quarta-feira, 29 de maio de 2013

E OS ÓCULOS REPOUSAM NA GAVETA

Escrevinhação n. 1009, redigida em 27 de maio de 2013, dia de Santo Agostinho da Cantuária.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Sejamos francos: atualmente há um fetiche em torno do ato de ler. Ao mesmo tempo em que se celebra a urgente necessidade de cultivar-se tal arte, despreza-se a mesma com uma indignidade tão dissimulada quanto feroz. E, quando cultivada, o é dum modo leviano como todos os modismos que são apresentados no frescor do momento. Modismo este que não ultrapassa a pose momentânea e desavergonhada com a qual nos apresentamos nos círculos de conversa fiada que, por esporte, amam encenar toda ordem de papos cabeça.

A desonra ao mérito chega ser apoteótica. Não em sua hipocrisia, mas sim, em seu cinismo. Sim, o brasileiro, dum modo geral, e os adultos de modo especial, não lêem e orgulham-se disso. Afinal, adultos são pessoas muito ocupadas com suas lides diuturnas e esse negócio de ler (literatura, principalmente) é coisa de gente desocupada. Quem ouve esses sujeitos falando imagina que eles puxam pedras em suas horas vagas pra descansar. Horas essas que se forem devidamente mensuradas revelarão a sua grande fartura e mau aproveitamento.

Santo Afonso de Ligório (e tantos outros), nos advertia sobre a forma como muitas das vezes nos entregamos as distrações, sejam elas reles passa-tempos inocentes ou a companhia de pessoas com as quais partilhamos nossas miudezas. Tanto as primeiras como as segundas nos arrastam para momentos vazios onde risos sem sentidos em misto com finalidades sem propósitos ocupam longas e longas horas de nosso preciso tempo. Preciosidade essa desperdiçada por nós sem a menor cerimônia ou pudor.

Nesta altura do campeonato pode ocorrer a uma e outra alma a pergunta: mas por que eu deveria ocupar uma parcela de meu tempo livre na leitura das obras da grande literatura universal? Veja bem, não é para progredir profissionalmente, nem mesmo para ter assunto para conversar com os seus pares. Aliás, aí mesmo que você não teria mais o que conversar com eles. A leitura das obras de grandes escritores é sumamente recomendada para que não mais sejamos como ordinariamente somos.

Ensina-nos G. K. Chesterton que a maior utilidade da boa literatura, reside em impedir que sejamos puramente modernos. “Ser puramente moderno é condenar-se à limitação; assim como gastar o último centavo que há na terra no mais novo lançamento [de qualquer coisa]. A estrada dos séculos passados está repleta de homens que morreram, mas que de certa forma continuam vivos. A literatura clássica e permanente cumpre sua melhor missão quando nos lembra continuamente o vigor da verdade e quando equilibra idéias mais antigas com idéias atuais, às quais, por um momento, podemos estar inclinados”.

Por um vício cognitivo, amamos muito mais nossas chulas opiniões do que a procura pela verdade, como lembra-nos Gustavo Corção. Elevamos as primeiras à dignidade da segunda, ato este que, por sua deixa, nos diminuiu em dignidade, prestatividade e bondade. E, gostemos ou não, a tendência geral é seguirmos ladeira abaixo, com nossa mesquinhez substancial dissimulada sob o fingido manto de dignidade ferida.

Resumindo: o problema não está tão somente em não sermos bons leitores, mas sim, em cinicamente fingirmos que o somos e, principalmente, dissimularmos que nos importamos com isso.

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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Thomas Sowell analisa as políticas de ação afirmativa pelo mundo

O BRANDIR DO GLÁDIO DE FRANCISCO


Escrevinhação n. 1008, redigida em 20 de maio de 2013, dia de São Bernardino de Sena e de Santo Arcângelo Tadini.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Muitas vezes, encontro-me com minhas vistas marejando em lágrimas após ler uma notícia. Em algumas destas ocasiões isso ocorre por ter minha alma invadida por uma profunda tristeza frente ao horror apresentado pelas palavras impressas. Outras, elas indicam que o tinto das letras despertou em meu íntimo tamanho júbilo que este rompe as crostas de minha sobriedade fazendo jorrar contento através das janelas do meu ser.

