quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Uma oração de Santa Tereza D'Ávila

Nada te perturbe.
Nada te espante.
Tudo passa.
A paciência tudo alcança.

Nada me perturbe.
Nada me espante.
A quem tem Deus nada falta.
Só Deus basta. Amém.

Os black blocs e a rebelião da irracionalidade

Por Cesar Ranquetat Júnior

Há poucos dias, os jornais e redes de TV de todo o país noticiaram a covarde agressão sofrida por um coronel militar de São Paulo, perpetrada por integrantes do grupo Black Blocs. O coronel foi espancado por um bando de cerca de dez “manifestantes” e ainda golpeado com uma barra de ferro por um dos mascarados, quando da realização de mais um protesto organizado pelo Movimento Passe Livre, na capital paulista. Neste protesto, os  black blocs  ainda depredaram caixas eletrônicos e catracas, e tacaram fogo em um ônibus.

Tal modus operandi não é novidade. Este grupo vem se caracterizando pelo uso da violência e por atos de vandalismo nas manifestações que vêm ocorrendo pelo país. A depredação de lojas, bancos e do patrimônio público é uma tática de ação, uma estratégia de luta política dos black blocs.

Diante destes atos de violência e vandalismo que se avolumam, ficam no ar as seguintes questões: o que querem os black blocs? Qual o modelo de sociedade que desejam? Enfim, contra o quê e em nome de quem se rebelam?

Responder estas questões não é uma missão das mais fáceis, pois ainda são nebulosos, sem contornos precisos e claros – como insinuam suas vestimentas e máscaras pretas –, os objetivos políticos deste agrupamento. No entanto, as recentes atitudes e algumas declarações dos membros desta organização podem nos ajudar a lançar alguma luz e tornar mais compreensíveis as intenções e finalidades do referido grupo.

Em uma entrevista para um site jornalístico, uma integrante do movimento assim se manifestou: “Estamos lutando por algo que ainda não sabemos o que é, mas que pode ser o início de algo muito grande que pode acontecer para frente”.[i] A mesma integrante, em outro momento da reportagem, declarou: “Espero que estejam fazendo tudo isso por todo mundo”[...]. “É uma luta pela humanidade”.

Fica patente nestas colocações certo messianismo político, ou seja, a crença infundada de que uma organização política possa fazer algo de grandioso, inovador e revolucionário. Algo que sirva a todos os homens, e que modifique por completo a face do mundo. Para eles, a salvação do homem e do mundo vem através da ação política, numa luta do bem – encarnado por este movimento – contra o mal, que dependendo das circunstâncias pode ser a burguesia, a Igreja Católica, o capitalismo, os Estados Unidos, a moral tradicional, etc…

Em outras declarações à imprensa, os blac blocks afirmam lutar contra o  “sistema”, contra as injustiças do “capitalismo explorador”. Gostaria de saber que entidade abstrata é essa – o sistema -, e, se o modelo de sociedade que eles defendem será mais justo que o “capitalismo selvagem”. Bem, quanto à isso pouco sabemos, porque eles nada dizem sobre que tipo de sociedade querem implantar. Mas a julgar pelo seu uso desmedido da violência não será muito melhor que a “exploradora e maldita” sociedade capitalista. Na realidade, com este tipo de declaração, os black blocs nada mais fazem que repetir mecanicamente e ad nauseam os já surrados e anacrônicos chavões da esquerda tupiniquim.

Sob este aspecto, em seu ódio visceral ao sistema capitalista e às liberdades burguesas, esta organização política nada se assemelha com os outrora cunhados rebeldes sem causa, os revolucionários sem bandeira dos anos de 1960. Sua causa “sagrada” que redimirá a humanidade oprimida, nada mais é que o velho e famigerado socialismo revolucionário. Estamos, novamente, diante de um ativismo radical que, por meio da violência e da brutalidade, objetiva por fim às injustiças do mundo e instaurar uma suposta sociedade ideal, igualitária e fraterna.

Uma situação que pode esclarecer ainda mais os objetivos políticos deste movimento é a que ocorreu no Dia da Pátria, no Rio de Janeiro. Em pleno 7 de setembro, quando das comemorações deste dia cívico, os integrantes do movimento retiraram as bandeiras do Brasil, do estado e do município do Rio Janeiro de suas hastes e, posteriormente, as queimaram. No lugar destas, colocaram a bandeira negra do grupo. Vale lembrar que as bandeiras localizavam-se junto ao monumento Zumbi dos Palmares. Este ato é altamente significativo, porque se trata de um ataque ao símbolo máximo que representa a nação brasileira. Conspurcar o pavilhão nacional e substituí-lo pelo símbolo que representa a identidade do grupo é um ato de guerra à nação, ao seu passado, à sua história. É um ato de profanação a um ícone que materializa as tradições de uma comunidade.

O ato de agressão ao coronel militar e os enfrentamentos constantes com a polícia são também atitudes significativas. Visa-se, com estes atos, não tanto atacar pessoas, mas, sobretudo instituições e símbolos. Busca-se, aviltar os símbolos da ordem e da autoridade representados pela corporação policial. Desse modo, podemos perceber que símbolos que expressam a tradição, a ordem e a autoridade não são bem vistos por esta organização. Isto faz parte da lógica revolucionária,  pois, segundo esta mentalidade, é preciso desmantelar a tradição e a autoridade para fundar uma nova sociedade e uma nova cultura sem laços e vínculos com o passado – concebido pelos revolucionários socialistas e anarquistas como algo retrógado e opressor.

Incendiar ônibus, invadir casas legislativas, depredar lojas e bancos e outras atitudes do mesmo feitio denotam certo barbarismo e primitivismo, um prazer mórbido pela destruição, uma agressividade desmedida e um ativismo desordenado. Evidencia-se nestas atitudes uma tonalidade passional e mesmo irracional. Pergunta: será assim que pretendem edificar uma sociedade melhor? É possível construir uma sociedade mais harmônica com base no ódio e no ressentimento?

Ainda, é sintomático o modo como muitos jornalistas, intelectuais e demais formadores de opinião se mostram condescendentes e complacentes com a violência injustificada e o vandalismo que se espalham nas ruas das capitais brasileiras. Como e por qual razão justificar o injustificável? Curiosamente, os que nesta hora deveriam, mais do nunca,  pugnar pela racionalidade, prudência e moderação, batem palmas de pé para a irracionalidade e o radicalismo triunfante.  Defender organizações deste naipe, que usam e abusam da violência para supostos fins políticos, é colocar-se inevitavelmente ao lado da barbárie e da irracionalidade.

Ademais, será que tal modo de ativismo político revolucionário – de matizes anarquista e socialista – não é também um modo de evasão, uma maneira de contornar e evitar o confronto consigo mesmo? Em ultima instância, a agitação política não seria uma forma de fugir e de elidir-se ilusoriamente dos verdadeiros problemas de ordem pessoal, existencial e espiritual? Em síntese, projetando os males no mundo, na sociedade ou no imperialismo capitalista, acabo por eximir os homens concretos, os indivíduos de carne e osso, de toda responsabilidade, lançando sempre nas estruturas externas a culpa pelas dores do mundo.

O fato inconteste é que todo revolucionário acaba por esquecer uma lição básica. Em sua ânsia de transformar inteiramente o mundo, a sociedade e os outros, acaba por deixar de lado a única e fundamental mudança: que é a sua própria reforma interior, a sua  mudança de atitude frente à  realidade, a construção de si próprio, o árduo e vigoroso trabalho de autoconhecimento, autoformação e transformação pessoal. Será que antes de se agitar de forma abrupta nas ruas, espancando pessoas e destruindo o patrimônio público e privado não seria mais cabível e razoável tentar entender as razões de nossos problemas sociais, estudando a nossa formação histórica, o nosso sistema político e as peculiaridades de nossa cultura? Não é possível agir de modo razoável e prudente, procurando reformas graduais e pontuais na sociedade e em nosso sistema político sem antes dedicar-se de maneira paciente e cansativa ao necessário trabalho de reflexão e conhecimento de nossa própria cultura política. Antes de agir, temos que pensar e estudar. Estudar a nós próprios, nossa sociedade e o mundo em que vivemos.

Grupos revolucionários mais soam como sintomas de uma civilização em crise do que como uma reação justa contra os aspectos anômicos, alienantes e problemáticos da cultura moderna. Em outras palavras, tais movimentos afirmam lutar contra o “sistema”, mas não seriam eles próprios produtos deste mesmo “sistema”? Tudo leva a crer que estamos diante de insurgentes que desfraldam a bandeira negra do caos, da desordem e do niilismo. Avança a passos largos a barbárie e a irracionalidade.

[i] Entrevista para o ste BBC /Brasil. Disponível em:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131014_black_bloc_entrevista_mm.shtml

A revolução abrangente

Por Olavo de Carvalho

Há dois traços essenciais do movimento revolucionário que seus opositores mal conseguem perceber, muito menos utilizar para combatê-lo eficazmente.

