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MUITO ALÉM DO ASTEROIDE B612

  

Falta de assunto é o fim da rosca. Não tem trem que mais apoquente um escrevinhador do que essa praga que, uma vez ou outra, assalta nossa alma. Da vez primeira, a falta de assunto leva-nos tudo o que temos. Das outras vezes, que não são poucas, vão levando qualquer coisa. É um Deus nos acuda. Mas, fazer o quê? Escrevinhar é preciso, mesmo que muitos não considerem a leitura do que foi escrevinhado algo necessário.

 

Dito isso, vamos direito ao ponto. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, a principal serventia dos aviões, essas máquinas extraordinárias, que foram uma peça chave no desenrolar desse conflito que, segundo as palavras de muitos na época, seria a guerra que colocaria fim a todas as guerras [só que não], foi o transporte de correspondências, encurtando as distâncias entre as súplicas de amor e os acenos de saudade.

 

Dentre os pilotos que, nos anos vinte do século passado, ganharam uma certa aura mitológica, devido aos seus feitos no transporte das cartas de incontáveis pessoas, destacaram-se figuras como Jean Mermoz e, é claro, Antoine de Saint-Exupéry.

 

Ambos eram tidos como heróis e de fato o eram. E se isso não bastasse, os dois se destacaram formidavelmente na literatura. Principalmente o segundo. Quem nunca leu, uma linha sequer, de obras como “O pequeno príncipe”, “Correio do Sul”, “Terra dos homens”, “Cidadela” e “Escritos de Guerra”, que se vire nos trinta e dê seus pulos porque, definitivamente, quem não leu nada que fora escrito por esse homem, não sabe o que está perdendo. Não sabe mesmo.

 

Mermoz morreu sobrevoando o Atlântico Sul e Saint-Exupéry, sobrevoando o Mediterrâneo. Foram sepultados nos ares, na companhia dos anjos, fazendo aquilo que mais amavam. Em 7 de dezembro de 1936, Mermoz desapareceu. Em 31 de julho de 1944 foi a vez de Saint-Exupéry se despedir voando.

 

Em resumo: um fim lendário para duas figuras míticas que compartilharam com todos nós, através de seus escritos, as suas impressões sobre a aventura de mergulhar na imensidão azul do céu com suas máquinas carregadas de mensagens e sonhos que deveriam ser entregues aos seus destinatários.

 

Hoje, século XXI, não mais olhamos com a mesma admiração aqueles que cortam os ares, tendo em vista que o ato de voar tornou-se algo que, de certa forma, se integrou ao cotidiano da nossa sociedade e, consequentemente, tomou outras feições em nossa adoentada imaginação. De certa forma, isso tornou-se algo banal, tão banal como muitas outras coisas que um dia foram extraordinárias e, hoje, de certa forma, se tornaram desinteressantes porque nos tornamos figuras desinteressadas de tudo, de todos e, inclusive, de nós mesmos.

 

Porém nos idos de Saint-Exupéry, os homens que aceitavam voar de dia, de noite, enfrentando chuvas torrenciais, tempestades, sobrevoando desertos, se defrontando com o frio, com a neve, enfim, esses bravos viviam experiência que nenhum homem jamais havia experimentado e que, possivelmente, nenhum de nós jamais experimentará, propiciando a eles uma visão distinta sobre a natureza humana.

 

Não estou dizendo que se não viajamos de avião até o momento, jamais iremos fazê-lo. Nada disso. Não pense pequeno cara pálida. O que digo é que uma coisa seria viajarmos como passageiros, ou como pilotos, de uma linha aérea contemporânea, outra, bem diferente, seria voarmos como pioneiros e vermos o mundo de uma perspectiva que ninguém até então havia visto.

 

Hoje, de certa forma, todos nós, cada um de nós, já viu muitas coisas, tantas coisas que não somos nem mesmo capazes de enumerá-las e, ao mesmo tempo, na banalidade tecnológica em que vivemos nossos dias, poucas são as impressões vívidas que carregamos no íntimo de nossa alma, pois, de tanto vermos, muitas vezes acabamos desistindo da aventura de conhecer e de viver que, no fundo, é a mesmíssima coisa.

 

Enfim, Saint-Exupéry dizia que nas cidades do seu tempo não mais havia vida humana. O que nelas existia era outra coisa que, em grande medida, negava aquilo que realmente deveríamos ser.

 

Se ele hoje vivesse entre nós, o que será que ele diria a respeito de nossa época, de nossas cidades e dos nossos lares? Melhor não perguntarmos, tendo em vista que não é muito difícil de imaginar qual seria a resposta que ele iria apresentar ao nos ver, embasbacados, com o olhar tão vidrado quanto triste, fixado a uma tela luminosa, desligados da vida, enquanto escorre indiscretamente um fio de saliva pelo canto esquerdo de nossa boca entreaberta, denunciando o quão grande e vazio é o abismo em que nos enfiamos.

 

É isso. Fim de prosa. Acabou o assunto.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

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