Graças ao bom Deus, iniciei esta semana com lágrimas da segunda monta e a notícia que escavou o regozijo em mim é sobre o Papa Francisco. Após a Santa Missa de Pentecostes, como é do feitio do Santo Padre, este se colocou a caminhar junto aos fiéis saudando-os e abençoando-os. Entretanto, algo neste domingo foi diferente. 

Ele se aproximou dum grupo de fiéis enfermos para abençoá-los com seu doce semblante e gestos singelos. De repente, quando ele colocou-se diante dum certo jovem e, após ouvir as palavras proferidas pelo padre que acompanhava o rapaz, o gentil sorriso senil do Vigário de Cristo deu lugar para uma expressão séria e introspectiva seguida da imposição de suas mãos e do movimento incessante de seus lábios a orar. Com esse gesto o jovem se retorceu. Manifestou-se em sua face uma brusca e tenebrosa expressão acompanhada dum furioso rugido emitido por sua boca. Após isso, o padre entregou aos seguranças do Papa algumas folhas com um envelope.

Para bom entendedor, um pequeno gesto basta. Diante dos olhos de milhares, o Bispo de Roma, estava proferindo uma oração de libertação (exorcismo) por aquele rapaz, o que levou o espírito imundo a se manifestar diante de todos (coisa que eles odeiam). Claro que a grande mídia não comentou o ocorrido. Provavelmente nem entendeu e, por isso mesmo, desdenhou o fato. Entretanto, inúmeros exorcistas de distinta cepa compreenderam claramente o que estava ocorrendo. Era uma piedosa oração de exorcismo sendo recitada com grande intensidade pelo Papa. Não o rito completo, obviamente, mas uma oração de libertação.

Tal fato seria uma novidade pontifícia? Não mesmo. O bem-aventurado Papa João Paulo II, de acordo com o padre Gabriele Amorth, durante muitos anos trabalhou em três exorcismos (essa lide não é nem um pouco simples). Aliás, o mesmo bem-aventurado predecessor do atual pontífice, trabalhou intensamente para realizar a escolha e formação de padres para essa tarefa e estimulava vivamente os bispos para que também laborassem neste esforço. 

Quanto ao Papa emérito Bento XVI, o esforço não era distinto. Principalmente em seu infatigável trabalho de relembrar a importância do zelo na celebração da Santa Missa. Zelo este que, muitas vezes, nestas plagas brasílicas, é substituído por improvisos, inovações e exageros simiescos, advindos dum orgulho inconfesso que, literalmente, desvirtuam a Santa Missa, esvaziando o seu sentido sacramental.

Quanto ao Papa Francisco, este, desde o primeiro dia de seu pontificado, não cansa de lembrar a todos nós, sem medo ou rodopios linguísticos, quem é o grande inimigo de nossa alma e da Santa Madre Igreja. Por isso, a realização duma oração que fez o demônio manifestar-se à luz do dia na Praça de São Pedro diante de todos, a meu ver, é um piedoso sinal da Providência para que tomemos ciência da presença e da ação de nosso adversário, um lembrete para que usemos as armas apropriadas para enfrentá-lo e, principalmente, para não cairmos na esparrela moderna que prega a sua inexistência.

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Roda Viva | Ronaldo Laranjeira | 20/05/2013

O OUTRO ME (DES)HUMANIZA


Escrevinhação n. 1007, redigida em 20 de maio de 2013, dia de São Bernardino de Sena e de Santo Arcângelo Tadini.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Um exercício que julgo imprescindível na formação dum indivíduo é o estudo atendo de biografias de grandes homens. Santos, sábios, místicos, militares, estadistas, escritores, cientistas, em fim, conhecer a vida de pessoas que procuraram dilatar sua existência para além da mediocridade cotidiana.

Recomendamos tal prática não com vistas a habilitarmo-nos na soturna compreensão do devir histórico. Não mesmo. Temos em vista o propósito muito mais interessante que uma reles e impotente masturbação mental edificada em meio a idas e vidas de conceitos ocos dum materialismo vazio.

Dito isso vamos direto ao assunto. Primeiro ponto: fiando-nos num estudo biográfico de grandes almas estamos elevando a nossa medida com relação às potencialidades humanas. Em regra, a sociedade, a grande mídia e bem como o sistema educacional, nos apresentam um panteão de figuras mesquinhas, medíocres e insignificantes moralmente em misto com idéias abstratas que passam a ser tidas como forças agentes que controlam e manipulam a todos, menos aqueles que as repetem simiescamente. Sim, temos que rir para não chorar.

