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Mostrando postagens de Maio, 2013

E OS ÓCULOS REPOUSAM NA GAVETA

Escrevinhação n. 1009, redigida em 27 de maio de 2013, dia de Santo Agostinho da Cantuária.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Sejamos francos: atualmente há um fetiche em torno do ato de ler. Ao mesmo tempo em que se celebra a urgente necessidade de cultivar-se tal arte, despreza-se a mesma com uma indignidade tão dissimulada quanto feroz. E, quando cultivada, o é dum modo leviano como todos os modismos que são apresentados no frescor do momento. Modismo este que não ultrapassa a pose momentânea e desavergonhada com a qual nos apresentamos nos círculos de conversa fiada que, por esporte, amam encenar toda ordem de papos cabeça.
A desonra ao mérito chega ser apoteótica. Não em sua hipocrisia, mas sim, em seu cinismo. Sim, o brasileiro, dum modo geral, e os adultos de modo especial, não lêem e orgulham-se disso. Afinal, adultos são pessoas muito ocupadas com suas lides diuturnas e esse negócio de ler (literatura, principalmente) é coisa de gente desocupada. Quem ouve esses sujeitos falando i…

Thomas Sowell analisa as políticas de ação afirmativa pelo mundo

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O BRANDIR DO GLÁDIO DE FRANCISCO

Escrevinhação n. 1008, redigida em 20 de maio de 2013, dia de São Bernardino de Sena e de Santo Arcângelo Tadini.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Muitas vezes, encontro-me com minhas vistas marejando em lágrimas após ler uma notícia. Em algumas destas ocasiões isso ocorre por ter minha alma invadida por uma profunda tristeza frente ao horror apresentado pelas palavras impressas. Outras, elas indicam que o tinto das letras despertou em meu íntimo tamanho júbilo que este rompe as crostas de minha sobriedade fazendo jorrar contento através das janelas do meu ser.
Graças ao bom Deus, iniciei esta semana com lágrimas da segunda monta e a notícia que escavou o regozijo em mim é sobre o Papa Francisco. Após a Santa Missa de Pentecostes, como é do feitio do Santo Padre, este se colocou a caminhar junto aos fiéis saudando-os e abençoando-os. Entretanto, algo neste domingo foi diferente. 
Ele se aproximou dum grupo de fiéis enfermos para abençoá-los com seu doce semblante e gestos singelos. De repe…

Roda Viva | Ronaldo Laranjeira | 20/05/2013

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O OUTRO ME (DES)HUMANIZA

Escrevinhação n. 1007, redigida em 20 de maio de 2013, dia de São Bernardino de Sena e de Santo Arcângelo Tadini.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Um exercício que julgo imprescindível na formação dum indivíduo é o estudo atendo de biografias de grandes homens. Santos, sábios, místicos, militares, estadistas, escritores, cientistas, em fim, conhecer a vida de pessoas que procuraram dilatar sua existência para além da mediocridade cotidiana.
Recomendamos tal prática não com vistas a habilitarmo-nos na soturna compreensão do devir histórico. Não mesmo. Temos em vista o propósito muito mais interessante que uma reles e impotente masturbação mental edificada em meio a idas e vidas de conceitos ocos dum materialismo vazio.
Dito isso vamos direto ao assunto. Primeiro ponto: fiando-nos num estudo biográfico de grandes almas estamos elevando a nossa medida com relação às potencialidades humanas. Em regra, a sociedade, a grande mídia e bem como o sistema educacional, nos apresentam um panteão de fi…

Roda Viva | Mario Vargas Llosa | 13/05/2013

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DA SOBERBA DOS CORAÇÕES BONZINHOS

Escrevinhação n. 1006, redigida em 10 de maio de 2013, dia de Santo Hugo de Cluny e Santa Maria Bertilla Boscardin, sexta semana do Tempo Pascal.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Bronisław Malinowski ensina-nos que para entender um selvagem devemos tornar-nos ele para ver o mundo através dos seus olhos. Esse processo de empatia antropológica, assim chamado por Gilberto Freyre, pode nos ser muitíssimo útil na compreensão do outro. Um olhar participante sobre os dramas e os dilemas de outrem, não apenas um julgamento através dum olhar externo, todo enquadrado nos recortes duma perspectiva pseudo-científica.
Podemos realizar esse exercício, com a devida seriedade, ao menos imaginativamente o que, em si, já nos auxiliaria muito no entendimento de inúmeros problemas que integram a vida e, principalmente, a nos ver como parte destes problemas e não como uma solução demiúrgica desdenhada injustamente pela sociedade.
Na maioria das vezes, com nossa pose doutoral e/ou bacharelesca, condenamos veeme…

Bichinhos assustados

Por Olavo de Carvalho
Se fosse preciso alguma prova suplementar daquilo que escrevi em “A animalização da linguagem”, os srs. Nirlando Beirão, Luís Antonio Giron, Paulo Ghiraldelli e mais meia dúzia se apressaram gentilmente a fornecê-la antes mesmo de que o artigo fosse publicado.
Não li ainda o livro do Lobão, O Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Mas, por si mesmas, as reações que essas criaturas lhe ofereceram ilustram de maneira exemplar a animalização da linguagem.
A desenvoltura ingênua com que imaginam que basta carimbar um autor como “direitista” para sepultá-lo sob dez toneladas de irrelevância mostra que não usam a linguagem como seres humanos, para representar e analisar o mundo, mas como cães que cheiram os órgãos genitais uns dos outros e, ali reconhecendo instantaneamente o membro do grupo ou o estranho, dão o assunto por encerrado.
Isso é a mais alta atividade cerebral de que são capazes. [continue lendo]

