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Mostrando postagens de Abril, 2020

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA – PARTE II

Somente os tolos perdem a capacidade de se surpreender. Nada os impressiona porque, para eles, tudo se encontra devidamente encaixadinho e explicadinho em sua peculiar forma de encarar a realidade e avaliar os fatos.
Tais pobres diabos, geralmente, utilizam-se de três ou quatro caixinhas conceituais onde, forçosamente, procuram classificar tudo o que existe, caindo involuntariamente numa condição absolutamente caricata. Aliás, quem nunca...
Sócrates, Platão e Aristóteles, os três porquinhos da filosofia, cada um do seu jeito, apontava para esse óbvio ululante; de que a sabedoria começa com o espanto. Ora, se acreditamos que tudo já está dado e explicado pela nossa diplomada ignorância o que teremos no lugar do alumiar da procura pelo esclarecimento, será apenas as sombras daquelas frases prontas que dão a impressão de dizer tudo ao mesmo tempo que nada explicam.
Essa indisposição para o espanto, esse medo de ser surpreendido, tem suas raízes profundamente calcadas em nossa preocupação so…

REFLEXÕES NADA ORTODOXA DUM CAIPIRA HETERODOXO

Não conheço ninguém que tenha se arrependido de ter permitido que seu filho viesse ao mundo, da mesma forma que não conheço ninguém que não tenha sua consciência atormentada por ter decidido que seu filho tivesse sua vida arrancada no ventre materno.
[ii] Todo mundo entende a preciosidade singular do dom da vida, todos; menos aqueles que defendem a legalização do assassinato dum inocente no ventre materno.
[iii] Nas turbulentas horas da história, quando as colunas da polis estremecem, os homens de geleia deixam suas máscaras cair, os fanfarrões se empolgam feito urubus, se lambuzando na carniça, e os tontos acreditam, candidamente, que estão entendendo tudo tintim por tintim.
[iv] Não há nada mais doentio do que uma preocupação desmedida com a saúde. É algo tão insensato quanto o total desprezo a ela.
[v] Se realmente desejamos entender algo espinhoso, como uma treta política descomunal, a primeira coisa que, penso eu, deveríamos fazer, seria nos perguntar sobre o que está, de fato, acontece…

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA

Para fazermos um prato, seja um delicioso quitute ou uma sopa de quiabo, é necessário que tenhamos bons ingredientes. Não apenas isso. É imprescindível que tenhamos mãos habilidosas para decodificar as instruções que se fazem presentes nos caderninhos de receitas e combinar apropriadamente os ingredientes para transformar aqueles produtos heterogêneos em algo comestível e, ainda por cima, saboroso.
Há uma devida proporção que deve ser encontrada e respeitada para que o prato possa ser feito e servido com maestria. Se a combinação dos ingredientes não for adequada, não preciso nem dizer, o trem desanda de vez. E não apenas isso. Se o prato for servido de qualquer jeito, com desleixo, o encanto que poderia ser obtido simplesmente desaparece no ar.
Assim também o é com a realização de qualquer coisa em nossa vida. Shakespeare havia comparado o mundo com um grande palco e as pessoas com meros atores. Aliás, essa é uma belíssima comparação. Belíssima e profícua, diga-se de passagem. Bem, mas…

REFLEXÕES NADA ORTODOXAS DUM BEBEDOR DE CAFÉ

Estamos diante duma profunda mutação civilizacional que implicará, entre outras coisas, na destruição de nossa liberdade, na morte da nossa alma e, quando alguém tenta nos chamar a atenção para a gravidade do que está acontecendo, para o perigo que está para além dos noticiários sórdidos, nós rapidamente nos escondemos embaixo das sombras de nossa covardia, feito baratas tontas que se assustam quando alguém acende a lâmpada da cozinha, pois não queremos que a luz da verdade alumie a morada de nossa alma.
[ii] Pela primeira vez na história da humanidade a covardia foi elevada à categoria de virtude cívica número um.
[iii] Se nós temos medo de perder essa vida, nós já perdemos tudo, inclusive a nós mesmos.
[iv] Lembremos, com vergonha, que neste ano, pela primeira vez na história da Cristandade, na semana em que Cristo Nosso Senhor venceu a morte, nós, Cristãos, estávamos escondidos com medo de morrer.
[v] Essa folia de querer ficar exibindo para todos a nossa suposta “felicidade”, essa mania d…

PARA ALÉM DO LABIRINTO DE DÉDALOS

O tal do tempo é um safado mesmo. Digo, não o tempo. Não. O pai das rugas está de boas. Ele não tem culpa alguma nesse cartório. O grande safado da história, que pretendemos assuntar, é esse nosso jeito atravancado de perceber os fatos que preenchem o vazio da nossa existência socialmente insonsa, politicamente torta e moralmente turva.
O negócio é meio doido, sim, pero no mucho. As vezes damos uma importância do caramba para determinados acontecimentos que tem uma relevância ridiculamente ridícula; noutras tantas, desdenhamos fatos que são duma importância imensurável; as vezes, achamos que algo incomum seria uma reles banalidade e, e vez por outra, tratamos banalidades como se essas fossem o suprassumo do suprassumo do multiverso extraordinário.
Sim, com toda certeza podemos encontrar e apresentar uma penca de explicações, razoáveis ou não, para esse tido de situação e, a relevância que atribuímos a este ou aquele esclarecimento possivelmente acabará caindo na mesma arapuca.
Ciente dis…