O primeiro é a recusa de fixar uma meta definida ou um prazo para alcançá-la. Isso permite que o movimento revolucionário absorva toda sorte de forças e tendências inconexas, unidas tão somente pelo ódio comum a um inimigo que permanece também vago e indefinido o bastante para deixar à liderança revolucionária o espaço livre para toda sorte de arranjos e acomodações oportunistas. Se você pergunta, por exemplo, em que é que a disseminação do homossexualismo pode contribuir para a estatização da economia, ou em que é que a islamização das massas pode contribuir para a disseminação do homossexualismo, a resposta, em ambos os casos é: em nada. No entanto essas três tendências estão irmanadas no combate e juntas contribuem para o fortalecimento do poder revolucionário. A elas somam-se o feminismo, o abortismo, o indigenismo, o ecologismo, a negritude, o movimento pelos “direitos dos animais”, a liberação das drogas etc. etc. etc. A lista não tem fim. Qualquer coisa que tenha alguma força corrosiva serve. Contra quê se unem essas forças? Nominalmente é – às vezes -- contra uma coisa denominada “o sistema”, mas isso é só um símbolo unificador e não uma entidade existente, já que o movimento revolucionário está amplamente escorado no apoio de organizações que personificam o “sistema” da maneira mais clara e inconfundível, como as fundações bilionárias, a grande mídia, a indústria do show business, os organismos internacionais e assim por diante.

Longe, portanto, de se condensar numa “ideologia”, o movimento revolucionário se caracteriza pela sua capacidade de integrar e utilizar discursos ideológicos os mais diversos e heterogêneos. Ideologicamente, seu único princípio de unidade é o ódio feroz e incansável a tudo o que não seja ele próprio, ou a tudo o que se oponha à expansão ilimitada do seu poder.

A força de coesão que mantém juntos os componentes dessa massa heteróclita de ódios e rancores disparatados está na esfera da estratégia e não da ideologia. Essa unidade estratégica reflete-se no fato de que, pelas vias mais diversas e aparentemente incompatíveis entre si, o movimento revolucionário sai sempre fortalecido, haja o que houver.

O segundo traço a que me refiro reside em que o movimento revolucionário não pretende só modificar a situação aqui ou ali, mas dirigir o curso integral da história do mundo. Desde suas origens mais remotas – as rebeliões dos hussitas e taboritas no século XV – esse movimento já trouxe consigo uma interpretação abrangente da história universal e a ambição, ou necessidade compulsiva, de amoldar a ela, até em seus detalhes mais mínimos, a vida de toda a humanidade vindoura.

Só uma outra força histórica abraçou meta semelhante: o Islam. Imaginar que a Cristandade teve objetivo similar é uma ilusão de ótica. O cristianismo sempre lutou pela expansão mundial, mas levando a povos e nações uma mensagem de salvação que se dirigia às almas individuais sem trazer junto nenhum projeto abrangente de uma nova sociedade, antes adaptando-se plasticamente às diversas realidades sociais, culturais e políticas que encontrava pela frente. O Islam, ao contrário, é por essência um projeto de sociedade, um código civil completo que regula todas relações humanas -- sociais, econômicas, familiares, políticas etc. -- e, a rigor, só aceita conviver com outras formas de sociedade enquanto não se sente forte o bastante para islamizá-las de alto a baixo e banir do espaço público – e até mesmo da vida privada – tudo o que não seja expressamente determinado pelo Corão.

Não espanta, portanto, que, após se haverem ignorado mutuamente por longo tempo, o Islam e o movimento revolucionário viessem a se dar as mãos tão logo a luta de classes e a luta de raças, nas primeiras décadas do século XX, com o comunismo e o nazismo respectivamente, assumiram a feição explícita de uma guerra de culturas e nações pelo domínio do globo terrestre.

É certo que essa aliança não poderá durar eternamente. Uma luta de morte entre muçulmanos e revolucionários será inevitável tão logo uns e outros se sintam a salvo de seus inimigos comuns. Mas não há prazo certo para isso acontecer.

O que importa é que esses dois traços – a indefinição plástica das metas e a universalidade das ambições – asseguram ao movimento revolucionário uma flexibilidade de meios de ação que desnorteia os seus adversários e lhe permite transfigurar derrotas em vitórias como num passe de mágica. Os exemplos mais notórios são o sucesso político obtido pelo Vietnã do Norte após a destruição quase completa das suas forças militares, o ressurgimento mundial do esquerdismo quando a queda da URSS parecia anunciar a sua extinção próxima e, em escala menor e mais local, o processo em curso que vai transformando as Farc, de grupo guerrilheiro militarmente moribundo, em força política triunfante, legalmente reconhecida.

Em face desse monstro de mil faces e inumeráveis tentáculos, as resistências que se apresentam são parciais e episódicas, baseadas quase sempre numa visão paroquialmente estreita dos fatores em jogo, ora inspirada em valores religiosos, ora em sentimentos patrióticos daqui ou dali, ora em interesses econômicos de grupos e facções. Na verdade essas forças de resistência sobrevivem não pelos seus próprios méritos, mas tão somente pelo caráter essencialmente negativo do movimento revolucionário, que cresce por autodestruição e nada pode construir de estável.

HAYEK, Friedrich. O CAMINHO DA SERVIDÃO.

O CENTRO PULSANTE DA VIDA

Comentário proferido na rádio Cultura AM em 30 de outubro de 2013.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

MISES, Ludwig von. AS SEIS LIÇÕES.

A MULTIDÃO QUE NÃO SE CALA

Escrevinhação n. 1061, redigida no dia 29 de outubro de 2013, dia de São Narciso, de Santa Ermelinda e da Beata Chiara Luce Badano.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Silêncio, solidão e santidade. Eis aí três pedras fundamentais para dignificação da alma humana. Sem elas, lamentavelmente, o edifício do caráter desmorona, cedo ou tarde. Não é pessimismo, nem fatalismo. É realismo puro e simples.

Explico-me: o silêncio é essencial para a manutenção de nossa vida interior. Silêncio esse que é diariamente vilipendiado pela barulhenta e caótica sociedade moderna. Pior! Acostumamo-nos com a presença inquietante da balburdia da sociedade em nosso coração, esquecendo-nos do silêncio que tanto nos auxilia no cultivo dum diálogo interior e bem como na audiência dos conselhos de nossa consciência individual.

Sim, exteriormente, a agitação dá aquela sensação epidérmica de liberdade e auto-afirmação, entretanto, ela escraviza nosso interior por instigar-nos a estarmos o tempo todo ou a falar algo sem razão, ou a ouvir qualquer coisa sem sentido para preencher o vazio que passou a habitar o âmago de nosso ser.

Cabe lembrar que o silêncio, como nos ensina o Tristão de Athayde, não é sinônimo de privação do uso da palavra. No fundo, o silêncio é a substância dela, o seu sentido mais profundo. Por isso, uma sociedade como a nossa, onde se cultiva histrionicamente o falar pelo falar, o que inexiste é o tal do diálogo. Em seu lugar temos o velho verbalismo oco, alucinado, onde tudo torna-se assunto para nunca ser devidamente conhecido. 

A todo o momento a vida moderna nos convida a distanciarmo-nos de qualquer atividade que nos leve a centrarmo-nos e é por isso que ficar só assusta-nos tanto. Todavia, da mesma forma que o silêncio, a solidão também é um dom precioso, pois nos liberta das multidões que salivam suas presas para nos devorar lentamente e transformar-nos em mais uma célula muda/tagarelante de seu corpo anódino, como nos ensina Nietzsche.

A solidão nos liberta da força voraz dos círculos de escarnecedores que abundam em todas as plagas, disfarçados com os mais variados e simpáticos epítetos. A solidão revela-nos, de mãos dadas com o silêncio, a real condição humana. Esse gentil casal faz-nos companhia nesta jornada de aceitação do velho mandamento inscrito nos umbrais do templo do oráculo de Delfos que nos recomenda conhecermo-nos. A conhecer esse sujeito que imaginamos conhecer tão bem, mas que, no fundo, não passa de um ilustre desconhecido.

Por fim, esse casal pode gestar em nossa alma o excelso valor que a carne rejeita, o mundo despreza, o demônio escarnece e somente a Graça concede. Esse valor é a Santidade que nos foi revelada pelo Verbo Divino no madeiro da Santa Cruz, no silêncio do Calvário, na dolorosa solidão dos cravos atravessados em sua carne e que semeou no coração duma multidão silenciosa e solitária de santos que, com suas vidas exemplares, nos convidam a caminhar na direção da divina verdade que habita o nosso ser e que hoje é tão silenciada e flagelada pela multidão que não ouve e não cala para conhecê-La e conhecer-se.

Pax et bonum
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GIRARD, René. LA VIOLENCIA Y LO SAGRADO.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A LONGA MARCHA DA VACA PARA O BREJO

Comentário proferido na rádio Cultura AM em 29 de outubro de 2013.