Inevitavelmente quando temos como modelos de realização humana as figuras que nos são apresentadas pela grande mídia e pelo establishment a expectativas que construímos em relação às possibilidades humanas tornam-se às priores possíveis. A inexistência de figuras que encarnem a realização dos grandes valores convida a uma redução no horizonte das possibilidades humanas, visto que, os modelos que são colocados ao centro da vida em sociedade são a encarnação da baixeza.

Não é por menos que atualmente, mais do que em outras épocas, muitos indivíduos, principalmente os inteligentinhos, não sejam capazes de compreender o que é a santidade, o heroísmo, o senso de dever, o desprendimento, o amor a sabedoria, a coragem moral e toda a plêiade de valores que caracterizam a vida humana. E, é claro que não há nada que os medíocres mais odeiem do que serem lembrados da existência de pessoas que superam suas limitações ao invés de choramingá-las.

Segundo ponto: ao conhecermos a vida duma alma exemplar temos a oportunidade única de, imaginativamente, nos colocar nas situações que eles vivenciaram. Cenários, muitas das vezes espinhosos, mas que receberam destas pessoas respostas que ecoaram pelos séculos como a um brado hercúleo. Ora, as situações humanas que a vida nos apresenta não são tão variadas. Todavia, a resposta que é dada pelos indivíduos é vasta e dependem dum cálculo simples: a multiplicação as qualidades (morais, intelectuais e físicas) dum indivíduo pela sua capacidade de decisão (vontade). É desta tensão que se edifica o caráter de um indivíduo e forma-se a dignidade duma sociedade.

Todavia, não nos colocamos no lugar destes, nos cenários em que eles tiveram que tomar decisões que afetaram as suas vidas e a de milhares. Preferimos a confortável posição de ficar na condição infantil e ridícula de murmurar nossos infortúnios. No Brasil, isso se chama criticidade.

Veja só, nestas mal fadadas linhas não estamos a defender o culto de heróis, mas sim, em nos colocar em situações humanas possíveis para aprendermos a realizar as potencialidades presentes em nós por meio do exemplo daqueles que nos antecederam neste vale de lágrimas e vermos que a vida humana é capaz de muito mais do que a mediocracia reinante.

Tal estudo mudará a sociedade? Não. Aliás, esse é um intento deveras mesquinho por si só. Porém, este poderá mudar a sua maneira de viver a sua vida e de julgar as pessoas. E isso, penso eu, é algo de grande valia, inclusive para a sociedade.

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Roda Viva | Mario Vargas Llosa | 13/05/2013

DA SOBERBA DOS CORAÇÕES BONZINHOS


Escrevinhação n. 1006, redigida em 10 de maio de 2013, dia de Santo Hugo de Cluny e Santa Maria Bertilla Boscardin, sexta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Bronisław Malinowski ensina-nos que para entender um selvagem devemos tornar-nos ele para ver o mundo através dos seus olhos. Esse processo de empatia antropológica, assim chamado por Gilberto Freyre, pode nos ser muitíssimo útil na compreensão do outro. Um olhar participante sobre os dramas e os dilemas de outrem, não apenas um julgamento através dum olhar externo, todo enquadrado nos recortes duma perspectiva pseudo-científica.

Podemos realizar esse exercício, com a devida seriedade, ao menos imaginativamente o que, em si, já nos auxiliaria muito no entendimento de inúmeros problemas que integram a vida e, principalmente, a nos ver como parte destes problemas e não como uma solução demiúrgica desdenhada injustamente pela sociedade.

Na maioria das vezes, com nossa pose doutoral e/ou bacharelesca, condenamos veementemente tudo a partir de meia-dúzia de esquemas mentais prontinhos que absorvemos antanho e que, repetindo-os, nos dão a sensação de que estaremos passando uma imagem de pessoas boazinhas e, acima de tudo, inteligentes. Do mesmo modo, cultivamos um grande sentimento de repulsa em relação a outras palavras que, de forma similar as primeiras (os chavões do bem), refletem pouco ou nada das realidades que elas se referem, porém, nos dão aquela epidérmica sensação de que estas são do mal.

