quarta-feira, 30 de julho de 2014

APENAS UM CAUSO POLITICAMENTE INCORRETO

Escrevinhação redigida em 29 de julho de 2014, dia de Santa Marta. Décima Sétima semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Pobre povo brasileiro. A culpa de todos os males que assolam a nossa triste sociedade é depositada na paleta dele. Do povo. Principalmente em ano eleitoreiro. Aí sim, as sete pragas do mundo político são rogadas contra o tal do povo pelas excelsas vozes dos cidadãos esclarecidos. Sejam eles reles votantes, sejam eles vulgo votáveis, lá estão eles responsabilizando o povo pela má qualidade de nossa cultura política com bravatas que rezam que aquele que vende o seu voto é tão corrupto quanto aquele que compra. Que o povo não sabe votar, não sabe escolher, não sabe isso, nem aquele outro.

Pois olhe, eu também não sei se sou bom nisso. Aliás, acredito que aquele pobre diabo que é acusado de ser um mau votante joga com muito mais habilidade esse jogo de cartas marcadas, que é nossa cambaleante democracia, do que nossos esclarecidos cidadãos.

Para melhor proclamar minha heresia, permitam-me recorrer a um causo para, a partir dele, ensaiar uma quase sociologia política cabocla. Diz que, num pago não muito distante, numa Era que não mantém muita lonjura da nossa, havia um senhor humildade, típico espécime do tal do povo, que chamaremos pela graça de Tibúrcio, que havia negociado seu apoio político (vendeu seu voto), e de todos os membros de sua extensa família, a um candidato cujo número era 69. Segundo ele, mesmo que o abençoado não lhe oferta-se a bagatela que lhe fora regalada iria votar nele, pois confiava do dito cujo. Sabia que o tal candidato não era uma sumidade, mas era o “menos pior”, aparentemente. Tanto que autorizou que uma placa do mesmo fosse afixada na frente de seu rancho.

Porém, quando foi se aproximando o dia da votação, um candidato a vereador que apoiava a outra raposa felpuda que disputava a cadeira de mando, foi até a morada do seu Tibúrcio para tentar negociar o seu apoio. Ou seja: comprá-lo.

Papo vai, papo vem, e nosso protagonista lembra ao sinhô que em sua casa eles são muitos votos, que ele já havia apalavrado seu apoio com o pessoal do 69 e que não poderia, assim, mudar na ventana para o 24. Segundo ele, isso não seria direito. Resumindo o entrevero: o apoio dele, da mulher e dos filhos, foi conquistado por uma ninharia de R$ 1.879,50. Estando bom para ambas as partes, fechou-se o acordo.

Tendo os pilas em mãos, disse Tibúrcio a sua esposa: “Mulher! Pegue esse dinheiro e guarde lá dentro. Esse dinheiro é nosso. Eles tinham roubado de nós e estão nos devolvendo agora”.

Constrangido pela fala do nosso humilde representante do povo, a raposa, agora, de cola baixa, disse, maliciosamente: “Bem, vamos agora derrubar essa placa do 69 e vamos colocar uma do nosso candidato.”

Tibúrcio, de pronto, responde: “Ninguém tira essa placa daí não! A casa é simples, mas é minha! O homem da casa sou eu! Logo, quem manda aqui sou eu!”

A raposa, irritada, e um tanto desnorteada, indagou o pobre homem: “E o nosso acerto? E o dinheiro que eu lhe dei fica a onde?”

Serenamente, Tibúrcio mira bem nos olhos da raposa e com um sorriso enigmático que se alongou em seu cansado rosto marcado pelo sol, lhe diz: “Pois olhe meu sinhô, se você não gostou do que eu disse e do que eu fiz, é bem simples: vamos pra delegacia e lá o sinhô pode registrar um B.O.”

Ora, ora, meu caro cidadão, o pobre povo brasileiro sabe muito bem jogar esse jogo sujo, para a angústia das raposas vorazes. Suas escolhas do povo não são boas não porque ele é corrupto, mas sim, porque as possibilidades que lhe são apresentadas são, na maioria das vezes, ruins feito a peste. De mais a mais, causos como esse integram o imenso caldo que dá sustância à vida política brasileira e que muito nos revelam sobre a criatividade dos populares em sua arte de ludibriar aqueles que tanto os espoliam sob a égide duma republiqueta que, bem sabem eles, não é coisa séria.

Sim, certa feita o jornalista republicado Aristides Lobo havia dito que o povo brasileiro era bestializado. Pois olhe: creio que o besta na história não é o povo não, cidadão. Não é bem ele não. Ou é?

Pax et bonum
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sábado, 26 de julho de 2014

ANOTAÇÕES DUM NÁUFRAGO

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1. 
Ensina-nos Santo Tomás de Aquino que quem não vive o que crê acaba crendo no que vive. Tal advertência é fundamental para todas as Eras da história. Principalmente para a nossa. Época essa em que os lábios murmuram doces palavras que exalam o putrefaz odor do que há no coração do homem moderno.

O mundo está cheio de pessoas que afirmam crer em Deus, mas que vivem como se ele não existisse. As paróquias estão repletas de almas, que creem mais nos efêmeros modismos mundanos do que nos perenes ensinamentos da Santa Madre Igreja e, por incrível que pareça, creem-se ser tão católicas quanto São Francisco de Salles. E quantas e quantas vezes, em nossa falta de zelo, preferimos os conselhos dos “sábios” mundanos ao invés dos ensinamentos dos santos de Deus por pura desídia intelectual e soberba? Quantas?

Por isso, mais do que nunca, as palavras do Doctor Angelicus são imprescindíveis. Quem não vive o que crê acaba crendo no que vive.

2.
Joseph Ratzinger, em seu livro MIRAR A CRISTO, nos chama a atenção para um dado mui característico do homem moderno. Hoje, praticamente, desapareceu do coração humano a ânsia pela salvação da alma e perdeu-se a consciência do pecado, imaginando-se, com isso, ter-se libertado dos últimos grilhões.

Ora, como bem nota o Emérito Pontífice, nunca a angustia reinou tão soberanamente nos corações humanos como hoje em dia. Em nome dum pífio sentimento de liberdade pessoal, nossa época baniu do horizonte a perspectiva de imortalidade da alma e minimizou o fardo de nossa consciência culpada, descarregando o peso das nossas escolhas noutras forças para justificar nossa leviandade e desespero.

E, mesmo assim, não nos sentimos mais leves porque não temos como tapar o sol com a peneira da soberba por muito tempo. O sol de nossa real condição continua a ofuscar nossas vistas nos lembrando que, mesmo que digamos o contrário, o ator responsável por nossas escolhas sempre somos nós, individualmente. Somos nós que decidimos e ninguém mais.

Mesmo que vivamos como se a primavera dos dias jamais findasse, cedo ou tarde, o peso dos anos e o espreitar da morte nos lembra que nossa caminhada por esse vale de lágrimas é breve. Mais breve do que desejamos e, por isso, no lugar da ânsia pela salvação abraçamo-nos com a depravação e substituímos a consciência do pecado pela autocomplacência escandalosa para com ele.

Enfim, trocamos a liberdade do temor a Deus para viver sob a tirania do medo e da angústia sem esperança do mundo.

3.
Percival Puggina, no artigo MACHISMO E COISIFICAÇÃO DA MULHER, nos apresenta preciosas reflexões. Recomendo vivamente a leitura integral do referido texto, porém, se o tempo lhe for escasso, te conto o que foi dito por ele. As mulheres, dum modo geral, “[...] Afligem-se em busca do amor e o confundem com sedução, desejo, paixão. Mas não é assim. A medida do verdadeiro amor é a medida do sacrifício pelo bem do outro. E como não é inteiramente própria da juventude essa capacidade de renúncia, faltam a tais amores tanto as condições da perenidade quanto o longo convívio que proporcione solidez à confiança mútua”.