ENTRE A MAJESTADE E A INFÂMIA

Escrevinhação n. 1060, redigida entre os dias 27 de outubro de 2013, dia de São Vicente, de Santa Sabina e Santa Cristeta e de São Gonçalo de Lagos, e 28 de outubro de 2013, dia de São Simão e de São Judas Tadeu.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. Lembro-me que, quando criança, imaginava que todos os problemas poderiam ser resolvidos de supetão. Rapidinho. Ledo e delicioso engano da tenra idade a muito vivida. Alguns explicam essa impaciência dos pueris idos devido ao pouco tempo vivido que serve-nos de parâmetro de comparação para mensurar o deleite e a angústia dos momentos ou, como diriam os antigos, simplesmente pelo fato de termos mais futuro que passado o presente torna-se apertado e, por isso, tornamo-nos impacientes com relação a chegada das primaveras que estão por florir. Lembrar dos beicinhos e das birras é algo saudoso e ao mesmo tempo engraçado quando os rastros que ficaram para trás são muitos e a linha de chegada já pode ser vista pelos olhos da alma. Porém, o que é patético pra caramba é vermos jovens e adultos agirem de modo infantilmente brutal depredando tudo que estiver diante de suas vistas encapuzadas e acreditar que tal gesto é duma maturidade tão excelsa quanto incompreendida por aqueles que riem e sorriem de sua infância a muito vivida ao invés de vivê-la tardiamente como um cívico delinquente. Trocando por miúdos: crianças impacientes fazem-nos rir; adultos infantis impacientam qualquer um.

2. Outra passagem da vida de Dom Pedro II que merece destaque imperial em meio à atmosfera republicana reinante é a seguinte: o soldo do Paço Imperial era de apenas oitocentos contos de réis. Uma importância pequena para os padrões da época. Pequena mesmo. Com esses parcos recursos ele cobria não apenas os seus gastos de sua disciplina e austera vida, mas ainda realizava inúmeras doações para instituições beneficentes e, com grande freqüência, concedia bolsas de estudo para todos aqueles que demonstravam talento e interesse. Bolsas concedidas através de recursos próprios, não do erário público. Doações vindas de seu bolso, não de emendas ao orçamento e demais usos e abusos típicos de nossa república. Pois é, Pedro II fazia caridade com o que tinha em sua algibeira imperial e o fazia de maneira discreta. Hoje não são poucas as otoridades que se ufanam com pose de bons-moços fazendo pseudo-caridade com o chapéu alheio. Com o nosso suado dinheirinho que nos é expropriado através de impostos. Porém, pergunto: nós seriamos capazes de gestos tão magnânimos como estes de Dom Pedro II? Imagino que o silêncio responde bem a essa pergunta, não é mesmo?

3. Imersos na banalidade cotidiana, confundimos o exercício de nossa consciência moral com o implicante apontar de nosso dedo mediano para as peculiaridades da vida alheia, para as agruras da vida de um modo geral, para os defeitos congênitos do sistema, do Estado e do tal do CAPETAlismo. Tais atitudes, de modo algum, sinalizam a plena e crítica atividade da dita consciência. Pelo contrário! Denota apenas o quanto ela encontra-se dormente, anestesiada, devido aos excessos de nossos vícios rotineiros. De mais a mais, a quem interessar possa, um bom indicador de sua atividade é nos sentimos, as vezes, brutalmente humilhados no silêncio da intimidade de nossa alma. Mesmo que ninguém conheça a falta cometida por nós, acusamo-nos no meio de nosso deserto interior por nos sentirmos responsáveis não apenas pelo ato gerido por nossas mãos, mas pelo que foi parido por esse ato que tanto nos envergonha. E isso é um ótimo sinal porque apenas a humilhação interior, essa benção divina, nos liberta e nos protege da bestialização auto-bajulatória.

4. Banhamo-nos, alimentamo-nos, vestimo-nos, provemos e repousamos todo santo dia. As necessidades materiais da vida e a manutenção da integridade de nosso corpo sugam uma boa porção de tempo. Porém, quanto tempo nós procuramos banhar nossa alma nas caudalosas águas que advém das Sagradas páginas da Bíblia? Quantas vezes procuramos o maná de suas letras? Vestimo-nos com suas impressas túnicas ou preferimos a nudez verbal mundana? Procuramos a Providência através dos ensinamentos que nos foram providenciados? Procuramos o necessário repouso para nossa alma em meio às páginas da Sagrada Escritura? Já sei, já sei. Não temos tempo para esse tipo de coisa. O mundo e a carne chegaram primeiro e nos assaltaram de tal forma que não mais temos tempo para nada que não vá atender os ditames diretos e indiretos da carne e do mundo, não é mesmo?

5. Coloquemos a galhofa a serviço da justiça, para que ela reencontre a verdade que hoje encontra-se tão vexada diante dos escandalosos gritos das farsas orquestradas e das mentiras manifestas que maldosamente calam sua delicada voz. Por isso, galhofa amiga minha, faça os justos e inocentes rirem destas nefandas damas, mesmo que elas fiquem coradinhas de raiva. Faça as almas ordeiras rirem para poderem abrir seus corações aos gritos da verdade sufocada e, deste modo, colocar no seu devido lugar todas as hostes de almas sebosas, seja através dos traços versados ou por meio das linhas em prosa.

Pax et bonum
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CAMÕES, Luis Vaz de. SONETOS.

Oração de Santo Anacleto González Flores

"¡Jesús misericordioso! Mis pecados son más que las gotas de sangre que derramaste por mí. No merezco pertenecer al ejército que defiende los derechos de tu Iglesia y que lucha por ti. Quisiera nunca haber pecado para que mi vida fuera una ofrenda agradable a tus ojos. Lávame de mis iniquidades y límpiame de mis pecados. Por tu santa Cruz, por mi Madre Santísima de Guadalupe, perdóname, no he sabido hacer penitencia de mis pecados; por eso quiero recibir la muerte como un castigo merecido por ellos. No quiero pelear, ni vivir ni morir, sino por ti y por tu Iglesia. ¡Madre Santa de Guadalupe!, acompaña en su agonía a este pobre pecador. Concédeme que mi último grito en la tierra y mi primer cántico en el cielo sea ¡Viva Cristo Rey!" Amém

TOLERAR É PRECISO

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 28 de outubro de 2013.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Instrumentalização da História

Por Rafael de Mesquita Diehl

Quando estudamos História, devemos sempre distinguir bem os fatos históricos das interpretações, juízos e impressões sobre eles. Pesquisa e análise históricas, via de regra, provém do estudo de fontes e documentações históricas (de diversas naturezas: escritas, artísticas, orais, etc), de interpretações e de discussões com outros estudiosos sobre o tema. Algumas interpretações tornam-se célebres, quer pelo prestígio dos que as formularam, quer por estarem inseridas em uma corrente de pensamento de grande amplitude no contexto em que o estudo foi produzido. Excetuando-se os historiadores e pesquisadores de áreas afins, raramente as pessoas têm contato direto com as fontes históricas, de forma que geralmente passam a conhecer a História de maneira indireta, mediante as interpretações mais conhecidas e comuns construídas pelos estudiosos.

Em um mundo de intenso movimento e mudanças tecnológicas, somos frequentemente tentados a ver os conhecimentos da área de Humanidades como algo decorativo, de pouco valor prático. Assim, desvaloriza-se o estudo da História. Não pretendo nesse texto fazer uma longa defesa da utilidade da História, mas reportei-me a esse dilema porque penso que um dos argumentos para rebatê-lo é o fato de que a História pode ser instrumentalizada para diversos fins –  predominantemente para objetivos políticos e ideológicos.

A instrumentalização da História consiste em transformar – através de uma interpretação distorcida - um contexto histórico em uma forma de legitimação de uma ideologia. Na semana passada, o colunista Luís Guilherme Pereira – neste mesmo site – abordou a temática da ideologia enquanto tentativa artificial de encaixar a realidade dentro de uma determinada maneira de conceber o mundo, distorcendo ou turvando a mesma realidade.

Talvez a forma de instrumentalização histórica mais famosa seja a materialista, de origem marxista, ainda reinante em grande parte dos nossos livros didáticos. A análise materialista tende a ver a economia como causa de todos os eventos históricos, movidos por uma constante tensão dialética entre grupos socioeconômicos antagônicos – a chamada “Luta de Classes”. Assim, por exemplo, toda a história medieval européia é rotulada como uma economia feudal, dividida entre senhores feudais exploradores e servos camponeses explorados. Todas as complexas querelas entre o poder secular e o eclesiástico passam a ser vistas como uma simples disputa pelo controle de uma massa camponesa alienada.

O período medieval é onde podemos ver mais claramente essa instrumentalização histórica, quer pela imagem “anticientífica” que os iluministas rotularam a Igreja Católica, quer pela dicotomização simplista da “economia feudal” feita pelos marxistas.

