Pular para o conteúdo principal

MÁ VONTADE E FÉ TÍBIA

 

Lembro-me que lá pelo final do século passado, tive meu primeiro contato com alguns escritos de Hugo de São Vitor. Dentre esses escritos estavam alguns de seus sermões que, diga-se de passagem, são primorosos e, por isso mesmo, recomendo vivamente a leitura dessa preciosidade que é o livro “Sermones Centum”.

 

Destes sermões, há alguns onde ele faz algumas considerações sobre a simbologia presente na estrutura de uma catedral. Considerações essas que, como direi, tiraram incontáveis escamas de minhas vistas e me ajudaram pra caramba. Me ajudaram a perceber inúmeras questões que, até então, eu era incapaz de cogitar e que, agora, passaram, graças as suas palavras, a fazer parte das minhas reflexões e referências.

 

Naturalmente, não tenho como apontar nestas linhas, tintim por tintim, todas as dimensões simbólicas que eram indicadas por Hugo de São Vitor. Aliás, não ousaria ter tal presunçosa pretensão. Por isso, procurarei me ater a tão somente um elemento que, pessoalmente, considero muito significativo. Refiro-me especificamente ao átrio, que fica entre a porta de entrada e a nave principal que nos leva até o sopé do altar.

 

Segundo Hugo de São Vitor, esse espaço representa os pecadores arrependidos. Nesse espaço, vamos nos preparando para deixar a agitação do mundo para irmos aquietando o nosso coração para adentrar a casa de Deus e, nela, podermos melhor ouvir o Altíssimo e nos redimir de todas as melecas que diariamente realizamos. Por isso, a água benta, um sacramental importantíssimo, fica junto a essa antessala: para tocarmos ela com a ponta de nossos dedos e, em seguida, nos ajoelhar - em sinal de humildade e de arrependimento - e fazer o sinal da cruz, distante e diante do altar, o monte calvário incruento.

 

É isso. O altar é a representação simbólica do monte Calvário onde o padre, agindo “in persona Christi”, sobe para celebrar a Santa Missa, da mesma forma que Nosso Senhor subiu o monte Calvário para ser crucificado, carregando o fardo de todos os nossos pecados.


Por essa razão, como nos lembra o escritor francês Fulcanelli, em seu livro “O Mistério das Catedrais”, quando se edificava uma catedral, basílica ou capela, a primeira coisa que era construída era o altar e, tudo o mais, era erigido em torno dele, pois ele, o altar, junto com o sacrário, são o centro do templo.

 

Bem, assim o era até não muito tempo atrás. Agora, são outros quinhentos. E, assim o é não porque, como dizem os populares, hoje os tempos são outros, mas sim, por outras razões que vão muito além do vagar dos séculos.

 

Como todos nós muito bem sabemos, as artes de um modo muito especial, sempre refletem os valores que são cultivados pela humanidade no íntimo de seu coração, no núcleo do seu ser e, naturalmente, tudo aquilo que tocamos com nossas mãos, acaba por receber uma indelével impressão do que há em nossa alma. Não tem escapatória. Tudo aquilo que tocamos acaba revelando a face que ocultamos com nossas incontáveis máscaras.

 

Trocando em miúdos, se há uma mudança significativa na forma como edificamos um templo e na maneira como nós o concebemos no seu todo e, principalmente, nos seus detalhes, é porque algo foi transubstanciado em nosso coração.

 

Atualmente, quando vamos a uma igreja, de feição arquitetônica modernosa, já não encontramos o átrio. Há inclusive algumas onde o sacrário fica oculto na sacristia e, inclusive, há outras Igrejas que nem sacristia tem. Bem, como tínhamos dito, tais detalhes não são casuais. Eles indicam uma mudança drástica que está ocorrendo em nossos corações.

 

Em se falando nisso, pouco tempo atrás, vi uma foto de uma pia para água benta, numa catedral belíssima de uma cidade brasileira. Ela, a pia, junto à porta de entrada, era belíssima, mas não havia água benta nela não. Estava seca. Sequinha. Em seu lugar tínhamos um frasco de álcool gel, com o lembrete: uso obrigatório.