O cronista também nos fala dos canalhas de plantão, que não são poucos, e, aproveitam-se desse quadro para colecionar troféus (fotos íntimas com suas “amadas”, entre outras coisas) que em muitas situações tornam-se públicas através da internet. E aí, Puggina é mais uma vez certeiro quando diz: “[...] percebi que existe algo contraditório aí. De um lado, a jovem está dando prova a si mesma de um rompimento com a cultura da geração anterior. Ela é jovem, autônoma, moderna, liberal e se deixa fotografar como bem entende. De outro - e aqui se esconde a contradição - ela está servindo ao machismo e não à autonomia da mulher! Essa jovem, que se crê autônoma, moderna e liberal, se oferece ao altar do machismo. Ao coisificar-se, serve-o”.

De fato. Só não vê isso quem não quer. Ou porque tem medo do óbvio ululante. Bem, dum jeito ou doutro, que cada um tenha a liberdade que tanto almeja. Só depois não reclame das consequências.

4. 
Na sociedade atual, homens e mulheres, gastam boleiras de tempo para cuidar de sua aparência. Pois bem, sobre esse traço da vida contemporânea, uma elegante voz do século XIX faz-se ecoar no atual milênio para nos advertir.

Quem nos fala é Joaquim Nabuco. E ele diz-nos o seguinte: “A impressão definitiva do corpo humano vem da pessoa que o habita. Antes de conhecer, não opinemos sobre a habitação. Um traço interior pode destruir, subitamente, nossa ilusão. O olhar é mais importante que os olhos, o sorriso que a boca, o gesto que as mãos, o andar que as linhas, a voz que os traços. E, desde que à expressão é permitida mais arte, mais artifício, mais disfarce, não nos arrojemos a conclusões. Seria falar daquilo que ignoramos por completo. Lembremo-nos de que a beleza não se assume como atitude, nem comporta reservas ou subterfúgios. Ela deve apresentar-se em toda simplicidade e candura para ser realmente beleza. A sociedade é uma exposição de obras de arte, onde, infelizmente, poucas são autênticas”.

Imagine só o que ele diria se vivo estivesse neste século... Melhor não imaginar. Deixe quieto.

5. 
A consciência moral, “[...] se manifesta do mesmo modo em todos os homens por meio da lei natural (inata) da consciência. Todo homem, colocado diante de um dever moral, conserva (em circunstâncias normais) a faculdade de dizer "Sim" ou "Não" a esse imperativo extrínseco; caso execute o dever, executá-lo-á livremente (com domínio sobre o seu ato), como também, se não o cumprir, estará agindo livremente”, conforme nos lembra Dom Estêvão Bettencourt (OSB).

Por isso, mesmo que joguemos a culpa nas costas sistema ou nas de um qualquer, a decisão continua sendo nossa. Só nossa. Principalmente a de depositar a responsabilidade por nossos atos nas paletas de outra pessoa ou duma entidade fantasmática.

E não adianta fazer cara feia porque é assim mesmo que a banda toca.

Pax et bonum
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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Dinheiro não compra educação de qualidade

POR JOSÉ MARIA E SILVA 

Caso a educação pudesse ser feita apenas com dinheiro, sem dúvida, o Brasil teria um ensino de Primeiro Mundo. Com a promulgação pela presidente Dilma Rousseff do Plano Nacional de Educação (Lei Federal 13.005), em 25 de junho último, o Brasil terá de aplicar 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação, o que significa uma soma anual de R$ 484 bilhões, considerando o PIB de 2013, segundo o IBGE. Hoje, o País investe 5,8% do PIB em educação e, a partir do quinto ano de vigência do plano, isto é, em 2019, esse investimento terá de ser de 7%, alcançando os 10% no final da vigência do plano, em 2024.
Com os 5,8% que já investe na educação, o Brasil desponta como um dos países que mais investem no setor. Segundo reportagem da “Folha de S. Paulo”, publicada em 5 de junho, “entre os países com maior peso na renda mundial, reunidos no G-20, os desembolsos com a educação variam de 2,8%, na Indonésia, a 6,3% do PIB no Reino Unido, de acordo com a ONU”. Ou seja, o Brasil já está próximo do topo do investimento e, com os 10% do PIB para a educação, tende a se isolar na liderança entre as grandes economias, ficando atrás apenas de nações diminutas, como Lesoto, que lidera investindo 13% do PIB, ou de Cuba, cujas estatísticas sociais – jamais fiscalizadas a sério pela ONU – são tão confiáveis quanto uma nota de 3 reais.
O comprometimento desse porcentual do PIB no ensino foi a grande bandeira da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, liderada pelo ex-líder estudantil Daniel Cara, com uma vasta rede de apoiadores nacionais e internacionais, que vão desde a ONG ActionAid, presente em mais de 40 países, até a Unesco e o Unicef, organismos da ONU para a educação, a cultura e a criança, passando pela Open Society do megainvestidor Georges Soros. Essa medida irá salvar a educação brasileira? A resposta é não. Nas condições em que se encontra o ensino no País, investir 10% do PIB em educação é quase jogar sal em carne podre. E uma das razões para se considerar esse gasto um desperdício e não um investimento é, sem dúvida, o viés ideológico da educação brasileira.
O próprio Plano Nacional de Educação é um sintoma da doutrinação que impera nas escolas do País, tanto públicas quanto privadas. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que sustentou a luta pela aprovação do plano e dos 10% do PIB, é muito mais do que a face de Daniel Cara, fartamente entrevistado pela imprensa como líder do movimento. Seu comitê diretivo conta com 11 entidades, entre elas o Centro de Cultura Luiz Freire, um grupo de esquerda radical de Pernambuco, sediado em Olinda, que defende o controle social dos meios de comunicação, e até o indefectível MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), com 2 mil es­colas em seus assentamentos e a­campamentos, nas quais oferece uma educação à moda cubana, tendo Che Guevara como modelo.
Universidades viraram incubadoras de minorias
Hoje, muitos movimentos sociais não surgem espontaneamente – são fomentados ou até criados pelas universidades, que se tornaram verdadeiras incubadoras de minorias. Na maior parte dos casos, de forma culposa, em decorrência de uma pregação ideológica geral, mas, em alguns casos, de modo doloso, por meio da organização institucional desses movimentos, que contam até com financiamento público, geralmente com verbas destinadas à pesquisa e à extensão universitária.
É o caso, por exemplo, do Centro de Difu­são do Comunismo da Uni­ver­si­dade Federal de Ouro Preto (MG), um programa de extensão vin­culado ao Curso de Serviço Social da universidade, que oferecia bolsas de pesquisas para os alunos participantes de suas atividades de militância política contra o capitalismo.
Apesar de declarar que “não é um programa acadêmico com objetivos político-partidários”, o Centro de Difusão do Comunismo afirma que seu objetivo é “desenvolver o trabalho de ensino, pesquisa e extensão a partir da perspectiva da classe trabalhadora – do ser social que trabalha e é explorado – e lutar por uma sociedade para além do capital!”. O próprio nome não poderia ser mais expressivo: em vez de um “grupo de estudos” do marxismo, como muitos que pululam dentro das universidades pelo País afora, trata-se de um “centro de difusão” do comunismo, o que revela o seu papel de militância política e não de estudo apenas teórico.
Diante desse aparelhamento político da universidade, um advogado de São Luís do Maranhão, Pedro Leonel Pinto, entrou com uma ação popular contra o centro comunista e conseguiu que a Justiça Federal suspendesse o custeio de suas atividades por parte da Universidade Federal de Ouro Preto, que ficou impedida de fornecer professores e disponibilizar suas dependências para as atividades do centro. Todavia, a única medida que deve ter surtido efeito prático foi a suspensão do pagamento das bolsas de extensão para os ativistas do centro, pois a pregação comunista continuou dentro da própria universidade, a despeito da decisão da Justiça.
De 24 de abril a 10 de julho último, por exemplo, o Núcleo de Estudos Marxistas da Federal de Ouro Preto, vinculado ao CNPq, promoveu um encontro sobre a obra do marxista húngaro István Mészáros, realizado nas dependências do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da universidade. Nos cartazes de divulgação das palestras aparece a frase: “Em apoio ao Centro de Difusão do Comunis­mo”. No mês de maio, também nas dependências do instituto, foi realizado um “Encontro com os Traba­­lhadores”, envolvendo quatro sindicatos, promovido pelo Curso de Serviço Social em apoio ao Centro de Difusão do Comunismo. No cartaz de divulgação do evento, uma frase desafiadora: “Ação judicial nenhuma vai impedir nossa luta ao lado dos trabalhadores”.
Minorias com verbas milionárias
Não se trata de um caso isolado, mas de uma tendência. Pelo Brasil afora, núcleos de estudantes de pós-graduação ou graduandos com bolsa de iniciação científica engrossam as fileiras de movimentos como a Marcha das Vadias, a Marcha da Maconha, o Movimento Passe Livre e os black blocs, geralmente associando a militância política com as atividades discentes. O movimento gay, o movimento negro e o movimento feminista são os que mais se beneficiam da doutrinação ideológica que impera nos meios acadêmicos. Hoje, na área de humanidades, não faltam linhas de pesquisa destinadas aos estudos de raça e de gênero, que se tornaram até mais atraentes do que os estudos de classe das velhas gerações do marxismo ortodoxo, calcado no materialismo histórico-dialético.