A instrumentalização histórica é também uma forma de anacronismo, mas de fato, muito mais refinada que a interpretação nacionalista do século XIX. A instrumentalização histórica materialista ou relativista busca revestir-se de cientificidade, e usar-se de interpretações distorcidas para justificar revoluções, regimes totalitários ou a relativização total dos costumes. Tudo sob o pretexto de formar um “cidadão crítico”, cujo ápice de sua “reflexão” resume-se a repetir interpretações históricas de terceiros, quando não apenas slogans ou chavões empobrecidos.

Investir em um estudo mais aprofundado da História, buscando uma maior proximidade com as particularidades contextuais não é necessariamente uma forma de desprezar os bons manuais antigos e a experiência dos historiadores que nos precederam, mas significa sim aprofundar e aprimorar o conhecimento que nos foi legado. Só assim poderemos combater eficazmente a instrumentalização ideológica da História, mostrando através de um bom estudo das fontes que os contextos históricos diferem das distorções ideológicas construídas sobre eles.

Buscar conhecer a História com um maior contato com as fontes e reportando-se à diversos pesquisadores, cruzando os dados e confrontando diferentes interpretações é uma forma de opor-se à instrumentalização ideológica da História. Não se trata de defender um relativismo absoluto, mas apenas de ponderar que enquanto os fatos são objetivos, as interpretações humanas são subjetivas e falíveis. Trata-se tão somente de reconhecer que o conhecimento humano é produzido com erros e acertos e não com interpretações iluminadas de ideólogos que almejam dar ares dogmáticos a objetos que não são matéria de Revelação Divina.

RATZINGER, Joseph (Papa Bento XVI). DIOS Y EL MUNDO.

ORAÇÃO DE SÃO BOAVENTURA

Feri, dulcíssimo Jesus, o mais íntimo e profundo do meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do Vosso amor, com aquela santíssima e inalterável caridade que foi brasão e timbre dos vossos Apóstolos, para que a minha alma se deleite e elanguesça para febre sempre crescente de Vos querer mais. Dai à minha alma que se queime em desejos de Vós, que desfaleça em Vossos átrios, e deseje dissolver-se e confundir-se conVosco. Que tenha fome de Vós, ó Pão dos Anjos, Pão das almas santas, Pão nosso de cada dia, supersubstancial, fonte inexaurível de paz e suavidade. Ó Vós a Quem unicamente os Anjos desejam contemplar! Oh! Que meu coração tenha fome de Vós, que só de Vós se alimente, e que só do prazer que de Vós deriva se comovam as entranhas do meu ser; que só de vós tenha sede, ó fonte da vida e da sabedoria e da ciência e da luz eterna, ó torrente de todos os prazeres, ó riqueza da casa de Deus, só por Vós ansie, só a Vós procure, só a Vós encontre, só para Vós caminhe, só a Vós alcance, só em Vós pense, só de Vós fale, e tudo o que fizer seja para honra e glória do Vosso nome, com humildade e discrição, com prazer e amor, com alegria e afeto, com perseverança até o fim.

Sede, Senhor, a minha única esperança; só em Vós confie, só de Vós seja rico, só em Vós me regozije e alegre, ó meu descanso, ó minha paz, ó meu amor, aroma que me inebriais, doçura que me deleitais, pão que me revigorais, refúgio que me defendeis, auxílio que me escudais, sabedoria que me iluminais, herança e tesouro que espero. Em Quem só a minha alma e meu coração vivam e se radiquem de maneira firme e inabalável. Amém.

[QUASE UM] SONETO N. 04

Por Dartagnan da Silva Zanela,
em 26 de outubro de 2013.

Com uma camiseta a encobrir a cabeça
E com a mesma a ocultar a face
O garoto mimado urra contra o passe
Alienando-se com sua falta de gentileza.

O “V” não é de vingança como nos quadrinhos,
Mas de vândalos alienados por seus mestres,
Que com o grito de revolução em suas mentes
Os fazem de idiotas úteis bem direitinho.

Sim! Os Black Blocs estão nas ruas e praças,
Gritando trocadinhos e palavras de ordem,
Mas como estudantes, não são de nada.

Tocar o horror e depredar eles bem sabem,
Mas estudar, que é bom, nem de passagem,
E essa foi toda sua aprendizagem.

ARISTÓTELES. RETÓRICA.

ENTRE A INFÂNCIA E A MAJESTADE

Escrevinhação n. 1059, redigida entre os dias 22 de outubro de 2013, dia de São João Capistrano, e 26 de outubro de 2013, dia de Santo Evaristo.

Por Dartagnan da Silva Zanela



1. Penso que um juiz bem gabaritado para julgar-nos somos nós mesmos quando ainda estávamos em tenra idade. Isso mesmo! Deslocarmo-nos, imaginativamente, ao nosso mundo infantil, quando tínhamos mais futuro que passado, quando os sonhos eram uma realidade solvida deliciosamente em nossa alma é um exercício reflexivo formidável. Faço isso com relativa freqüência e pergunto-me: o que aquele garoto gordinho me diria? O que ele sentiria em relação ao homem que me tornei? Obviamente que não me tornei o que o eu menino queria ser quando crescido. Creio que raras são as pessoas que realizam suas projeções infantis. Porém, a pergunta que realmente interessa é bem outra. Será que aquela criança que um dia fomos sentiria orgulho ou vergonha do adulto que nos tornamos? Será que essa mesma criança não ficaria até mesmo assustada com determinados gestos e atitudes que tomamos em nosso cotidiano? Não sabe? Então tente perguntar a ela pra ver a resposta que lhe será apresentada.

2. Engraçado. Vejam só como são as coisas: é com grande freqüência que ouvimos um e outro, outro e um, falando o quanto que o povo – sempre o tal do povo – não sabe administrar as suas parcas finanças, ou o quanto que o mesmo é acomodado. Digo isso porque se fôssemos vasculhar, um pouco que fosse, a vida desses tagarelas veríamos que eles sim precisam, urgentemente, aprender um pouco com o tal do Zé do povo que, com pouco, muito pouco, sustenta sua família e, em muitos casos, com digno e honrado sacrifício, propicia um bom futuro aos filhos e constrói sua casa. Por isso, digo e repito: ver pessoas superficiais que resumem suas vidas na expectativa da balada do próximo fim de semana fazerem pose de austeros administradores de seus ganhos e ainda, em meio às excelsas conversas de botequim, vê-los fazer queixas sobre o tal do povo, como se fossem sumidades na gestão de recursos é sacanagem da brava. Coisa de gente de caráter feito de geleia mesmo.

3. Um dos problemas mais sérios de nosso país é a grande quantidade de pessoas com planos e projetos para melhorar o Brasil. Se reunirmos um punhado de brasileiros, mais do que depressa, teremos boleras de soluções para a educação, economia e tutti quanti. É! Todos têm um belíssimo – ou nem tanto – “projeto” para resolver todos os problemas que afligem a nação, porém, nem um dos tagarelantes cívicos possui, e está executando, um projeto para melhorar sua própria vida. Propõem miríades para educação sem realmente trabalhar em sua própria, apresentam panaceias econômicas sem ao menos organizar as suas finanças pessoais e por aí segue o andor. Não nego, de modo algum, que os problemas macrossociais existam e que demandam soluções. Todavia, pergunto: nós, reles mortais, temos em nossas mãos os meios para equacioná-los? Não. Mas pode ter certeza que cada um tem plena autoridade para propor soluções para mudar os rumos e dar o necessário prumo em nossa vida. E pode ter certeza que tal atitude seria muito mais relevante que toda aquela patacoada que brota dos círculos de conversa ociosa que tanto amamos frequentar.

4. Dom Pedro II era, realmente, uma alma aquilatada. Das atitudes que jorravam de seu caráter há uma que, creio eu, seja muitíssimo relevante destacar diante do contexto do Brasil atual. Em suas andanças pelo Império, sempre era recebido por uma corriola de candidatos a capachos e toda ordem de carreiristas no intento de agradá-lo com pompas e paetês. Ele, por sua deixa, não se deixava impressionar com esse esnobismo. Aliás, detestava-o. E mesmo após mostrar seu desdém por toda ordem de cerimônias ocas, muitas das autoridades da localidade propunham a construção dum monumento em honra do Imperador. Honra essa que era prontamente dispensada pelo homenageado que recomendava que a importância que seria gasta com o monumento fosse utilizada na edificação duma escola, ou hospital, ou que fosse doada na forma de bolsas de estudo ou para uma instituição de caridade. Como todos podem ver, tal postura, é idêntica as imposturas de nossas otoridades republicanas do século XXI com suas fichas alvejadas e de caráter desfigurado.

