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AS ARTIMANHAS DA DOUTA IGNORÂNCIA

Machado de Assis disseca a alma brasileira de forma cirúrgica, revelando a mediocridade e as mesquinharias do nosso dia a dia. Todo aquele que costuma deitar as vistas nas páginas deixadas pelo Bruxo do Cosme Velho sabe muito bem do que estou falando.


De todas as suas obras, creio que “A teoria do medalhão” é um verdadeiro soco no estômago, onde, de forma cáustica, o autor toca numa terrível ferida purulenta que há muito se faz presente na alma brasileira: essa mania, essa vergonhosa feiura de confundir afetação com notoriedade.


Um bom exemplo desse tipo de impostura é a pose que muitos adotam para aparentar profundidade em seus colóquios flácidos, insinuando que todo aquele que ousar discordar de seus palpites deveria, antes de qualquer coisa, estudar história. Pois é, sempre ela, a história.


Sim, todos nós deveríamos estuda-la mais e, se o fizéssemos, compreenderíamos rapidamente o quão pouco sabemos, mesmo nos dedicando muito a ela. De quebra, notaríamos também o quão inócuas e vazias são essas bravatas porque, ao começarmos a estudar um assunto de caráter histórico — qualquer um —, perceberíamos em dois palitos, e em algumas páginas, que todas aquelas imagens que tínhamos em nossa mente, todas as explicações esquemáticas e simplificadoras que carregávamos em nossa algibeira mental, não correspondem exatamente à realidade.


Na dúvida, façamos um experimento: tomemos como exemplo três momentos históricos que as pessoas, de um modo geral, têm uma opinião pré-formada, que elas acreditam ser uma visão crítica todinha sua. Através deles, poderemos entender com clareza o quão profundo é o abismo que há entre o conhecimento histórico construído a partir de um dedicado e abnegado labor e a mera repetição de esquemas mentais que foram assimilados a esmo.


Dito isso, perguntemo-nos: o que eu sei a respeito da Revolução Russa, da Revolução Francesa e do Tribunal do Santo Ofício? Pensou? Ótimo. Agora, pergunte-se: quantas obras sobre esses assuntos eu li? Quantos autores eu conheço que se dedicaram a estudar esses assuntos? Então, esse é todo o valor da nossa opinião sobre esses babados, esse é o tamanho da nossa autoridade para ficar mandando os outros estudarem as páginas amareladas da História. A autoridade de um medalhão.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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