O próprio movimento negro, que tem raízes numa luta justa contra o racismo, especialmente nos Estados Unidos, adquiriu contornos claramente artificiais, chegando a ser ele próprio segregacionista ao tratar o branco como inimigo e o mulato como um ser desprezível, que só é digno de respeito caso se assuma como negro. No excelente livro “Uma Gota de Sangue”, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli disseca a criação artificial de minorias pelo mundo afora, num levantamento à altura dos estudos do economista norte-americano Thomas Sowell, que, analisando as ações afirmativas de países como Estados Unidos, Índia, Ni­gé­ria, Sri Lanka e Malásia, de­monstra a ineficácia das políticas pú­blicas que visam a emancipar as mi­norias e, no mais das vezes, acabam produzindo injustiças e conflitos.

E o que é mais grave: muitas dessas minorias só tomam consciência de si, criando uma história que nunca tiveram, por meio do discurso ideológico produzido nas universidades e fomentado com recursos de poderosas fundações privadas, como a Fundação Ford. De­métrio Magnoli descreve esse fenômeno: “Diferentemente das nações, que emanam de um processo complexo de fabricação de uma história, uma literatura e uma geografia, as ‘minorias’ da globalização emergem apenas de uma postulação étnica superficial. Nações podem até ser interpretadas como imposturas, mas são imposturas nas quais o povo acredita. As ‘minorias’, em contraste, são imposturas nas quais nem mesmo os impostores acreditam”.
Para Demétrio Magnoli, as elites multiculturalistas que formam essas minorias artificiais “não precisam de apoio popular, pois a sua legitimidade se conquista nos salões suntuosos das instituições internacionais”. O autor mostra que só a Fundação Ford destinou 280 milhões de dólares, em 2001, para criar programas de pós-graduação voltados para a formação de “lideranças emergentes de comunidades marginalizadas fora dos EUA”. Segundo outras fontes, de 1962 a 2001, a Fundação Ford investiu só no Brasil 347 milhões de dólares, em valores corrigidos pela inflação. Magnoli afirma que “as subvenções da Fundação replicaram nas universidades brasileiras os modelos de estudos étnicos e de ‘relações raciais’ aplicados nos EUA e consolidaram uma rede de organizações racialistas que começaram a produzir os discursos e demandas dos similares norte-americanos”.
Atentado à dignidade humana
Ora, se até o histórico movimento negro já está perdendo suas raízes legítimas e se tornando um engenho ideológico da academia, o que dizer de movimentos sem qualquer lastro histórico, como a Marcha das Vadias? Tanto no Canadá, onde teve origem, quanto no Brasil, que imita tudo, essa marcha é pura consequência dos estudos de gênero que se disseminaram pelas universidades de todo o mundo. Vá lá que, em metrópoles como São Paulo ou Nova York, onde existem tribos para todos os gostos, esse tipo de marcha pudesse surgir espontaneamente (e nem isso ocorre). Mas o que dizer da modesta cidade de Jataí, no interior de Goiás, com seus 93.759 habitantes? Lá, a “Marcha das Vadias” só existe porque conta com o apoio do Campus UFG, por meio de um grupo de extensão sobre gênero, direitos e violência.
O extremismo ideológico que grassa nas universidades pode chegar ao ponto de destruir a própria dignidade humana, equiparando-se aos experimentos de Joseph Men­gele no ápice do terror nazista. Em 29 de maio último, os alunos do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense, como parte da disciplina chamada “Corpo e Resistência”, promoveram no Campus de Rio das Ostras o evento “Xereca Satânica”, em que, a pretexto de denunciar o alto índice de estupro, uma mulher teve a vagina costurada no meio da festa. Depois que o evento foi denunciado na grande imprensa, a Polícia Federal chegou a abrir inquérito para apurar responsabilidades, mas provavelmente a investigação não dará em nada, esbarrando na apregoada liberdade estética de seus promotores.
Mais espantoso do que o próprio evento foi a defesa que se tentou fazer dele. O coordenador do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense, Daniel Caetano, graduado em Cinema e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade, explicou que a mulher que teve a vagina costurada integra um coletivo de Minas Gerais que foi ao Rio especialmente para participar do evento. E acrescentou: “É um coletivo que está habituado a fazer performances como a que aconteceu, feitas para chocar a sensibilidade das pessoas e fazê-las pensar sobre seus próprios limites”. Ora, se é para testar limites, que se acabe com a tal Comissão da Verdade e se contratem torturadores da ditadura para fazer performances nas universidades.
Daniel Caetano foi ainda mais longe, afirmando taxativamente: “Embora não tenham sido feitos ‘rituais satânicos’ e o título do evento fosse essencialmente provocativo (ao contrário do que o jornalismo marrom afirmou), precisamos dizer que não haverá de nossa parte qualquer censura a atos do gênero”. E desafiou: “Qualquer pessoa em cargo público que porventura se posicionar contra a performance será por nós inquirida acerca de suas atitudes prévias contra os estupros em Rio das Ostras”. Engraçado é que essa gente, quando se trata de combater criminosos armados, sempre fica contra a polícia, alegando que violência não se combate com violência. Mas na universidade ensina a combater o estupro estuprando – o corpo, a inteligência e a dignidade humana.
Efeitos negativos na educação básica
Mas engana-se quem pensa que essa ideologia destrutiva fica restrita às universidades e afeta apenas a qualidade do ensino superior. Ela tem graves consequências na sociedade, especialmente em áreas como saúde e educação. Esse tipo de ativista, até por integrar coletivos ideológicos, participando de amplas redes de relacionamento acadêmico, acaba fazendo especialização, mestrado, doutorado e se tornando autoridade pedagógica, indo pontificar na educação básica sobre gênero, minorias, exclusão. Em que outro lugar um especialista em costurar vagina e teorizar sobre isso arranjaria trabalho? Só mesmo nas Secretarias de Educação, onde poderá pontificar sobre teoria de gênero e “heteronormatividade burguesa”, coordenando a distribuição de camisinhas e kit gay.
Agora pensem quantas camisinhas não dá para distribuir nas escolas com 10% do PIB para gastar? É por isso que, antes de se investir essa fabulosa soma de recursos na educação, seria preciso combater a doutrinação nas escolas. É evidente que o conhecimento não é absolutamente neutro e o professor ou o autor de um livro, na relação com seus alunos e leitores, fatalmente há de misturar alguma crença pessoal em meio aos fatos que leciona. Mas justamente por reconhecer essas limitações humanas, é que a ciência sempre se esforçou para criar métodos que afastassem ao máximo a inevitável subjetividade do indivíduo – e a educação, que serve à ciência e dela se serve, tam­bém esposou esse mesmo prin­cípio, inculcando no mestre a necessidade de cultivar a imparcialidade.
Mas, hoje, ocorre o contrário: ancorando-se em pensadores como o pedagogo Paulo Freire e o filósofo Michel Foucault, o ensino se tornou um instrumento das mais diversas lutas políticas, transformando as escolas num feirão de experimentos de gueto, em que cada minoria julga-se no direito de ter o seu português, a sua matemática, a sua história, a sua geografia, a sua literatura, dilapidando o patrimônio comum que tornou possível o surgimento das grandes civilizações ao longo da história.
Seminário contra a doutrinação