Pax et bonum
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

ORAÇÃO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Graças Vos dou, Senhor Santo, Pai onipotente e Deus eterno, porque Vos dignaste saciar, a mim pecador e Vosso indigno servo, sem merecimento algum de minha parte, mas só por misericórdia Vossa, com o precioso corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho. E peço-vos, Senhor, que esta santa Comunhão não seja para mim motivo de castigo, mas penhor seguro de perdão. Que me seja armadura de fé e escudo de boa vontade. Que extinga na minha alma os vícios, o ardor da concupiscência e o desejo das coisas que degradam; que me faça crescer na caridade e na paciência, na humildade e na obediência e em toda espécie de virtude. Que me defenda das insídias dos inimigos visíveis e invisíveis; que me aquiete os movimentos do espírito e da carne; que me prenda indissoluvelmente a Vós, que sóis meu Deus verdadeiro, e que, enfim, seja a consumação feliz do meu destino. E dignai-Vos conduzi-me, Senhor, não obstante os meus pecados, àquele banquete inefável, onde com o Vosso Filho e Espírito Santo sóis para os Vossos Santos a luz verdadeira, a satisfação plena, a alegria eterna e a felicidade perfeita. Amém.

Santo Afonso de Ligório. A ORAÇÃO

CAI MÁSCARA DOS CAETANOS E CHICOS

Por Janer Cristaldo

Alguém ainda lembra dos dias em que comunistas, petistas e artistas bradavam contra a ditadura e pediam liberdade de expressão e pensamento? Eu me lembro, não faz ainda meio século. Boa parte dos defensores da liberdade ainda vive e se faz presente nas discussões do país. Só que o discurso mudou. Agora pedem proibição da livre expressão e do pensamento.

Começaram com o jornalismo. Em 69, os militares regulamentaram a profissão de jornalismo, ofício que em país algum do mundo civilizado é regulamentado. As esquerdas, que sempre condenaram os militares, assumiram com entusiasmo o decreto da ditadura. Afinal, serve para controlar a liberdade de expressão e pensamento. Então é salutar, digno e justo.

Continuaram tentando censurar a História. Ano passado, foi apresentado no Congresso projeto de lei do senador Paulo Paim pretendendo regulamentar a profissão de historiador. No que dependesse do senador petista, Heródoto não teria escrito suas Histórias. Não tinha diploma. Ernesto Renan teria exercido ilegalmente a profissão, ao escrever os sete volumes de sua colossal história do cristianismo, mais outros tantos da história do judaísmo. No Brasil, um dos mais prolíficos estudiosos de nossa história, cuja obra é fundamental para o entendimento do ciclo de Vargas, era médico por formação. Especialização? Proctologia. Pelo projeto aprovado - escrevi então - proctologistas não devem meter o dedo na História.

De certa forma, estão proibidas as biografias – comentei na época. Biografia é história e biógrafos, de modo geral, não têm diploma de história. Aliás, ser biógrafo já é profissão censurada no Brasil, este país incrível onde uma biografia depende da anuência do biografado e de seus descendentes. Recentemente, a biografia de Lampião foi censurada, a pedido de Expedita Ferreira, sua filha. Em novembro de 1911, Aldo Albuquerque, juiz da 7ª Vara Cível de Aracaju, expediu uma liminar suspendendo a publicação do livro Lampião mata sete, no qual o juiz aposentado Pedro de Morais defende a tese de que Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Rei do Cangaço, seria homossexual.

A moda surgiu em 1995, com o recolhimento da biografia de Mané Garrincha. A motivação foi ridícula. Segundo Ruy Castro, o autor de Estrela Solitária, o atleta teria um vigor sexual raro e 25 cm de pênis.

Segundo reportagem da Istoé, as filhas de Garrincha processaram o autor e a editora Companhia das Letras por danos morais. Venceram em primeira instância, mas viram a decisão ser revertida na segunda instância por um voto recheado de referências ousadas à anatomia de Mané, escrito pelo desembargador carioca João Wehbi Dib. “As asseverações de possuir um órgão sexual de 25 centímetros e de ser uma máquina de fazer sexo, antes de ser ofensivas, são elogiosas, malgrado custa crer que um alcoolista tenha tanta potência sexual. Contudo, tamanho e potência não se confundem. O sonho dos brasileiros é ter os dois”, afirmou, no voto seguido pelos outros dois colegas.

Agora, são os bravos artistas que denunciavam a censura pós-64 que hoje advogam a censura dos relatos sobre suas vidas. De lá para cá, foram barrados na justiça uma biografia de Roberto Carlos e o livro lançado por Guilherme de Pádua sobre Daniella Perez.

Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano Veloso e presidente do grupo Procure Saber - que reúne ela, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Chico Buarque, Djavan e Erasmo Carlos – estão pedindo nada mais menos que a censura de biografias, caso os biografados não concordem com o que o biógrafo escreveu. A ex alega a defesa do ser humano e do direito à privacidade.

- A gente está num conflito de gigantes, estamos num conflito de dois direitos fundamentais, de liberdade de expressão e da privacidade. Mas sobre direito à privacidade ninguém quer falar - disse Paula. - A gente está discutindo o ser humano.

Ora, privacidade é algo relativo quando se trata de pessoas públicas. Seria invadir a privacidade de Hitler revelar que ele possuía um só testículo? Ou que Stalin tinha um defeito no braço esquerdo?

Enfim, isto é o de menos. Testículo ou braço pouco importam no caso destes senhores. A pergunta é outra: caso um biógrafo atribuísse a estes tiranos as montanhas de cadáveres pelas quais foram responsáveis, teriam eles o direito de proibi-las? A primeira biografia não-autorizada de Stalin só surgiu na França, em 1939, feita por Boris Souvarine. Que aliás era comunista. Stalin, ao que tudo indica, foi o precursor dos caetanos e chicos da vida.

Ou, voltando ao debate pátrio: poderiam os descendentes de Emílio Médici – ou de qualquer dos generais-presidentes – proibir uma biografia destes militares, por julgar sua honra ofendida caso trate das torturas sob seus governos?

Ou, mais prosaicamente: se alguém quiser escrever uma biografia de Marcola ou Fernandinho Beira-Mar, podem estes senhores proibi-las caso julguem ter tido suas privacidades invadidas com o relato de seus crimes?

Nossos artistas – aqueles que eram contra a censura quando eram censurados - se baseiam nos artigos 20 e 21 do Código Civil Brasileiro, de 2002. O artigo 20 determina que o uso da imagem de uma pessoa pode ser proibido ou gerar a "indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais". Já o artigo 21, dispõe que "a vida privada da pessoa natural é inviolável".

Já a Constituição, em seu artigo 5º, inciso IX, reza: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. O que vale mais, lei maior ou lei menor? A Constituição é de 88. O artigo 20 do Código Civil passou a viger em 2003. Independentemente de legislação, o que os “artistas” querem é proibir a revelação de fatos que lhes sejam desabonatórios. Estes fatos podem ser verdadeiros ou não. Caso verdadeiros, ocultá-los é falsificar a História. Se são falsos, é simples: os prejudicados podem recorrer ao Código Penal, que tipifica os crimes de calúnia ou difamação.

A proibição de biografias traz em seu bojo uma ameaça maior, a liberdade de escrever história, alvo do projeto do senador Paim. Se Lula um dia inventar que ter seu nome associado ao mensalão é atingir sua honra, a história presente do Brasil não poderá ser escrita com fidelidade. Qualquer alusão a um personagem público, em um ensaio, passará a depender da anuência do fulano. Ou seja, fazer história, no Brasil, será inviável.

Leio nos jornais que Caetano, aproveitando embalo da revolução que não houve, a de 68, andou gravando uma canção: é proibido proibir.

Pelo jeito, era. A polêmica tem sua utilidade: caiu a máscara dos defensores incondicionais da liberdade de expressão.

KAROL, O HOMEM QUE SE TORNOU PAPA

Comentário proferido na rádio Cultura AM em 25 de outubro de 2013.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

DOSTOIEVSKI, Fiodor. CRIME E CASTIGO.

PROGRAMA AVE MARIA, 24 de outubro de 2013.

Nina e Carminha em Brasília

Por Nelson Motta

Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu".

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefa da Casa Civil, ou presidenta da Petrobrás.

Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: "Dirceu guerreiro/ do povo brasileiro". Ufa!

A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos.

O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto juntos criariam uma marca mais forte e eficiente.

Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu. Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. Feitos um para o outro.

Cala a boca já morreu

Por Carlos Ramalhete

Acabo de ler a enorme compilação de artigos do filósofo Olavo de Carvalho O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organizada por um de seus muitos fãs, é uma excelente introdução às ideias políticas deste pensador, uma das poucas vozes realmente originais na cena cultural brasileira.

Conheço e acompanho de longe parte do seu trabalho há muitos anos, ainda que não conheça sua faceta mais popular: os vídeos com aulas e opiniões com que conquistou enorme popularidade na internet. Já li alguns de seus livros, e já havia lido a maior parte dos artigos contidos no livro. Vê-los organizados por assunto, contudo, ajuda a perceber melhor a organicidade e originalidade do seu pensamento.

