Pular para o conteúdo principal

MEU NOME É BRASIL, ESTOU DOENTE

por Paulo Briguet, em 03/12/2015 (*)


Meu nome é Brasil. Sou paciente em estado terminal do Hospital do Câncer. Daqui do quarto acompanho as notícias a meu respeito, que foram um pouco exageradas quando se referiram à minha morte – mas não estão, assim, muito longe da verdade.


Dias atrás prenderam o sr. Bumlai, aquele que tinha livre acesso ao Palácio. Em seguida, foi a vez do sr. Delcídio, líder do governo no Senado. No outro lado do Congresso, o sr. Cunha tenta salvar-se numa luta que me faz lembrar a última cena do filme Cães de Aluguel. Nenhum deles me visitou nos últimos meses; só tinham olhos para mim durante o tempo das vacas gordas. Enquanto discutem como salvar a si próprios, eu permaneço aqui morrendo à míngua. Nem sequer recebo um telefonema.


Alguns dizem que o remédio para meus problemas se chama impeachment. É claro que a saída daquela senhora ajudaria um pouco, mas as causas da doença seguiriam incólumes. O agente causador dos meus males tem outro nome: Partido dos Trabalhadores, também conhecido como Foro de São Paulo. Dizer que o problema se resume a uma Dilma ou a um Cunha equivale a tratar câncer com aspirina.


Engana-se quem acha que o PT pretende me transformar em uma segunda Cuba. O PT quer transformar o Brasil numa nova China, onde o partido único está no poder há 65 anos e coexistem os piores vícios do capitalismo e do comunismo. Se os petistas continuarem sugando minhas forças por mais alguns meses, não importará quem estiver na Presidência, porque não haverá país para presidir.


Meu nome é Brasil, sofro de lama e solidão, zika e dengue, petrolão e BNDES. Outro dia, para passar o tempo, estava lendo os escritos de um filósofo brasileiro que mora na Virgínia. Eis o que ele diz: “Nunca um presidente eleito de qualquer país civilizado mostrou um desprezo tão completo à Constituição, às leis, às instituições e ao eleitorado inteiro, ao mesmo tempo em que concedia toda a confiança, toda a autoridade, a uma assembleia clandestina repleta de criminosos, para que decidisse, longe dos olhos do povo, os destinos da nação”.


Pensam vocês que o filósofo escreveu isso na semana passada? Enganam-se. O artigo é de setembro de 2005. Há mais de dez anos ele antevia o que está acontecendo comigo agora. E aqui estou, morrendo, cercado de solidão e silêncio.


Felizmente o silêncio não é absoluto, tampouco a solidão. Sei que 90% dos brasileiros estão ao meu lado e querem o fim da doença que se instalou em mim. Estão calados, estão cansados, foram às ruas – 15 de março é o dia do meu novo aniversário –, mas no momento não sabem o que fazer. Meu nome é Brasil e o nome da minha doença é Brasília.


Numa dessas noites, observei com alegria e esperança, pela janela do quarto, o espetáculo dos fogos de artifício. É bom saber que ainda há quem acredite em Deus. Lembrei-me das noites em que houve o panelaço, uma ruptura do silêncio que também me deixou feliz. De qualquer forma, o silêncio voltou. Meu nome é Brasil e eu preciso de você que está lendo estas palavras agora.


Engana-se quem acha que o PT pretende me transformar em uma segunda Cuba. O PT quer transformar o Brasil numa nova China, onde o partido único está no poder há 65 anos e coexistem os piores vícios do capitalismo e do comunismo. Se os petistas continuarem sugando minhas forças por mais alguns meses, não importará quem estiver na Presidência, porque não haverá país para presidir.


Meu nome é Brasil, sofro de lama e solidão, zika e dengue, petrolão e BNDES. Outro dia, para passar o tempo, estava lendo os escritos de um filósofo brasileiro que mora na Virgínia. Eis o que ele diz: “Nunca um presidente eleito de qualquer país civilizado mostrou um desprezo tão completo à Constituição, às leis, às instituições e ao eleitorado inteiro, ao mesmo tempo em que concedia toda a confiança, toda a autoridade, a uma assembleia clandestina repleta de criminosos, para que decidisse, longe dos olhos do povo, os destinos da nação”.


Pensam vocês que o filósofo escreveu isso na semana passada? Enganam-se. O artigo é de setembro de 2005. Há mais de dez anos ele antevia o que está acontecendo comigo agora. E aqui estou, morrendo, cercado de solidão e silêncio.


Felizmente o silêncio não é absoluto, tampouco a solidão. Sei que 90% dos brasileiros estão ao meu lado e querem o fim da doença que se instalou em mim. Estão calados, estão cansados, foram às ruas – 15 de março é o dia do meu novo aniversário –, mas no momento não sabem o que fazer. Meu nome é Brasil e o nome da minha doença é Brasília.


Numa dessas noites, observei com alegria e esperança, pela janela do quarto, o espetáculo dos fogos de artifício. É bom saber que ainda há quem acredite em Deus. Lembrei-me das noites em que houve o panelaço, uma ruptura do silêncio que também me deixou feliz. De qualquer forma, o silêncio voltou. Meu nome é Brasil e eu preciso de você que está lendo estas palavras agora.


(*) escritor e editor-chefe do BSM.


Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/




Comentários

  1. PERCY... PERCY... esse KARA é meu amigão é NÓÓÓIXXXXX 🐈‍⬛💔👨‍🦯

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS CRÍTICOS DO PAU OCO

Quando uma palavra passa a ser utilizada em demasia pela grande mídia e pelos autoproclamados “bem-pensantes”, é sinal de que o pobre vocábulo acabou perdendo praticamente todo o seu crédito cognitivo. Quando isso ocorre, ela passa a ser utilizada para sinalizar qualquer coisa e, por isso mesmo, termina significando coisa alguma. E isso, cara pálida, é uma tremenda enrascada porque abre as porteiras da vida para toda ordem de barbaridades. Um bom exemplo disso são os usos e abusos da palavra “crítico”. É educação crítica para cá, é opinião crítica para lá, pensamento crítico acolá; enfim, é um Deus nos acuda porque a única coisa que se faz presente em meio a tanta pretensa criticidade é o espírito de rebanho que, por sua própria natureza, sufoca qualquer possibilidade de uma opinião serena, de um pensamento independente e de uma educação emancipatória. Mas é claro que nós não iremos vestir, jamais, essa carapuça porque, “sacumé”, nós somos “críticos de fato”, não apenas de nome, como...

SOBRE A TIRANIA DO OLHAR ENVIESADO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Errarmos na forma é algo compreensível e até mesmo aceitável; agora, errar na intenção não, porque são outros quinhentos. # Quando o homem empenha-se em negar o seu destino eterno, ele acaba, cedo ou tarde, perdendo a sua confiança na natureza humana, porque a nossa natureza decaída, sem o guiamento divino, é tremendamente traiçoeira. # Buscar a sabedoria, em sua essência, significa ter olhos e ouvidos atentos para toda e qualquer instrução que nos for brindada pela vida para, com ela, crescermos em espírito e verdade. # Nem mesmo um santo é capaz de dizer algo que toque profundamente o coração de um orgulhoso. # Deus veio revelar-nos o Seu rosto no rosto humano, nos mostrar a Sua presença perenemente refletida no nosso olhar. # Tomemos cuidado — muito cuidado — para não acabarmos nivelando a realidade ao patamar limitado e limitante das nossas interpretações pretensamente críticas. # A felicidade plena neste mundo é impossível; o impossível necessário. # Uma das principais causas dos ...

O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...