Felizmente, já surgem reações a essa destrutiva politização do ensino. Exemplo disso é a ONG Escola Sem Partido, fundada e coordenada pelo jurista Miguel Nagib, à frente de um grupo de pais e alunos que lutam contra a doutrinação nas escolas. Além do blog que leva seu nome e acumula dezenas de estudos de caso de doutrinação, a ONG realizará na próxima quinta-feira, 24, em Brasília, o I Congresso Nacional so­bre Doutrinação Política e Ideológica nas Escolas, em parceria com a Federação Nacional das Escolas Particulares. O evento será sediado no Colégio Ciman, em Brasília, e terá transmissão ao vivo pela internet, no site da Fenep. O filósofo Olavo de Car­valho será um dos palestrantes, por videoconferência, diretamente dos Estados Unidos, onde reside.

Um fato que chama a atenção no seminário é a presença de professores universitários com doutorado, numa prova de que a fortaleza ideológica da esquerda no ensino superior não é inexpugnável. Luís Lopes Diniz Filho é doutor em Geografia pela USP, professor do Depar­tamento de Geografia da UFPR e autor dos livros “Funda­mentos Epistemoló­gicos da Geografia” (2009) e “Por uma Crítica da Geografia Crítica” (2013). Bráulio Porto de Matos é professor da Faculdade de Edu­cação de Brasília, mestre e doutor em sociologia pela UnB e pós-doutor pela University of Sussex, além de autor de “Pedagogic Authority and Girard’s Analysis of Human Vio­lence” e co-autor de “A Pós-Gra­du­ação no Brasil – Formação e Tra­ba­lho de Mestres e Doutores no País”.
O medievalista Ricardo da Costa é professor do Depar­ta­mento de Teoria da Arte e Música da Uni­ver­sidade Federal do Es­pí­rito e doutor pelo Institut Su­perior d’Investigació Coope­ra­tiva Ivitra. Trajano Sousa de Melo é promotor de Justiça do Minis­tério Público do Distrito Federal e Territórios. Ana Caroline Cam­pagnolo é mestranda em História na Universidade do Estado de Santa Catarina e foi professora de História na rede de ensino pública e privada de seu Estado. Miguel Nagib é advogado e o idealizador de tudo isso. Este que vos escreve completa o quadro de palestrantes. E levo comigo Durkheim, que profeticamente alertava: “De que serviria uma educação que levasse à morte a sociedade que a praticasse?”.

Publicado no Jornal Opção e no Mídia Sem Máscara.


José Maria e Silva é sociólogo e jornalista.

[pdf] PARA ALÉM DO BOM-MOCISMO

PARA ALÉM DO BOM-MOCISMO

Redigida no dia 22 de julho de 2014, dia de Santa Maria Madalena. Décima sexta semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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É interessante prestarmos atenção na forma como muitos indivíduos avaliam a bondade ou maldade duma pessoa. Não que não possamos, objetivamente, saber se um sujeito seja de boa ou má inclinação. Podemos discernir sim senhor. Porém, o que salta as nossas vistas são os critérios que muitas das pessoas esclarecidas, frequentadoras assíduas dos jantares inteligentes, descritos por Luiz Felipe Pondé, utilizam para declarar se uma pessoa integra ou não as fileiras das hostes do lado negro da força.

Para essa gente, crítica de doer, a pessoa deve, necessariamente, defender uma lista de bandeiras e causas que a rotulam como sendo “do bem”. Caso ela não comungue desses rótulos, inevitavelmente ela é do mal. Ponto. Não pertence ao “coletivo do bem”.

Um bom exemplo disso, colhido a esmo, é o duma conversa a muito tecida. Em meio a todo o blablablá, meu interlocutor disse-me: “Pois é. O sicrano é um canalha mesmo. E o pior é que ele é petista. Como é que pode? Mas isso não quer dizer nada pra você, não é mesmo?”

Bem, pode dizer muita coisa, ou nada. Porém, desde quando ser ou não ser petista é atestado de honorabilidade? Desde quando uma filiação partidária o coloca acima de qualquer suspeita, instando-o muito além do bem e do mal? Onde está escrito que um indivíduo torna-se impoluto simplesmente por defender uma determinada ideologia política? O finado João Ubaldo Ribeiro, e bem como Jorge Amado, diziam, cada um a seu modo, que há canalhas tanto à destra como à sinistra. Só não vê isso quem é lelé da cuca.

Vejam só como são as coisas: você pode ser uma pessoa de elevada dignidade e valor e tornar-se signatário dum partido totalitário, defender uma ideologia inescrupulosa e, ainda, ser uma pessoa boa. Sim, uma pessoa equivocada em suas convicções, que deposita suas fichas e esperanças de maneira desavisada num grupelho de crápulas não é, necessariamente, má. Apenas, como muitos de nós, equivocada nesta ou naquela escolha. Sobre isso, o filósofo Mário Ferreira dos Santos ensina-nos, em seu “Análise de Temas Sociais – Tomo II”, que o que move muitas pessoas a aderirem ao socialismo, utópico ou “científico”, é um sentimento justo de indignação, porém, esse justo sentimento não corrige os equívocos dessas doutrinas e nem mesmo evita suas turvas consequências.

Também, uma pessoa cruel, de coração infra-humano, pode muito bem infiltrar-se numa pia comunidade para corromper as pessoas boas que lá estão, distorcendo e confundindo tudo. Aliás, lembremos a grandessíssima lição que nos foi ensinada pelo Verbo divino encarnado: dos apóstolos apenas um esteve com ele ao pé da cruz. E, dentre os doze, estava o traíra.

Por isso, nota-se o quão perigosos são os juízos emitidos por aqueles que se consideram a fatia esclarecida da sociedade. Tornando um ente externo (partido, organização, ideologia) o critério último para auferir a benignidade, ou malignidade de alguém, estamos inevitavelmente anulando a autonomia de nossa consciência individual para, servilmente, tornarmo-nos autômatos que encaixam as pessoas nesses ou naqueles rótulos políticos para beatificar uns e condenar outros. Mas, tudo isso será feito criticamente, é claro.

É por essas e outras que J. O. de Meira Penna, em seu clássico “Ideologia do século XX” afirma que comunismo e nazismo são irmão siameses. Entre os muitos pontos convergentes dessas duas doutrinas totalitárias, lembremos que ambas elevam um credo político-ideológico ao patamar dum critério moral absoluto e onipresente.