Sua voz, insistente como a de um São João Batista clamando no deserto, ressoou por anos apontando o perigo dos ideólogos hoje no poder na maior parte do nosso continente. Durante anos, ele foi percebido como o louco solitário que via comunistas debaixo da cama; enquanto isso, os comunistas que só ele via tomavam o poder. Com a crescente dominação cultural da extrema esquerda, os espaços de que ele dispunha na grande imprensa foram aos poucos sendo retirados, comprovando assim a verdade das denúncias que fazia. Nas universidades, mormente na área que lhe é própria, a filosofia, seu nome continua proibido. [continue lendo]

SOMOS UMA ALMA IMORTAL

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 24 de outubro de 2013.

SE A CARAPUÇA SERVIU...

Escrevinhação n. 1058, redigida no dia 22 de outubro de 2013, dia do Bem-Aventurado Papa João Paulo II.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Há no coração humano uma essência alquímica que nos convida a transubstanciarmo-nos da criatura vulgar que somos em algo de distinta nobreza. E, muitas das vezes, procuramos cingir nosso passo pela via da simplicidade no intento de colaborar com esse processo. Quer dizer, verbalmente afirmamos perante os outros e diante de nosso reflexo no espelho que somos pessoas simples, porém, em boa parte dos casos, essa simplicidade é tão oca quanto à cabecinha que maquinou a enunciação da referida qualidade, noutras tantas até o é, mas não por virtude, mas sim, por mesquinharia e vanglória.

Essa simplicidade que insulta a memória dos santos é algo que advém de nossa sanha compulsiva em ostentar uma auto-imagem boazinha que, em si, é um adorno indispensável para uma vida vivida de maneira leviana e impensada. Obviamente que aquela turminha que não vive sem uma carnavalesca máscara de tiozinho do clube do bem torce o nariz, cheios de indignação, porque eles julgam-se pessoas críticas, conscientes de seu – ui ui ui – papel social e histórico, mas, na boa, no fundo essas figurinhas não sabem o que fazem e muito menos o que dizem.

Antes que o beicinho dobre a esquina, deixe-me dizer mais uma coisa: é um grave sinal de insanidade moral apresentar-se como uma alma cândida, impoluta ou, como a referida turminha diria, tolerante e progressista, e apontar o dedinho cruel para todos aqueles que a sua galerinha considera intolerável. Sem perceberem, fazendo isso se alienam da nossa fundamental condição de criatura limitada, falível e (sei que eles não gostam desta palavra, mas todos nós o somos) pecadora.

Não tenho dúvidas que a percepção de si e da realidade dessa gente advém dum imaginário doente que colocou suas paixões (anseios, desejos e quereres) num patamar acima de sua consciência moral e abaixo de suas inclinações ideológicas que passa a fazer às vezes de princípio categórico onipresente. Trocando por miúdos: diviniza-se o ego que se subjuga a uma ideologia materialista maquiada com toda ordem de modismos modernosos ao mesmo tempo em que se sacralizam as mais baixas paixões humanas. Ou seja: um troço crítico de doer.

Mas não criemos pânico porque tal estado de coisas tem cura sim senhor! É simples, porém, é exigida uma boa dose de sacrifício, visto que, o ser humano, enquanto uma obra de arte, só realiza-se em sua plenitude através de renúncias. Por isso, se você sofre desta enfermidade da alma e faz parte duma patotinha tolerantemente totalitária, renuncie, dia após dia, a essa afetação de bom-mocismo em misto com o simplismo mesquinho. Largue mão dessa folia fingida e cínica de tolerância e aprenda a amar o próximo e aí, quem sabe, seu coração consiga transubstanciar-se em algo altivo para que as palavras não mais sejam contraditas pelos seus atos.

Pax et bonum
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A DIFIRENÇA

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 23 de outubro de 2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PALAVRAS PERPLEXAS

Escrevinhação n. 1057, redigida entre os dias 19 de outubro de 2013, dia de Santa Iria, de Santa Maria Bertilla Boscardin e do Beato Contardo Ferrini, e 22 de outubro de 2013, dia do Bem-aventurado Papa João Paulo II.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. A tolerância é um valor importante, não há dúvidas sobre isso. Entretanto, o que é sumamente desdenhado atualmente é que existem atitudes e valores toleráveis e outros tantos que são intoleráveis e que devem ser sumamente descriminados. Detalhe: a fronteira entre o tolerável e o inaceitável é muito clara desde que o senso de razoabilidade seja devidamente respeitado. E se há algo que definitivamente é desdenhado é justamente isso devido à presença acachapante dum relativismo moral irredutível que nivela todos os bens culturais ao nível dum banal entretenimento e eleva o materialismo e as imposturas estatais à categoria de princípio categórico que arrogam, arbitrariamente, o direito de tomar o lugar do senso de razoabilidade da maneira mais desarrazoada possível.

2. As artes dum modo geral e o teatro (o cinema e a teledramaturgia) dum modo particular são a consciência do mundo. Através dessas manifestações vê-se documentado os dramas humanos que habitam os corações duma época e, em muitos casos, nos corações de todos os tempos. Tendo isso em vista, não temos como não constatar a profunda confusão autodestrutiva que habita entre as sístoles e diástoles que agitam o peito dos homens deste século. E o pior é que a maioria esmagadora dos indivíduos, que optaram alegremente em viver como rebanho bovino não apenas é incapaz de perceber o estado calamitoso de nossa sociedade, mas sente-se satisfeita com o turbilhão niilista em que se encontra mergulhada. Em fim, uma terra de loucos onde as verdades mais elementares são desdenhadas, mesmo que estejam sendo gritadas do alto dos telhados de nossas casas. 

3. Há momentos vividos que são marcados a ferro e fogo em nossa alma. Um desses momentos em minha vida foi uma visita que fiz a uma catedral, localizada no centro duma cidade no interior do Paraná. Um templo centenário que em várias ocasiões meus pés haviam pisado, mas que, até aquele momento, não tinha tido a oportunidade de visitar o coro e os andares superiores. Neste dia, foi-me possibilitado, o que me permitiu ter a frente de minhas vistas o altar e os afrescos nas paredes e no teto com o imenso vão a convidar-me a flutuar, gerando em meu coração um misto de temor e admiração. Meus olhos marejaram de contento no ritmo do palpitar de meu coração. Uma experiência estética singular que me colocou diante duma vivência mística que jamais esquecerei. Quanto às visitas que fiz às igrejas edificadas de acordo com os cânones modernosos prefiro nada dizer, tamanho o desgosto que sinto frente ao desrespeito ao sagrado manifesto pelos autores destas aberrações arquitetônicas que insultam os Céus. 

4. Damos pouca atenção para a qualidade dos bens culturais (no sentido meramente antropológico) que consumismo em nosso dia a dia. Sejam programas televisivos ou a torrente contínua de imagens e símbolos que invadem nossa alma através da internet, de revistas ou simplesmente quando miramos nossos olhos nos lugares mais desavisados somos, literalmente, assediados constantemente por toda ordem de elementos imagéticos. Elementos esses que, como nos ensina São Cipriano de Cartago, penetram muitas das vezes no íntimo de nosso ser e com sutis imaginações afastam o nosso pensamento de tudo o que seja digno, bom e, principalmente, de Deus, levando-nos a colocar qualquer coisa em Seu lugar e, sem nos darmos conta, vamo-nos bestializando conforme colocamos nossos desejos no centro da realidade ao mesmo tempo em que nos distanciamos Daquele que é o fundamente de nossa existência.

5. Lord Byron nos ensina que: “Idiota é aquele que não sabe pensar. Covarde é aquele que não ousa pensar. Frustrado é aquele que não quer pensar”. Bem, ao ler a notícia de que Marcola havia afirmado, numa conversa telefônica grampeada, que o número de homicídios no Estado de São Paulo diminuiu por causa da atuação do PCC, rapidamente veio-me a clara imagem da consolidação não apenas de uma nova força política, mas de uma nova concepção de Estado [pós]Democrático de [oco]Direito. E, com o perdão da palavra, se você não percebe isso, permita-me perguntar: por qual razão? Por não saber, não ousar ou não querer pensar no assunto? Por ser idiota, covarde ou frustrado? Eis a questão. De qualquer forma, agora não é o momento para chorarmos, nem para tremermos sobre nossos joelhos e muito menos para nos isolarmos em nós mesmos.

