas advindas de termos carregados com toda ordem de vícios retóricos e ideológicos.


Exemplos de distorções abundam no mundo contemporâneo e, por conta disso, não é à toa, nem por acaso, que o cenário que vislumbramos diante de nossas vidas é o que é: nem um pouco alvissareiro.


Se pararmos para refletir um pouquinho a respeito de alguns dos temas que ocupam o centro da arena do picadeiro público, veremos claramente que as partes discordantes dificilmente procuram com sinceridade tentar compreender a perspectiva antagônica à sua e, muito menos, se esforçam para realmente querer convencer os discordantes ou ser convencidos por eles.


Sim, sem dúvida alguma, as redes sociais estão repletas de discussões, mas estas, sejamos francos, têm como objetivo apenas reafirmar as crenças e crendices das patotas através da rotulação estereotipada de todo aquele que ouse discordar do riscado. Detalhe: isso vale para a esquerda, para a direita, para os isentos e, é claro, para a turma do tico-tico no fubá.


Quando fazemos isso, todos nós, cada um no seu quadrado, acreditamos piamente sermos as pessoas mais sensatas, coerentes, probas e lidas porque, “sacumé”, os delirantes são sempre os outros, a gente jamais.


Usar os mesmos termos para designar qualquer coisa do jeito que uma viseira ideológica dita sempre dá nisso. Os usos e abusos que são feitos com palavras como democracia, comunismo e fascismo não me deixam mentir. Usos e abusos que, diga-se de passagem, são velhos conhecidos, como bem nos lembra George Orwell no livro “O que É Fascismo? E Outros ensaios”.


Bem, por isso que a retificação dos termos é imprescindível se, realmente, tivermos um mínimo de honestidade intelectual e boa vontade.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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