Abismo atrai abismo

Por Carlos Ramalhete
A vida humana tem valor infinito. Cada ser humano carrega, em si, a humanidade inteira. À medida que o tempo passa, contudo, vamos perdendo potencialidades; quem poderia tornar-se campeão de ginástica olímpica aos 3 anos de idade não tem mais essa possibilidade aos 30. Cada criança carrega em si mesma a potencialidade de toda a espécie humana. Ela pode vir a ser um gênio, um artista, um santo, um rei. É um pouco por isso que nos percebemos incapazes de ver um bebê sem sorrir, de ouvir uma risada de criança sem nos alegrarmos com ela.
O mesmo vale com sinal trocado: nada é mais entristecedor que a morte de uma criança. É por isso que os ativistas pró-aborto procuram esconder a realidade do que pregam; é por isso que antipatizam tanto com o ultrassom, que permite ver o bebê ainda no ventre da mãe. [continue lendo]

DA PACIÊNCIA QUE NOS FALTA

Escrevinhação n. 1005, redigida em 06 de maio de 2013, dia de Santa Benedita, de Santo André Kim e 102 Companheiros mártires coreanos e São Lúcio, sexta semana do Tempo Pascal.
Por Dartagnan da Silva Zanela
O homem moderno vê-se com seu coração aflito. Desde a alvorada até o crepúsculo do dia encontramo-nos tomados pelos atinos e desatinos que dão forma ao nosso intento de concluir o que não foi terminado ontem, de iniciar hoje o que não iremos começar amanhã e, neste ínterim, acabamos por não fazer nem uma coisa, nem outra. Muito menos o que deveríamos realizar hoje.
Impacientamo-nos com tudo, com todos e, principalmente, conosco. Queremos que tudo seja realizado de modo imediato e instantâneo mesmo que não solvamos nada do que estamos vivenciando. Muito deste estado de espírito deve-se as novas (e outras não tão novas) tecnologias que aceleraram inúmeros atos humanos de segunda ordem e deixando, os de primeira, catatônicos.
Todas as atividades exteriores praticadas pelos seres humanos…

Governantes e governados

Por João Ubaldo Ribeiro
Essa capadoçagem burra, arrogante e irresponsável, tentada no Congresso Nacional, para intimidar e desfigurar o Poder Judiciário, mostra de novo como somos atrasados. Antigamente, éramos um país subdesenvolvido e atrasado. Fomos promovidos a emergente - embora volta e meia me venha a impressão de que se trata de um eufemismo modernoso para designar a mesma coisa - e continuamos atrasados. Nosso atraso é muito mais que econômico ou social, antes é um estado de alma, uma segunda natureza, uma maneira de ver o mundo, um jeito de ser, uma cultura. Temos pouco ou nenhum espírito cívico, somos individualistas, emporcalhamos as cidades, votamos levianamente, urinamos nas ruas e defecamos nas praias, fazemos a barulheira que nos convém a qualquer hora do dia ou da noite, matamos e morremos no trânsito, queixamo-nos da falta de educação alheia e não notamos a nossa, soltamos assassinos a torto e a direito, falsificamos carteiras, atestados e diplomas, furamos filas e, …

Ação natural

Por Carlos Ramalhete
A palavra “natural”, no discurso político-social de hoje em dia, parece ter tantos sentidos quantos são os falantes. Para os ambientalistas, é “natural” o que não tem aditivos manufaturados, como uma fruta sem pesticida. Para os naturalistas, é “natural” o que pode ocorrer sem coerção, como o incesto entre os cachorros.
No sentido aristotélico do termo, contudo, introduzido no discurso político sem que se perceba muito bem do que se trata, “natural” é aquilo que leva algo à perfeição de sua natureza. Assim, é natural ao homem casar-se e ter filhos, mas não é natural matá-los, ainda que haja quem o faça sem ser coagido. Tampouco, evidentemente, é natural confundir o sistema digestivo com o reprodutivo. [continue lendo]

O MAIS FRIO DOS MONSTROS FRIOS

Escrevinhação n. 1004, redigida em 29 de abril de 2013, dia de Santa Catarina de Siena, quinta semana do Tempo Pascal.
Por Dartagnan da Silva Zanela

Creio que todos já assistiram ao filme “Advogado do diabo” (1997), dirigido por Taylor Hackford. No correr da trama, o advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves) pergunta a John Milton (Al Pacino), porque ele optou pelo trabalho com as leis. E este respondeu, com um sorriso malicioso: porque a lei nos permite fazer tudo. Nunca esqueci essa passagem.
Não sou um especialista da seara das leis. Aliás, estou à milhas de distância disso. Porém, como um reles mortal, quando volvo minhas vistas para o mundo hodierno não tenho como não vislumbrar nas palavras do demônio da película citada uma verdade patente sobre os caminhos e descaminhos que estamos trilhando.
A letra da lei nos liberta quando esta corresponde à estrutura ontológica da realidade. Ou seja, a lei liberta quando reflete, mesmo que palidamente, a verdade que necessariamente transcende a con…