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Videoconferência de lançamento de 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota'

O homem que ressuscitou a filosofia no Brasil

Por José Maria e Silva

Historicamente, a filosofia se situa entre o laboratório e o templo. Enquanto o cientista é o escravo dos fatos e o sacerdote é o servo da fé, o filósofo é filho da liberdade de pensamento e sua atividade intelectual não encontra limites. A função essencial da filosofia, mais do que oferecer respostas, é formular perguntas. Ela não se rende, de antemão, nem ao experimento nem ao milagre e submete um e outro ao escrutínio da razão — desconfiando da própria racionalidade. Isso faz com que a dúvida seja o alimento essencial do filósofo, não para negar a verdade, mas para buscá-la em sua pureza, mesmo sabendo que, no mais das vezes, essa é uma missão inglória. Buscar a verdade é tarefa de Sísifo, o personagem da mitologia grega condenado a empurrar uma pedra até o topo de um monte apenas para vê-la rolar outra vez ao chão, tendo de repetir para sempre o esforço inútil.

Mas, em sua luta vã com a verdade, o filósofo antigo iluminava o mundo. Desde que os gregos emanciparam a filosofia da religião, ousando questionar os deuses, o filósofo libertou ao máximo a força criativa do homem, contribuindo para o advento da ciência e a consolidação das instituições políticas. Basta lembrar que, entre 343-342 a.C., Aristóteles foi convidado por Felipe da Macedônia para ser o preceptor de Alexandre, o Gran­de, então com 13 anos de idade. “Aristóteles, desejando renovar suas antigas relações com a corte macedônica e atribuindo grande importância à educação de futuros soberanos, como podemos ver na ‘Política’, aceita o convite”, conta o filósofo escocês William David Ross (1877-1971) em sua obra sobre Aristóteles, publicada em 1923.

Segundo W. D. Ross, pouco se sabe sobre a educação que Aristóteles ministrava a seu pupilo, mas acredita-se que provavelmente tratava de Homero e dos trágicos, cujo estudo constituía o fundamento da educação grega. Além disso, Aristóteles compôs para Alexandre uma obra sobre a monarquia e outra sobre as colônias, temas de especial interesse para o futuro imperador. Mas, com o avanço da ciência, o conhecimento se tornou cada vez mais especializado e o filosofo perdeu esse lugar social de codificador do saber. Cada vez mais, a filosofia tende a se ver como uma espécie de juízo sobre a própria capacidade do conhecimento humano, tendência que ganharia força com as decisivas contribuições de David Hume (1711-1776) a esse ramo da filosofia. [continue lendo]

Bate-papo de Olavo de Carvalho, Lobão e Danilo Gentili

A moral do Brasil

Por Olavo de Carvalho

Se você quer entender e não tem medo de perceber em que tipo de ambiente mental está metido nesse nosso Brasil, nada melhor do que estudar um pouco a Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg. Enunciada pela primeira vez em 1958 e depois muito aperfeiçoada, ela mede o grau de consciência moral dos indivíduos conforme os valores que motivam as suas ações, numa escala que vai do simples reflexo de autopreservação natural até o sacrifício do ego ao primado dos valores universais.

Kohlberg, que foi professor de psicologia na Faculdade de Educação em Harvard, desenvolveu alguns testes para avaliar o desenvolvimento moral, mas os críticos responderam que isso só media a interpretação que os indivíduos testados faziam de si mesmos, não a sua motivação efetiva nas situações reais. Essa dificuldade pode ser neutralizada se em vez de testes tomarmos como ponto de partida as condutas reais, discernindo, por exclusão, as motivações que as determinaram. [continue lendo]

PARA MERGULHAR NUM OLHAR

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 22 de outubro de 2013.

CURTIR, COMPARTILHAR, VIVER

Comentário proferido na rádio Cultura AM em 21 de outubro de 2013.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

COM LOUSA, CUSPE E GIZ

Escrevinhação n. 1056, redigida entre os dias 15 de outubro de 2013, dia de Santa Tereza D’Ávila, e 18 de outubro de 2013, dia de São Lucas.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. A questão é bem simples: professor não é e nem deve ser “agente de mudança social”. Se você é daqueles que se utiliza do espaço da sala de aula para disseminar crendices marxistas, cacoetes relativistas/multiculturalista, jargões cientificistas, trocadilhos politicamente-corretos, lorotas ateísticas/niilistas, patacoadas new age e tutti quanti, das duas uma: ou você para com essa coisa toda ou não mais queira chamar para si o respeito que é devido a um professor, pois tais imposturas não são dignas duma pessoa que esteja investida desta autoridade. Por isso, digo e repito: agente de mudança social não é professor. Aos segundos meus sinceros parabéns e que o Altíssimo os cubra de graças em sua magisterial caminhada. Aos primeiros, apenas o meu desprezo que, por sua deixa, já é muito mais do que lhes é merecido.

2. São Josemaria Escrivá ensina-nos que somente os covardes deixam-se esmagar pela dor. E assim agimos, desfibradamente, frente às intempéries da vida, porque medimos a salinidade de nossas lágrimas com base na brevidade de nossa existência temporal, firmando nossa mão na dimensão fugidia e pitoresca das cenas que inundam nosso parvo horizonte de consciência. Ora, com base nesta régua, toda dor, por menor que seja, torna-se um calvário. Entretanto, quando lembramos que tudo não finda aqui, como nos ensina Santo Antônio de Pádua, passamos a ponderar sobre a brevidade de nossa passagem por esse vale de lágrimas, juntamente com os instantes de aflição que nos acompanham nesta jornada, e percebemos que todos os dissabores somados, nada são diante da realidade da imortalidade. Se fôssemos apenas uma carcaça andante e falante, tudo tornar-se-ia estupidamente absurdo, sem dúvida alguma. Todavia, somos uma alma imortal e esse fato nos revela o sentido perene da vida que nos faz corar diante de nossa existencial fraqueza que não se cansa de se manifestar, melancólica, em nosso olhar que tanto mira na pequenez dos instantes sem perceber a Grandeza que nos criou.

3. Revi o filme Karol – o homem que se tornou Papa. A vida do Bem-aventurado João Paulo II é para mim uma grande fonte de inspiração e sua obra um manancial de sabedoria do qual procuro, na medida possível, sempre beber. Desta vez a película em questão fez-me chorar mais do que da primeira vez. Aliás, para ser franco, não me lembro de ter chorado na primeira ocasião em que pude assisti-lo. Bem, dum jeito ou doutro, o que estou querendo dizer é que após ver o que esse homem testemunhou desde sua juventude até a maturidade é algo que teria levado muitos ao desespero, ao ódio insano contra tudo e contra todos, mas não foi isso que ocorreu com Wojtyla. Ele apenas falava no amor na Verdade e da Verdade do amor. Algo que nós tão facilmente silenciamos em nosso coração frente a qualquer vicissitude que se apresente em nossa vida. Por isso, se você não deseja ser Papa, mas almeja ser alguém realmente digno, prestativo e bom, assista a esse filme. Não que ele vá transubstanciá-lo, mas, provavelmente, irá tocar em algumas daquelas feridas que você ama lamber e, quem sabe, irá levá-lo a respirar ares bem distintos dos que somos acostumados a inspirar na banalidade de nosso cotidiano.

4. Toda vez que me deparo com as notícias, tristes notícias, sobre o estado decadente da educação e da cultura brasileira, abate-se sobre mim uma grande sombra que me faz sentir a melancolia vicejar os átrios de meu peito. Tal sensação não advém das notícias em si, mas sim, das propostas apresentadas pela multidão tagarelante de especialistas em educação com seus planos mirabolantes para resolver definitivamente essa penosa vergonha nacional. A maioria dessas vozes, com certeza, tem formação, é devidamente diplomada, porém, nunca chegou a concluir sua educação. Pra falar a verdade, bem provavelmente nem mesmo iniciaram e, no fundo, bem no fundo, não estão nem aí pra isso. Se esses dignitários, e a sociedade brasileira como um todo, parassem com essa lengalenga de ficar dando palpites de como deveria ser a educação brasileira e passasse a dedicar-se a sua própria educação, com certeza, essa exemplar atitude teria uma força significativa na vida dos mancebos que, por hora, apenas recebem de nós o exemplar desdém pela educação, pela nossa própria educação que, por sua deixa, está sendo muito bem assimilado pelos infantes.

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A IMPORTÂNCIA DO EXAME DE CONSCIÊNCIA - parte III

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 16 de outubro de 2013.

O VÁCUO CULTURAL

Escrevinhação n. 1055, redigida no dia 15 de outubro de 2013, dia de Santa Tereza D’Ávila.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Em sua obra “A aldeia ancestral”, Pearl S. Buck faz uma consideração que, julgo eu, é de grande pertinência. Logo no início do livro ele nos conta que em Chinatown, com grande freqüência, vinham grupos de teatro do Cantão. Porém, muitas das vezes, o empresário que as trazia, o senhor Billy Pan, findava o ano com prejuízo. Quando isso era anunciado rapidamente os negociantes cobriam o seu déficit. Qual era a razão para tamanha generosidade? A resposta a essa pergunta é o ponto central dessa missiva.