Ontologicamente, a moral antecede a política. Porém, quando se inverte essa ordem, inevitavelmente, a política perverte a moral, tal qual vemos no exemplo casual apontado anteriormente. Tal qual vemos, de modo amplo e irrestrito, ocorrendo em nosso país hoje em dia que não mais sabe a diferença substancial que há entre o bom-mocismo fingido e a bondade abnegada.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os tribunais de faz de conta

Por Analdo Jabor


Caso dos tribunais de contas estaduais é um bom exemplo do grau de corrupção que se entranhou no Brasil.

A destruição da inteligência


Aprender, imitar e introjetar o vocabulário, os tiques e trejeitos mentais e verbais da escola de pensamento dominante na sua faculdade é, para o jovem estudante, um desafio colossal e o cartão de ingresso na comunidade dos seus maiores, os tão admirados professores.

A aquisição dessa linguagem é tão dificultosa, apelando aos recursos mais sutis da memória, da imaginação, da habilidade cênica e da autopersuasão, que seria tolo concebê-la como uma simples conquista intelectual. Ela é, na verdade, um rito de passagem, uma transformação psicológica, a criação de um novo “personagem”, apoiado no qual o estudante se despirá dos últimos resíduos da sentimentalidade doméstica e ingressará no mundo adulto da participação social ativa.

É quase impossível que essa identificação profunda com o personagem aprendido não seja interpretada subjetivamente como uma concordância intelectual, ao ponto de que, no instante mesmo em que repete fielmente o discurso decorado, ou no máximo faz variações em torno dele, o neófito jure estar “pensando com a própria cabeça” e “exercendo o pensamento crítico”.

A imitação é, com certeza, o começo de todo aprendizado, mas ela só funciona porque você imita uma coisa, depois outra, depois uma infinidade delas, e com a soma dos truques imitados compõe no fim a sua própria maneira de sentir, pensar e dizer.

No aprendizado da arte literária isso é mais do que patente. O simples esforço de assimilar auditivamente a maneira, o tom, o ritmo, o estilo de um grande escritor já é uma imitação mental, uma reprodução interior daquilo que você está lendo. A imitação torna-se ainda mais visível quando você decora e declama poemas, discursos, sermões ou capítulos de uma narrativa. Porém nas suas primeiras investidas na arte da escrita é impossível que você não copie, adaptando-os às suas necessidades expressivas, os giros de linguagem que aprendeu em Machado de Assis, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Balzac, Stendhal e não sei mais quantos. Esse exercício, se você é um escritor sério, continua pela vida a fora. Quando conheci Herberto Sales – que Otto Maria Carpeaux julgava o escritor dotado de mais consciência artística já nascido neste país --, ele estava sentado no saguão do Hotel Glória com um volume de Proust e um caderninho onde anotava cada solução expressiva encontrada pelo romancista, para usá-la a seu modo quando precisasse. Já era um homem de setenta e tantos anos, e ainda estava praticando as lições do velho Antoine Albalat.[1] É assim, por acumulação e diversificação dos recursos aprendidos, que se forma, pari passu com a evolução natural da personalidade, o estilo pessoal que singulariza um escritor entre todos. T. S. Eliot ensinava que um escritor só é verdadeiramente grande quando nos seus escritos transparece, como em filigrana, toda a história da arte literária.

Em outros tipos de aprendizado, a imitação é ainda mais decisiva. Nas artes marciais e na ginástica, quantas vezes você não tem de repetir o gesto do seu instrutor até aprender a produzi-lo por si próprio! Na música, quantas performances magistrais o pianista não aprende de cor até produzir a sua própria!
Nas ciências e na tecnologia, o manejo de equipamentos complexos nunca se aprende só em manuais de instrução: o aluno tem de ver e imitar o técnico mais experiente, num processo de assimilação sutil que engloba, em doses consideráveis, a transmissão não-verbal. [2]

Por que seria diferente na filosofia? Compreender uma filosofia não se resume nunca em ler as obras de um filósofo e julgá-las segundo uma reação imediata ou as opiniões de um professor. É impregnar-se de um modo de ver e pensar como se ele fosse o seu próprio, é olhar o mundo com os olhos do filósofo, com ampla simpatia e sem medo de contaminar-se dos seus possíveis erros. Se desde o início você já lê com olhos críticos, buscando erros e limitações, o que você está fazendo é reduzir o filósofo à escala das suas próprias impressões, em vez de ampliar-se até abranger o “universo” dele. Erros e limitações não devem ser buscados, devem surgir naturalmente à medida que você assimila novos e novos autores, novos e novos estilos de pensar, pesando cada um na balança da tradição filosófica e não da sua incultura de principiante. Não seria errado dizer que, entre outros critérios, um professor de filosofia deve ser julgado, sobretudo, pelo número e variedade dos autores, das escolas de pensamento, das vias de conhecimento que abriu em leque para que seus estudantes as percorressem.[3]

Não é preciso mais exemplos. Em todos esses casos, a imitação é o gatilho que põe em movimento o aprendizado, e em todos esses casos ela não se congela em repetição servil porque o aprendiz passa de modelo a modelo, incorporando uma diversidade de percepções e estilos que acabarão espontaneamente se condensando numa fórmula pessoal, irredutível a qualquer dos seus componentes aprendidos.

Mas o que acontece se, em vez disso, o aluno é submetido, por anos a fio, à influência monopolística de um estilo de pensamento dominante, aliás muito limitado no seu escopo e na sua esfera de interesses, e adestrado para desinteressar-se de tudo o mais sob a desculpa de que “não é referência universitária”?
Se durante quatro, cinco ou seis anos você é obrigado a imitar sempre a mesma coisa, e ainda temendo que o fracasso em adaptar-se a ela marque o fim da sua carreira universitária, a imitação deixa de ser um exercício temporário e se torna o seu modo permanente de ser – um “hábito”, no sentido aristotélico.

É como um ator que, forçado a representar sempre um só personagem, não só no palco mas na vida diária, acabasse incapaz de se distinguir dele e de representar qualquer outro personagem, inclusive o seu próprio. Pirandello explorou magistralmente essa situação absurda na peça Henrique IV, onde um milionário louco, imaginando ser o rei, obriga os empregados a comportar-se como funcionários da côrte, até que eles acabam se convencendo de que são mesmo isso.

Toda imitação depende de uma abertura da alma, de uma impregnação empática, de uma suspension of disbelief em que o outro deixa de ser o outro e se torna uma parte de nós mesmos, sentindo com o nosso coração e falando com a nossa voz. Se praticamos isso com muitos modelos diversos, sem medo das contradições e perplexidades, nossa mente se enriquece ao ponto do nihil humanum a me alienum, daquela universalidade de perspectivas que nos liberta do ambiente mental imediato e nos torna juízes melhores de tudo quanto chega ao nosso conhecimento. Não é errado dizer que o julgamento honesto e objetivo depende inteiramente da variedade dos pontos de vista, contraditórios inclusive, que podemos adotar como “nossos” no trato de qualquer questão.

Em contrapartida, o enrijecimento da alma num papel fixo abusa da capacidade de imitação até corrompê-la e extingui-la por completo, bloqueando toda possibilidade de abertura empática a novos personagens, a novos estilos, a novos sentimentos e modos de ver.

Habituado a tomar como referência única o conjunto de livros e autores que compõe o universo mental da esquerda militante, e a olhar com temerosa desconfiança tudo o mais, o estudante não só se fecha num provincianismo que se imagina o centro do mundo, mas perde realmente a capacidade de aprendizado, tornando-se um repetidor de tiques e chavões, caquético antes do tempo.

Quem não sabe que, no meio acadêmico brasileiro, a receita uniforme, há mais de meio século, é Marx-Nietzsche-Sartre-Foucault-Lacan-Derrida, não se admitindo outros acréscimos senão os que pareçam estender de algum modo essa tradição, como Slavoj Zizek, Istvan Meszaros ou os arremedos de pensamento que levam, nos EUA, o nome de “estudos culturais”?