SOB O OLHAR DE ANÚBIS

Uma das cenas, que se faz presente em muitas passagens da literatura universal, no cinema e bem como nos desenhos animados, é aquela onde um indivíduo tem a possibilidade, mágica, de poder realizar alguns dos seus desejos. É. A primeira imagem que vem à nossa mente é a de Aladim com o gênio da lâmpada mágica. Bem, mas ela não é a única e, para ser franco, não é a respeito disso que essa escrevinhada se propõe a parlar. Essas linhas dispõem-se a apresentar algumas considerações, mesmo que desajeitadas, sobre os bens fundamentais que movem as almas para uma e outra direção.
Dito isso, “vamo que vamo”. Se nós voltarmos nossos olhos para todas as grandes tradições, particularmente para as tradições egípcia, grega, judaico-cristã, islâmica e hindu, teremos a descrição da existência de quatro bens fundamentais. Estes, seriam fundamentais, pelo fato de que se nós pudéssemos tê-los em grandessíssima quantidade, nós ficaríamos faceiros da vida com isso.
Nesse sentido, a sabedoria dos antigos nos…

SEXTA-FEIRA DO SILÊNCIO

Nessa sexta-feira Santa, por volta das duas horas da tarde, reuni-me com minha esposa e com meus dois filhos para assistirmos, juntos, o filme “A Paixão”, de Mel Gibson.
Isso mesmo. É bem esse. Aquele filme que, em 2004, converteu tantas e tantas almas, que fez com que inúmeros filhos pródigos retornassem para a casa do Pai e que, de quebra, deixou inúmeras almas mundanas muitíssimo nervosas, pau da vida, com o que foi apresentado a todos.
Havia assistido a referida película naquele ano e, inclusive, escrevinhei e publiquei algo em minha falecida coluna no extinto jornal Diário de Guarapuava e hoje, após rever o mesmo com meus filhos e esposa, numa silente tarde duma sexta-feira santa, coberta com a túnica púrpura da nossa desfibrada indiferença, confesso que o mesmo ainda estremece meu ser. Como estremece.
E te digo mais! Se você até o presente momento não assistiu a esse épico do cinema do século XXI da Era de Nosso Senhor, assista o quanto antes.
Dito isso, voltemos ao ponto antes que …

NUMA ASSEMBLEIA DA CASA VERDE

Há um conto de Lima Barreto - A doença do Antunes, se não me falha a memória - onde nos é narrada a história dum médico, um tal de doutor Gideão, se não estou enganado e que, diziam as boas e as más línguas, era um médico muito bom - o bicho era fera mesmo - e, por isso mesmo, sempre reunia uma multidão na porta do seu consultório.
Certo dia, um sujeito, um tal de seu Antunes, marcou uma consulta com o tal doutor. Pagou a dita cuja que, já naquela época, não era nem um pouco doce não.
Ele ficou esperando um tempão para ser atendido. Esperou, esperou, olhou umas trocentas vezes no relógio, até que foi chamado.
Entrou, cumprimentou o médico que, em seguida, se pôs a examiná-lo. Após terminar o doutor Gideão disse-lhe que ele estava bem; forte e guapo. O índio velho se indignou com a notícia que lhe fora dada. Como assim não tinha nada? Ele tinha que ter alguma coisa. Como assim estava são? Ele pagou uns pares de contos de réis para que o doutor dissesse isso pra ele? Era o fim da picada.
Po…

UM PONTO SEM NÓ

Expressar de qualquer jeito aquilo que pensamos ou sentimos sobre algo é uma coisa que qualquer boco de mola é capaz de fazer, tendo em vista que não exige esforço algum do sujeito para realizar tal façanha. Agora, dizer o que pensamos e sentimos com as palavras apropriadas, devidamente pesadas e medidas, é um trem que alguns caboclos, não muitos, realmente conseguem realizar com relativa maestria e isso, francamente, é algo invejável. Agora, expressar com atos, gestos e palavras o que sentimos e matutamos é algo que, todos nós, deveríamos almejar fazer. E não é só isso. Se não formos capazes de conseguir realizar esse tipo de proeza, poderíamos, sem medo algum, nos calar e nada dizer.
[ii] Tradicionalmente representa-se a arena das disputas pelo poder como sendo algo similar a um tabuleiro de xadrez, com aliados e adversários claramente separados e devidamente identificados. Pois é. Faz tempo que não é mais assim. Há algumas décadas atrás, o escritor Umberto Eco disse que no tabuleiro …

ENTRE A REVOLTA DA VACINA E A QUARENTENA

Nesse clima de quarentena, me deu na ventana de querer reler o livro do historiador Nicolau Sevsenko sobre a Revolta da Vacina. Releio ou não releio? Releio ou não releio? Reli e, sou franco em dizer que, a cada página virada, a cada capítulo findado, não sabia se ria ou chorava; tamanha são as parecenças e as semelhanças que se apresentam entre o revolterio de 1904 com o quadro vivido por nós nesse ano da Graça de 2020.
Digo isso porque há algumas passagens dessa peça da história de nosso triste país, que foram encenadas nos teatros da vida, que nos convidam a refletir sobre algumas peripécias presentes na opereta bufa que hoje, em parte assistimos e, doutra parte atuamos como figurante.
Não estou afirmando que a pandemia de “coronga” vírus é igualzinha a referida revolta. De jeito maneira. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como dizem os guris. Parece-me apenas que a história desta pode nos ajudar a matutar um pouco a respeito dos caminhos e descaminhos que estão sendo…