Segundo Buck, a maioria dos chineses que ali residiam não eram pessoas suficientemente educadas e não sabiam explicar bem aos seus filhos o que era a China. Não sabiam explicar, mas estavam cônscios de que os seus mancebos necessitavam duma resposta razoável as suas indagações e esse era o motivo que levava os negociadores serem tão magnânimos para com o empresário que trazia aos infantes uma visão do patrimônio de sua pátria.

Ora, qualquer coisa para poder ser compreendida razoavelmente deve, primeiramente, ser concebida, imaginativamente, como possível. Esse é o papel do teatro, da grande literatura universal, das grandes produções cinematográficas, da música e das artes plásticas. Apresentar para o indivíduo um universo de possibilidades que ele, até então, não havia concebido é fundamental para formação de seu caráter. Sem isso, perdoem-me, tudo o mais tende a descambar.

Atualmente, para infelicidade geral da nação, fixa-se morbidamente o eixo das atividades educativas, ou àquilo que leva esse nome, no que se convencionou chamar duma “reflexão crítica da realidade” que, no frigir dos ovos, não passa de uma obra de engenharia social que tem por intento martelar uma meia dúzia de cacoetes mentais e mais um punhado de reflexos condicionados por um enjoativo vocabulário politicamente-correto, estimulando os mancebos a opinarem levianamente sobre tudo e, desde modo, levando-os a fixar sua percepção numa ideação subjetiva dos fatos, distanciando sua inteligência da realidade que eles imaginam estar tão próximos.

Aliás, continentes inteiros de experiências humanas são desdenhados em nome duma doutrinação vazia, de clichês que apenas entorpecem ao mesmo tempo em que torna os indivíduos mesquinhos e tacanhos. Por Deus! As mesmas sandices que são encenadas nas telenovelas, expostas em programas televisivos, repetidas histrionicamente nos cinemas são reapresentadas nas salas de aula num processo contínuo de destruição dos valores fundamentais presentes no patrimônio cultural universal em nome dum macabro mundo melhor possível.

Pior! Ninguém sente falta desse patrimônio. Até achamos estranho que certas encenações sejam apresentadas, porém, com duas ou três exposições ao absurdo, tende-se a achar tudo normal, como se a bestialização voluntária fosse uma força constante que determina a substância da alma humana.

Ao contrário das personagens do livro de Pearl Buck, a sociedade brasileira não vê a vida cultural como a coluna fundamental para a formação dum indivíduo. Vê apenas, como nos lembra Mario Vargas Llosa, como uma evanescente forma de ocuparmos o tempo ocioso, reduzindo-a a categoria dum pífio entretenimento que eleva a ignorância à categoria de princípio de autoridade que, exitosamente, vem banindo o discernimento e os valores universais para o abismo do esquecimento.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AINDA SOBRE OS DESVALORAR DOS VALORES

Comentário proferido na rádio Cultura AM no dia 10 de outubro de 2013.

NÃO ME VENHA COM BAGATELAS

Escrevinhação n. 1054, redigida entre os dias 06 de outubro de 2013, dia de São Bruno, Santa Maria Francisca das Cinco Chagas e do Beato José Rubio, e 09 de outubro de 2013, dia de São Francisco Borja.

Por Dartagnan da Silva Zanela



1. Meu filho foi contemplado! Explico-me: o pequeno, que já não é tão pequeno assim, é dizimista. Seu nome foi sorteado em nossa Paróquia para receber um grande ícone tridimensional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Seu avô lhe entregou. Os negros olhos amendoados do meu menino brilharam de alegria ao receber a imagem morena coroada imperatriz com seu azulado manto. Minha pequenina batia palmas de contento e foi a primeira de todos nós a colocar-se de joelhos diante do ícone de Nossa Senhora. Do seu jeitinho moleca pôs-se a rezar. Gesto este que nosso solzinho aprendeu, sem dúvida alguma, com seu irmão, nosso pequeno grande tesouro, que do seu jeito piá, sabe muito bem que apenas as almas aquilatas não envergonham-se de prostrar-se de joelhos e venerar a senhora do ventre que pariu o Bendito Fruto dos Céus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

2. Adquirimos muitos vícios morais e cognitivos devido a várias práticas que vamos assimilando mecanicamente com o devir do tempo. Um destes é a presa em responder a uma observação ou pergunta que nos são apresentadas. A resposta sai na lata, num clique, e segue impensada na mesmíssima velocidade, seja numa praça virtual, como as redes sociais, ou ao vivo e a cores nas mais variadas ocasiões. Queremos tudo no grito! Nos remoemos se não nos sentimos aptos a dar uma resposta de pronto como se isso fosse realmente uma nota de distinção e sapiência. Por essas e outras que a prudência sugere-nos que devemos parar pra pensar antes de nos pronunciar. Sugere, todavia, não a ouvimos. Já as redes nos convidam a postar, comentar e curtir, sem ponderar sobre o que nossos dedos estão a declarar. E nós as ouvimos sem pestanejar.

3. As mais importantes lições que aprendi em minha vida foram-me ministradas por pessoas simples de coração e que vivem condições simples. Dentre as lições que essas almas ensinaram-me destacaria a de sabermos conhecer uma pessoa pelo olhar. Sim, as janelas da alma nos revelam indiscretamente nossos pensamentos e sentimentos duma maneira que nossos lábios jamais ousariam confessar. Sempre via essas pessoas retratarem candidamente o caráter duma pessoa apenas com uma breve mirada nas vistas do sujeito e, indagava-me: como é que essa senhora é capaz disso? Como? O segredo está nos olhos. Isso mesmo! Apenas aqueles que são capazes de ver com ternura o absurdo são capazes de reconhecer as mais variadas nuanças do caráter que se fazem presentes num olhar. E é por essas e outras que os doutos sabem ver e julgar com minúcia as tolices e banalidades da vida, mas são incapazes de mergulhar nas profundezas presentes num simples olhar.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O DESVALORAR DOS VALORES

Comentário proferido na rádio Cultura AM em 09 de outubro de 2013.

ENTRE O GRITO E A CARTA

Escrevinhação n. 1053, redigida no dia 07 de outubro de 2013, dia de Nossa Senhora do Rosário.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Cultivo pouquíssimas discordâncias com Monteiro Lobato, esse ranheta de fartas pestanas que tanto ilumina nossas letras e que hoje os sicofantas ineptos querem tanto ofuscar com seu obeso e invejoso olhar. De todas as suas observações há uma que, de fato, considero lapidar. Em sua obra “A barca de Gleyre”, que reúne quarenta anos de correspondência entre o taturana e Godofredo Rangel, ele afirma que se pudesse leria apenas cartas e nada mais, pois considerava que apenas no gênero epistolar haviam letras sinceras.

Aqueles que já tiveram a grata alegria de ler as cartas trocadas entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, Jefferson e John Adams e tutti quanti, sabem muito bem do que Lobato fala. Uma carta é um testemunho sincero duma alma à outra, uma confissão. Tal testemunho, por sua deixa, não era elaborado de maneira impensada como fazemos com nossas mensagens, e-mails e postagens feitas nas redes sociais. O indivíduo recolhia-se especialmente para mergulhar sua alma e pena num tinteiro para deitar ambas sobre uma ou mais folhas de papel.

As distâncias que separavam fisicamente as pessoas as uniam espiritualmente, haja vista que entre o desenhar de cada letra, e o sinuoso correr das palavras, o sujeito partilhava os tesouros mais preciosos e, essa partilha, era permeada pelo tempo de espera que, de seu modo peculiar, temperava o ato de comunicar com o suave sal da expectativa vagarosamente vivida.

Hoje, praticamente, o gênero epistolar foi fuzilado pela nossa pressa enlouquecedora. As novas tecnologias aproximaram caracteres digitados impensadamente e palavras fugazes ditas levianamente, ao mesmo tempo em que distanciaram a sinceridade necessária às palavras e olhares que se declaram amigos.

Se o que afirmo parece estranho a nossa digitalizada percepção, permitam-me um exemplo para demonstrar o quão bela é a linguagem epistolar que hoje, dum modo geral, desdenhamos. Certa feita, uma menina, cujo pai sofre duma grave enfermidade, confidenciou-me que ela apenas conversava certos assuntos com sua mãe através de cartas. A mãe não mora noutro lugar não. Como família, todos residem juntos sob o mesmo teto. Porém, mãe e filha trocam confidências através de cartas que são deixadas uma para outra entre as páginas da Sagrada Escritura, guardadas entre as Epístolas de São Paulo, para serem lidas, relidas e, no devido momento, respondidas. Quando ouvi essa confissão fiquei a imaginar o quão sólida e única é a relação desta garotinha com sua mãe.

Porém, poucos se permitem esse luxo. A praticidade sobrepõe-se brutalmente à sinceridade e à quietude que são exigidas pelas pacientes letras lavradas no campo das páginas seladas. Naturalmente, tais observações não explicam porque nossa sociedade é tão superficial e vulgar, mas aponta para um triste sintoma que bem retrata a bestialização tecnocêntrica da qual tanto nos ufanamos.

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