Daí a reação de horror sacrossanto, de ódio irracional, não raro de repugnância física, com que tantos estudantes das nossas universidades reagem a toda opinião ou atitude que lhes pareça antagônica ao que aprenderam de seus professores. Não que estejam realmente persuadidos, intelectualmente, daquilo que estes lhes ensinaram. Se o estivessem, reagiriam com o intelecto, não com o estômago. O que os move não é uma convicção profunda, séria, refletida: é apenas a impossibilidade psicológica de desligar-se, mesmo por um momento, do “eu” artificial aprendido, cuja construção lhes custou tanto esforço, tanto investimento emocional.

Justamente, a convicção intelectual genuína só pode nascer da experiência, do longo demorado com os aspectos contraditórios de uma questão, o que é impossível sem uma longa resignação ao estado de dúvida e perplexidade. A intensidade passional que se expressa em gritos de horror, em insultos, em afetações de superioridade ilusória, marca, na verdade, a fragilidade ou ausência completa de uma convicção intelectual. A construção em bloco de um personagem amoldado às exigências sociais e psicológicas de um ambiente ideologicamente carregado e intelectualmente pobre fecha o caminho da experiência, portanto de todo aprendizado subseqüente.

A irracionalidade da situação é ainda mais enfatizada porque o discurso desse personagem o adorna com o prestígio de um rebelde, de um espírito independente em luta contra todos os conformismos. Poucas coisas são tão grotescas quanto a coexistência pacífica, insensível, inconsciente e satisfeita de si, da afetação de inconformismo com a subserviência completa à autoridade de um corpo docente.

No auge da alienação, o garoto que passou cinco anos intoxicando-se de retórica marxista-feminista-multiculturalista-gayzista nas salas de aula, que reage com quatro pedras na mão ante qualquer palavra que antagonize a opinião de seus professores esquerdistas, jura, depois de ler uns parágrafos de Bourdieu para a prova, que a universidade é o “aparato de reprodução da ideologia burguesa”. Aí já não se trata nem mesmo de “paralaxe cognitiva”, mas de um completo e definitivo divórcio entre a mente e a realidade, entre a máquina de falar e a experiência viva.

Se, conforme se observou em pesquisa recente, cinqüenta por cento dos nossos estudantes universitários são analfabetos funcionais[4] – não havendo razão plausível para supor que a quota seja menor entre seus professores mais jovens --,  isso não se deve somente a uma genérica e abstrata “má qualidade do ensino”, mas a um fechamento de perspectivas que é buscado e imposto como um objetivo desejável. 

Não que a presente geração de professores que dá o tom nas universidades brasileiras tenha buscado, de maneira consciente e deliberada, a estupidificação de seus alunos. Apenas, iludidos pelo slogan que os qualificava desde os anos 60 do século XX como “a parcela mais esclarecida da população”, tomaram-se a si próprios como modelos de toda vida intelectual superior e acharam que, impondo esses modelos a seus alunos, estavam criando uma plêiade de gênios. Medindo-se na escala de uma grandeza ilusória, incapazes de enxergar acima de suas próprias cabeças, tornaram-se portadores endêmicos da síndrome de Dunning-Kruger[5] e a transmitiram às novas gerações. Os cinqüenta por cento de analfabetos funcionais que eles produziram são a imagem exata da sua síntese de incompetência e presunção.
        

Notas:

[1] V. Antoine Albalat, La Formation du Style par l'Assimilation des Auteurs (Paris, Alcan, 1901).

[2] V. sobre isso as considerações de Theodore M. Porter em Trust in Numbers. The Pursuit of Objectivity in Science and Public Life,  Princeton University Press, 1995, pp. 12-17.

[3] Digo isso com a consciência tranqüila de haver cumprido esse dever. Ao longo dos anos, introduzi no espaço mental brasileiro mais livros e autores essenciais  do que todos os corpos docentes de faculdades de filosofia neste país, somados aos “formadores de opinião” da mídia popular. Em vez de me agradecer, ou de pelo menos ter a sua curiosidade despertada pela súbita abertura de perspectivas, estudantes e professores, com freqüência, me acusaram de “citar autores desconhecidos” – dando por pressuposto que tudo o que é ignorado no seu ambiente imediato é desconhecido do resto do mundo e não tem a mais mínima importância.

[4] V. http://www.folhapolitica.org/2014/02/pesquisador-conclui-que-mais-da-metade.html.

[5] Efeito Dunning-Kruger: incapacidade de comparar objetivamente as próprias habilidades com as dos outros. “Quanto menos você sabe sobre um assunto, menos coisas acredita que há para saber.” V. David McRaney, You Are Not So Smart, London, Oneworld Publications, 2012, pp. 78-81.

Publicado no Digesto Econômico.

http://olavodecarvalho.org

domingo, 20 de julho de 2014

FRAGMENTOS DUM LIVRO QUEIMADO

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1.
A verdade é filha do tempo. O contrário dela, a mentira, da impaciência, de nossa incapacidade de lidar com o fluir mecânico dos relógios e calendários.

Quando estamos apressados, o que queremos, no fundo, não é conhecer a verdade disso ou daquilo. Não. Quando impacientados, o que almejamos é ter simplesmente razão, pouco importando se estamos redondamente enganados.

Por isso, passamos o dia em meio as nossas conversas fugidias... seja no trabalho, nas horas vagas, nos momentos de lazer e, principalmente, diante das luminosas telas... pouco importa, estamos sempre apressados com tudo sem nos importar com nada e, por isso mesmo, pouco nos vale a verdade.

Ela, a verdade, exige de nós algo que a muito perdemos e que, infelizmente, não estamos nem um pouco interessados em recuperar.

E, é claro, temos inúmeras justificativas razoáveis para fundamentar essa nossa desarrazoada atitude. Sempre achamos. Para isso nós encontramos tempo, não é mesmo?

2.
Evangelizar é crime? Nos idos imperiais de Roma, passando pelo México pós-revolucionário era crime sim senhor. E se estacionarmos em regimes islâmicos totalitários, e ditaduras marxistas, para anunciar a Boa Nova, seremos enquadrados. Porém, no Brasil, graças a Deus, ainda não é. Mas até quando?

Essa é uma pergunta pra lá de pertinente, haja vista algumas decisões judiciais que obrigaram a retirada, das ruas de algumas cidades de São Paulo, de outdoors que traziam versículos bíblicos e bem como o intento de restringir as pregações religiosas unicamente dentro do recinto dum templo. Nas ruas, segundo recente proposta legislativa, não. Praças? Também não. E nos canais de televisão? Não sei. Mas você acha que o próximo passo será qual meu caro Watson?

Teoria da conspiração? De modo algum. Simplesmente essa é a lógica dos fatos. Há vinte anos se alguém dissesse que haveria um grupo de manifestantes que se masturbaria com imagens sacras ao lodo dum evento como a Jornada Mundial da Juventude, todos diriam que isso era absurdo. Mas o absurdo tornou-se realidade e não por acaso. Aliás, somente tolos e covardes acreditam no acaso.

Por fim, evangelizar é crime? Como dissemos, por hora, ainda não. Mas, aguarde os próximos capítulos e você testemunhará a ampliação do absurdo que, no momento, nos recusamos a enxergar e a reagir.

3.
Diz-nos Joaquim Nabuco, na centúria retrasada, que: “O júbilo dos materialistas, quando um cientista explora uma porção desconhecida do sistema cerebral, é verdadeiramente ingênua. Outrora nada se sabia sobre o aparelho; só o feito intelectual era conhecido. Hoje a ciência esforça-se por localizar esse feito, ou feitos. Quando terminar esse levantamento do cérebro humano, em que terá progredido a ciência no que se refere ao mecanismo cerebral? E, quando mesmo ela descobrisse esse mecanismo, em que teria progredido quanto à própria natureza do pensamento?”