 

A legenda da fotografia era: a crise da Igreja sintetizada em uma imagem. Uma legenda precisa e cirúrgica, diga-se de passagem.

 

Provavelmente, todos que procuram frequentar religiosamente a Santa Missa, devem se lembrar que na entrada das Igrejas não mais encontramos o sacramental da água benta. Não. No seu lugar foi colocado um frasco com álcool gel, ou um aparelho onde, pisando em um pedal, derrama-se nas mãos uma porção do dito cujo, o novo “sacramental” da nova ordem.

 

Ao dizer isso, não estou declarando que não deveríamos ter tal apetrecho na entrada de uma Igreja. Por favor, não surte com chiliques sanitários. Repito apenas o que certa feita fora dito pelo professor Pedro Augusto: custava colocar uma máquina similar a essa com água benta, ou um frasco com o referido [e verdadeiro] sacramental bem na entrada da casa de Deus? Não, não custava. Não custava nada.

 

Quer dizer, na verdade, custa. Custa a fortaleza, a coragem de dizer a verdade para um mundo que desesperadamente se agarrou num punhado de engodos como se esses fossem uma nova revelação.

 

Não apenas isso. Poder-se-ia colocar a água benta no seu devido lugar, bem na entrada da Igreja e, o álcool gel, bem adiante, numa posição de segunda importância, que é o seu lugar, porque, como todos nós sabemos, de nada adiante salvarmos a nossa vida biológica se perdermos a nossa alma, a nossa vida espiritual.

 

Por isso, lembremos e, se possível for, procuremos não nos esquecer que, da mesma forma que a majestade divina se revela nos pequenos detalhes, o diabo, com suas maquinações, oculta-se maliciosamente nos mais variados pormenores e, infelizmente, são muitos os detalhes que desdenhamos e muitíssimos os pormenores que ignoramos por pura má vontade e tibieza de fé.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela


Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS CRÍTICOS DO PAU OCO

Quando uma palavra passa a ser utilizada em demasia pela grande mídia e pelos autoproclamados “bem-pensantes”, é sinal de que o pobre vocábulo acabou perdendo praticamente todo o seu crédito cognitivo. Quando isso ocorre, ela passa a ser utilizada para sinalizar qualquer coisa e, por isso mesmo, termina significando coisa alguma. E isso, cara pálida, é uma tremenda enrascada porque abre as porteiras da vida para toda ordem de barbaridades. Um bom exemplo disso são os usos e abusos da palavra “crítico”. É educação crítica para cá, é opinião crítica para lá, pensamento crítico acolá; enfim, é um Deus nos acuda porque a única coisa que se faz presente em meio a tanta pretensa criticidade é o espírito de rebanho que, por sua própria natureza, sufoca qualquer possibilidade de uma opinião serena, de um pensamento independente e de uma educação emancipatória. Mas é claro que nós não iremos vestir, jamais, essa carapuça porque, “sacumé”, nós somos “críticos de fato”, não apenas de nome, como...

SOBRE A TIRANIA DO OLHAR ENVIESADO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Errarmos na forma é algo compreensível e até mesmo aceitável; agora, errar na intenção não, porque são outros quinhentos. # Quando o homem empenha-se em negar o seu destino eterno, ele acaba, cedo ou tarde, perdendo a sua confiança na natureza humana, porque a nossa natureza decaída, sem o guiamento divino, é tremendamente traiçoeira. # Buscar a sabedoria, em sua essência, significa ter olhos e ouvidos atentos para toda e qualquer instrução que nos for brindada pela vida para, com ela, crescermos em espírito e verdade. # Nem mesmo um santo é capaz de dizer algo que toque profundamente o coração de um orgulhoso. # Deus veio revelar-nos o Seu rosto no rosto humano, nos mostrar a Sua presença perenemente refletida no nosso olhar. # Tomemos cuidado — muito cuidado — para não acabarmos nivelando a realidade ao patamar limitado e limitante das nossas interpretações pretensamente críticas. # A felicidade plena neste mundo é impossível; o impossível necessário. # Uma das principais causas dos ...

O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...