Pular para o conteúdo principal

O CONSENSO MIDIÁTICO

O filósofo Vicente Ferreira da Silva, em seu livro “Dialética das Consciências”, nos lembra que cada tema, cada um ao seu modo, oferece algum risco, bem característico, a todo aquele que for refletir e ponderar a seu respeito, podendo levar o sujeito a perder-se em uma trama de ramificações, edificada a partir da dita-cuja da questão inicial que provocou a curiosidade do caboclo.

 

Sem dúvida alguma, um desses temas espinhosos que pode, com facilidade, nos levar a cair numa “dialética artificiosa e falaz”, é a fabricação do consenso midiático que, malandramente, se apresenta como sendo a “opinião pública”.

 

Ora, há muitas luas, se a cachorra da minha memória não está me pregando uma peça, Samuel Butler afirmou que o dever número um da imprensa seria instigar os seus leitores a duvidar de tudo aquilo que fosse publicado por ela e, assim deveria ser, por uma razão, que em épocas mais divertidas, parecia ser algo ululantemente óbvio: de que os formadores de opinião deveriam estimular os seus leitores a formarem as suas, como direi, próprias opiniões, e não simplesmente acatar, de forma canina, aquilo que é apresentado pelas luzes delas, da grande mídia.

 

E, tal empreitada, de tirar suas próprias conclusões, torna-se possível apenas quando passamos a refletir de forma sagaz e atenta a respeito de tudo que chega até nós com a forma de notícia, de “verdade” jornalística.

 

Pois é, mas esse tempo, se algum dia existiu, se foi de vereda. Hoje, a grande imprensa não mais vê nesse ideal algo a ser almejado, tendo em vista que grande parte dessa turma considera a crítica a sua forma tacanha de informar, não apenas um ultraje sem o menor rigor, mas também e principalmente, um ataque às instituições democráticas, uma ameaça aos poderes constituídos, ou algum outro sofisma que o valha.

 

Incontáveis [de]formadores de opinião, que trabalham, com sua pena e tinteiro, nas redações dos grandes órgãos de imprensa, que metem as notícias na cabeça de todos, querem porque querem que o público nutra por eles uma espécie de credulidade, digna de uma seita rasteira, que alimente por suas pessoas uma fidelidade tal que levaria, o mais devotado sabujo, a espumar na coleira de tanta inveja.

 

Não apenas isso. Hoje em dia, tal credulidade frente aos grandes órgãos de mídia, é tida pelas pessoas que se consideram esclarecidas, como sendo o suprassumo da criticidade. Pois é, parece piada, mas não é, infelizmente.

 

Chega ser bonito de se ver a galera, que se considera “superinformada”, tagarelando as últimas novidades que foram contadas, ao pé de ouvido, pelo Jornal Nacional porque, como todos sabem, essa é uma fonte de credibilidade inquestionável.

 

Ora, ora, se foi contado pelo Jornal Nacional e similares, no aconchego da sala de nossas casas, ao pé da televisão, junto ao sofá, é porque é verdade e não há de se questionar, não é mesmo companheiro? Não mesmo.

 

E pensar que nos anos 80 e 90, essa gente toda, cheia de criticidade até o tutano, não media esforços para chamar a atenção de todos para a forma maliciosa como funcionava a grande mídia. E, na época, eles estavam certos em fazer isso.

 

Aliás, quem aqui lembra do documentário “Muito além do cidadão Kane”? Quem assistiu essa birosca que foi lançada em 1993? Quem?

 

Bem, ainda nessa época a palavra “criticidade” fazia algum sentido e, esse documentário, refletia de forma cristalina uma sincera preocupação com o poder de um canal de televisão que era capaz de, na época, obter algo em torno de 74 pontos de audiência nacional, com algumas das suas telenovelas.

 

Atualmente, como todos sabem, o Jornal Nacional, ainda é o telejornal com maior audiência do país e isso é muito poder, muito além do poder que Charles Foster Kane, personagem do filme de Orson Welles, de 1941, que é mencionado no título do referido documentário (1993), possuía.

 

Tendo isso em vista, não temos como discordar das palavras do filósofo anarquista Noam Chomsky quando este afirma que a imprensa pode causar danos terríveis não apenas a uma sociedade, mas também e principalmente a capacidade de discernimento das pessoas, fragmentando a personalidade dos indivíduos, principalmente quando torna-se [veladamente] proibido, e explicitamente desestimulado, que se questione a forma como se forma a opinião pública, digo, como se fabrica o consenso midiático em conluio com os senhores das potestades Estatais da nossa partidocracia.

 

Nesse sentido, podemos afirmar que tudo aquilo que é assimilado por nós como sendo uma “visão crítica” a respeito de algo, não passa de uma opinião assimilada por nós de forma irrefletida, ao pé da televisão, no mesmo horário, junto com boleiras de outras pessoas que, como nós, estão com os olhinhos grudados na tela para assimilar o comando que será dado pelos senhores da nossa consciência.

 

Sim, é triste, muito triste o ritmo desse bonde, mas é ele que marca o passo da sociedade presente, o passo da nossa criticidade dormente.


Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A Bacia de Pilatos”, entre outros ebooks.

https://lnk.bio/zanela




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...

A FRIA SOMBRA QUE NOS ASSOMBRA

Sempre desconfiei daqueles caboclos que dizem, com o peito estufado, que não têm medo de nada, porque coragem é uma virtude que, como toda e qualquer virtude, dispensa alardes. De mais a mais, coragem não significa viver sem nada temer, mas sim viver e enfrentar os seus temores, mesmo estando se borrando de medo. O resto, te digo, é apenas encenação e efeito pirotécnico. Eu, de minha parte, admito: tenho um punhado de medos. Um deles é de pessoas e organizações que dizem que aqui estão para “restabelecer a verdade”, “salvaguardar as instituições” e tra-la-lá. Toda vez que uma turma se apresenta assim, com toda essa marra e sofisticação, não tenho dúvida alguma: são discípulos da Rainha de Copas que não medirão esforços para fazer imperar a insânia e o engodo. Por exemplo, ao voltarmos nossos olhos para a história desta terra de desterrados que é o nosso país, lembramos que, nos idos dos anos 60, quando aqui imperava o tempo do “Ame-o ou deixe-o”, o regime militar jurava, de coturnos ...

LULA E AS MÁS COMPANHIAS

 por Percival Puggina (*) Pais responsáveis certamente não cansam de repetir a seus filhos frases feitas e perfeitas que ecoam mundo afora, através dos milênios, expressas em milhares de idiomas. Uma delas é esta: “Evita as más companhias”. É um ensino da mais rigorosa prudência. As más companhias agenciam o mal e são fonte de desgraça e infelicidade. Quanto mal se evitou no mundo cada vez que essa frase, repetida de modo oportuno, encontrou adesão prudente em quem a ouviu! Escrevo este artigo na noite de sexta-feira 26 de julho. Já repercutem os vilipêndios à fé cristã durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. É a má companhia que os mal intencionados proporcionam aos idiotas. Estes aceitam os impedimentos às manifestações religiosas populares e majoritárias para que os mal intencionados possam exercer com total liberdade o suposto direito “laico” de desrespeitar a fé alheia. Domingo, a Venezuela decide entre Nicolas Maduro e o banho de sangue prometido à nação caso sej...