Eis aí duas perguntinhas que não podemos desdenhar. Ou podemos, por pura presunção. Como também podemos respondê-las com algum fraseado decorado e bonitinho por pura falta de honestidade intelectual e um bom tanto de vaidade.

Pax et bonum
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J. R. R. Tolkien. Árvore e Folha. [pdf]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

PELOS FRUTOS CONHECEREIS

Redigida em 15 de julho de 2014, dia de São Boaventura. Décima quinta semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Nesses dias de Copa do Mundo, e mesmo antes, era comum toparmos nas redes sociais com mensagens do tipo: “os nossos heróis não são jogadores de futebol. São os professores”. Mais duma vez deparei-me com elas. Em alguns casos via-se a foto dum rapaz com um cartaz que ostentava a dita mensagem em meio a uma manifestação, noutras vezes, apenas a mensagem, solitária, no mural dalgum cidadão que declarava garbosamente a atividade dos verdadeiros ídolos da brasilidade.

De minha parte, confesso: não creio nem um pouquinho nisso. Isso mesmo! E se você crê nisso, lhe digo apenas uma coisa: sabe nada inocente! Desde quando o professor é, na sociedade brasileira, uma figura de reverência? Pra ser franco, não creio que os professores mereçam a distinção que é auferida as almas heróicas, haja vista, que essa é devida apenas àqueles que realmente agem de acordo com as virtudes desse gênero. E tem mais! Se a sociedade realmente venerasse virtudes heróicas e estimula-se o cultivo delas, de imediato compreenderíamos o quanto que declarações desse gênero são sintomáticas.

Porém, o respeito que é devido a uma autoridade constituída já estaria de bom tamanho, haja vista que o magistério é um exercício de autoridade. E aí, temos mais um probleminha em nossa sociedade: imagina-se que autoridade seja apenas um poder constituído. Não é por menos que um professor, hoje, para ser respeitado, deve ser uma espécie de superman, ou um algum tipo de pop star, para não ser enxovalhado. Literalmente, esqueceu-se que sala de aula não é um auditório para showzinhos mequetrefes. Esqueceu-se que o chão duma sala de aula é sagrado e que uma escola é um templo. Ao menos, um dia foi. Hoje mais parece um picadeiro.

Muitas são as cenas que são noticiadas pelos veículos de impressa e outras tantas que circulam informalmente na forma de solitários depoimentos agonizantes da parte de professores, alunos e pais que bem retrata a pouca valia que é dada a esse sujeito. Gritos silenciosos. Ou silenciados?

Na verdade, o professor em nossa sociedade é visto como um milagreiro bem à brasileira. Parece piada, mas não é. O sujeito que adentra uma sala de aula, primeiramente, tem toda a sua autoridade esvaziada, tendo que contar unicamente com seus dons naturais, ou sobrenaturais. Se os tiver, sobrevive e até ganha alguns aplausos. Caso contrário, será executado, moralmente, sem clemência.

Bem, estando reduzido à condição de desempoderado, ele poderá começar o seu trabalho de milagreiro que é: ensinar algo para alguns sujeitos que não querem aprender (e perturbam quem o quer), mas que estão sumamente convencidos de que o diploma é seu direito, adquirido, e se forem reprovados, os indivíduos não estariam colhendo o que semearam, mas sim, sendo apenas mais uma vítima do sistema “capetalista”, racista, machista e opressor que existe apenas para excluí-los.

Detalhe: e o professor que os reprovou não outorgou o que foi manifesto de maneira patente pela vontade dos sujeitos. Não! Ele é um dos tentáculos, cruel e alienado, desse sistema injusto que acredita na meritocracia e não no igualitarismo redivivo e redentor que permite que todos possam ter acesso a tudo sem o menor esforço ou, ao menos, com o mínimo de esforço. 

E não apenas muitos infantes e adolescentes creem nessa patacoada. Eles aprenderam isso de muitíssimos professores que fazem desse palavrório seu credo pedagógico. E daí, meu caro Watson, não sabem porque estamos sempre ocupando os últimos lugares nos testes internacionais. E depois, todos se fazem de desentendidos quando veem os aberrantes resultados obtidos pelas concepções pedagógicas reinantes em nosso país.

Ensinar qualquer coisa pra qualquer um nesse cenário, literalmente, é tarefa para um milagreiro. E cuidado! Se o milagre não for realizado a contento do (in)fiel, cedo ou tarde, ele irá puni-lo, da mesma forma que fazem as moças com Santo Antônio que é afogado quando não intercede por elas. Ora, se nesse país, faz-se isso com o Doctor Evangelicus, porque um professor não será enxovalhado por um aluno que se sentiu ultrajado por não ter recebido o que ele considerava seu direito?

Chegamos ao absurdo de muitos acharem normal chamar um professor de idiota e que, tal atitude em sala de aula, não seria uma ofensa, mas apenas uma manifestação cultural incompreendida que deveria ser remediada e vista dentro dum processo mais amplo. É mole ou quer mais?

Enfim, esses são os heróis da sociedade brasileira e essa toda a deferência que a eles se rende. Fazer o que, não é mesmo? Esse é o nosso Brasil bem brasileiro...

Pax et bonum
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[pdf] PELOS FRUTOS CONHECEREIS

Pe. Paulo Ricardo. O marxismo e a destruição das famílias [palestra]

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Oração a São Bento



A Cruz Sagrada seja a minha Luz. Não seja o dragão o meu guia. Retira-te satanás. Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo o teu veneno. Amém (3x)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A COPA DO MUNDO NÃO É NOSSA [pdf]

A COPA DO MUNDO NÃO É NOSSA

Redigida em 08 de julho de 2014, dia de Santo Áquila e Santa Priscila, amigos de S. Paulo, e de São Gregório Grassi e companheiros mártires. 14ª semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Levamos a maior goleada da história das copas do mundo. Todo mundo viu. Até eu vi! Por pouco não foi hexa! Seis a zero para Alemanha. Mas, infelizmente, foi mais.

As piadas nas redes sociais bombaram. O jogo nem havia acabado e aquilo que, até a pouco, era símbolo de orgulho nacional tornou-se objeto de escárnio total. Poderíamos escrevinhar toda uma crônica apenas com as piadas digitas, curtidas e compartilhadas. Mas não o farei. Poderia, haja vista que não sou um amante do futebol, como já havia confessado. Porém, como meu bom pai sempre me ensinou: não se tripudia sobre quem está caído. É uma questão de hombridade.

Verdade seja dita: nesse jogo, o Brasil revelou a sua face decadente, politicamente covarde e moralmente desvalida. Explico-me. Os jogadores em campo agiram de modo similar a muitos brasileiros que, em seu cotidiano, não vestem a camisa de sua equipe e recusam-se a sacrificar-se pela comunidade.

No jogo, como muitas vezes na vida em comunidade, não havia vantagem pessoal aparente para ser galgada. Necessitava-se apenas dum trabalho em equipe. Equipe essa que não existia. Que não existe e que, infelizmente, demorará muito para que venha existir. E não digo isso apenas em relação à pusilanimidade dos jogadores em campo. Não! Bastaram dois gols para que a torcida silencia-se e, não demorou muito para que as vaias e a violência passassem a tomar conta do estádio e para que as redes sociais fossem invadidas por infindáveis gracejos.

Tudo isso, de certa forma, é similar a atitude de muitos cidadãos que não contribuem para o bem comum sob o argumento de que já pagaram os seus impostos, análogo aos nossos governantes que se esquivam malandramente de seus deveres públicos. Muito parecido com certos pais que se eximem de suas responsabilidades quando seus filhos dão problemas, declarando que não podem mais com a vida deles. E todos, praticamente todos, lavam as mãos sem a menor cerimônia ou vergonha.

O vexame foi feito, dentro e fora de campo, sim senhor. Então, bola pra frente. Enterremos o Brasil, país do futebol, da malandragem, do jeitinho, desse costume ridículo de querer tirar vantagem em tudo e façamos nascer, sob os escombros dessa Copa, uma nação de verdade, e não mais um país onde o maior sonho duma criança é tornar-se um jogador disso. Aliás, sejamos francos: um país onde esse tipo de sonho é o número um no imaginário dos infantes é um país condenado à tristeza.

Isso mesmo! Não somos uma nação. Se vivo fossem, essa seria a constatação de Ernest Renan e Jules Michelet. Não aspiramos valores edificantes. Escarnecemos deles. Honra, em nosso país, é motivo de zombaria. Coragem e determinação é coisa para otários. E na falta de algo que realmente nos eleve acima do entulho do dia a dia, acabamos nos apegando a essa idolatria chinfrim dum desporto circense.

Nessa semana, a seleção Alemã enterrou a Pátria de chuteiras. Que bom! Esperamos que de agora em diante o Brasil, de alto a baixo, viva de modo mais digno e procure edificar um novo símbolo de orgulho nacional que não seja meramente uma alegoria midiática e espetaculosa.

Que procuremos agir como uma nação e aprendamos a viver como uma comunidade. Sejamos, de agora em diante, mais do que apenas uma fugidia, etílica e festiva torcida de zumbis que se ufanam apenas dum momento de vago significado.

Enfim, a seleção jogou bem? Não. O técnico liderou bem? Também não. E nós, agimos bem? Como nação, não. Como clientes insatisfeitos, talvez sim. Porém, como nos ensina Eça de Queiroz, a soma de muitos egoísmos não faz uma nação, da mesma forma que manifestações de indignação epidérmica não caracterizam um cidadão.

Sem mais delongas, o que nos falta, definitivamente, é honradez, senso de dever e desejo de realização coletiva. O que nos falta é agirmos como nação e não apenas, de vez enquanto, sentirmo-nos como uma por estarmos sentados numa arquibancada ou em frente a uma televisão.

E tenho dito.

Pax et bonum
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A ROSA DOS VENTOS

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1.
  Querer dizer algo sem saber ao certo o que dizer... Pra que? Porque devemos dizer alguma coisa sobre algo que, até o momento em que fomos interrogados, não nos perturbava?

Por mais que recusemos, opinar é um vício, sim senhor. Um terrível vício que afeta mortalmente nossa capacidade cognitiva. Vício esse que é estimulado desde tenra idade e que cultivamos de maneira mui grata no correr dos anos de nossa vida.

Desde infantes falamos, e como falamos, sem nos perguntar, por um único instante, se realmente sabemos o que estamos dizendo. E se indagado somos sobre a substancialidade do dito, nos irritamos. Porém, logo voltamos ao deleite alucinante do opinar sem saber claramente sobre o que estamos parlando.

É por essas e outras que calar, muitas das vezes, é um salutar remédio. Calar, silenciar interiormente e perguntar-se: mas, o que realmente eu sei sobre isso? O quanto de tempo eu dediquei para conhecer o assunto? Por quanto tempo eu pensei sobre isso?

Sim, é chato, mas opinar sobre qualquer coisa sem ao menos ter tido o mínimo interesse em conhecer o que se está opinando é picaretagem da brava. Picaretagem essa que, literalmente, é o desporto número um dos bem e mal formados desse país. Enganam-se, redondamente, aqueles que pensam que é o futebol. Lamento.

2. 
Se você quer saber de que material é feito um sujeito, não pergunte como ele ganha a vida, mas sim, acompanhe-o nas atividades do seu tempo livre.

Sim, trabalhar é preciso e, na maioria das vezes, as pessoas não ganham a sua vida com um ofício que é, como direi, divertido. Os meios de ganhar o pão de cada dia, em sua maioria, são soturnos, rotineiros e, mesmo assim, esses devem ser realizados estoicamente como um dever moral sem chororó ou mamãe barriga me dói. Ponto. Essa é a tal da vida adulta e não tem lesco-lesco.

Dito isso, vamos em frente: o que fazemos em nosso tempo livre, diz muito a nosso respeito. Muitíssimo! Os temas de nossas conversas, os objetos de nossa curiosidade, as atividades, nossas companhias e os prazeres que desfrutamos nesses momentos são um retrato de altíssima resolução de nossa alma.

Por isso, é muito difícil levar a sério o que as pessoas, dum modo geral, falam a respeito dos caminhos e descaminhos de nosso país. Quando essas falas são confrontadas com o que é vivido no tempo ocioso desses indivíduos, tudo se revela demasiadamente postiço.

É isso. Há quem goste desse teatrinho e viva desse frívolo fingimento. Compreendo. Gosto é gosto, já dizia um garotinho comento gulosamente tatu. Eu, de minha parte, dispenso.

3. 
Devemos querer ser um bom exemplo para as jovens gerações? Não. Isso é muito forçado e artificial. Os jovens são inteligentes e não caem nessas lorotas. Devemos sim, nos esforçar para não sermos um mau exemplo. Em não sermos motivos de escândalo para os pequenos, como nos ensina a Letra do Evangelho.

Se esse esforço for sincero, será muito inspirador para aqueles olhares moços que são obrigados a testemunhar, quase que diariamente, tantos adultos agindo de maneira vil e degradante. Adultos esses que creem estar aproveitando o melhor da vida ao mesmo tempo em que a desperdiçam. E como desperdiçam...

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terça-feira, 1 de julho de 2014

NOTAS QUASE PERDIDAS

Por Dartagnan da Silva Zanela

1.
Todos têm lá sua desorientação. Todos. Mas essa se torna uma prisão sem grades quando tudo o que, por definição, deveria orientar as almas, encontra-se a serviço da diabólica confusão crescente.

Tudo, tudo mesmo, que um dia foi fonte de civilidade, hoje, é caminho de perdição. Tal fato é a mais pura obviedade. Basta que tenhamos um pingo de coragem, e de vontade, para ver e reconhecer a mais óbvia verdade.

Mesmo que “criticamente” se fale o contrário, a educação no seu mais elevado sentido deu lugar a um vulgar aparato para adestrar as almas dos infantes, levando-os a assimilar os trejeitos e manias da ideológica moda reinante para serem oficialmente rotulados como cidadãos e aceitos como normais, sem saber, é claro, que a normalidade no Brasil foi reduzida a um chulo desvario e a cidadania num reles lugar comum, obscuro, e sem sentido.

2. 
Fico cá com meus botões, a perguntar-me com que autoridade podem as potestades Estatais arrogar querer modificar os valores cristãos cultivados pela sociedade? Estado que, dissimuladamente, diz representar os referidos valores ao mesmo tempo em que, descaradamente, cumpre ordeiramente a agenda de organismos e entidades que tem por meta destruir as bases da cristandade abrindo espaço para consolidar a nova ordem mundial, corrompendo todo e todos desde a mais tenra idade.

As potestades Estatais esquecem-se dia e noite, noite e dia, que a laicidade do Estado Brasileiro, de modo algum, os investem de poder e autoridade que lhes permita manipular e destruir os valores que fundam a vida em sociedade.

Esquecem, ou fingem cinicamente não saber, que o Estado e suas instituições, existem para representar a sociedade e não para implantar os interesses e projetos de grupelhos, disfarçados de coletivos e movimentos sociais, que sorrateiramente instrumentalizam o cabedal de ferramentas Estatais para fazer valer sua sanha totalitária em detrimento de toda a verde-amarela comunidade.

É isso. E tenho dito...

Pax et bonum
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