Um bom exemplo seria a atuação dos policiais na sociedade brasileira. Creio que seria interessante nos colocarmos no lugar destes seres humanos (lembre-se que eles o são) com seus dilemas, dramas, sofrimentos e medos. Aliás, você já parou pra pensar que um policial tem medos e angustias que advém de seu ofício e das conseqüências deste para sua família?

Bem, imaginemo-nos como integrantes de uma investigação policial que tenha por objetivo acabar com uma organização criminosa que, por sua deixa, tem seus tentáculos dentro do Estado e contando com muitos bem-feitores junto aos formadores de opinião. Imagine as inúmeras frustrações que estes homens e mulheres acalentam em seu íntimo. A essa dor, banhada no lodo da corrupção Estatal e no desdém da sociedade podemos, com tranqüilidade, dar o nome de solidão heróica.

Alguém poderá dizer ao autor destas turvas linhas para ele colocar-se no lugar do criminoso. Ora, se assim o for, pergunto: apontar um revolver para o rosto de uma pessoa anônima para roubar-lhe o salário ou algo de menor importância material, o que é? Que nome dar-se-á para esse gesto? Os motivos podem ser muitos, mas, independente deles, isso chama-se crueldade.

Também podemos nos colocar no lugar da vítima e de seus familiares e perguntar: qual a palavra que melhor retrata o sentimento dessas almas. Resposta: impotência. Isso mesmo! Impotência dum cidadão honesto e humilde que, nos palcos da vida, tal qual o policial, não tem ninguém para falar na defesa de seus humanos direitos.

Negar-se a enxergar isso, com o perdão da palavra, não passa dum rasteiro cinismo cúmplice que muitíssimo mais se preocupa com sua imagem boazinha do que com a dureza dos fatos.

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Bichinhos assustados


Por Olavo de Carvalho

Se fosse preciso alguma prova suplementar daquilo que escrevi em “A animalização da linguagem”, os srs. Nirlando Beirão, Luís Antonio Giron, Paulo Ghiraldelli e mais meia dúzia se apressaram gentilmente a fornecê-la antes mesmo de que o artigo fosse publicado.

Não li ainda o livro do Lobão, O Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Mas, por si mesmas, as reações que essas criaturas lhe ofereceram ilustram de maneira exemplar a animalização da linguagem.

A desenvoltura ingênua com que imaginam que basta carimbar um autor como “direitista” para sepultá-lo sob dez toneladas de irrelevância mostra que não usam a linguagem como seres humanos, para representar e analisar o mundo, mas como cães que cheiram os órgãos genitais uns dos outros e, ali reconhecendo instantaneamente o membro do grupo ou o estranho, dão o assunto por encerrado.

Isso é a mais alta atividade cerebral de que são capazes. [continue lendo]

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Abismo atrai abismo


Por Carlos Ramalhete

A vida humana tem valor infinito. Cada ser humano carrega, em si, a humanidade inteira. À medida que o tempo passa, contudo, vamos perdendo potencialidades; quem poderia tornar-se campeão de ginástica olímpica aos 3 anos de idade não tem mais essa possibilidade aos 30. Cada criança carrega em si mesma a potencialidade de toda a espécie humana. Ela pode vir a ser um gênio, um artista, um santo, um rei. É um pouco por isso que nos percebemos incapazes de ver um bebê sem sorrir, de ouvir uma risada de criança sem nos alegrarmos com ela.

O mesmo vale com sinal trocado: nada é mais entristecedor que a morte de uma criança. É por isso que os ativistas pró-aborto procuram esconder a realidade do que pregam; é por isso que antipatizam tanto com o ultrassom, que permite ver o bebê ainda no ventre da mãe. [continue lendo]

quarta-feira, 8 de maio de 2013

DA PACIÊNCIA QUE NOS FALTA

Escrevinhação n. 1005, redigida em 06 de maio de 2013, dia de Santa Benedita, de Santo André Kim e 102 Companheiros mártires coreanos e São Lúcio, sexta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela

O homem moderno vê-se com seu coração aflito. Desde a alvorada até o crepúsculo do dia encontramo-nos tomados pelos atinos e desatinos que dão forma ao nosso intento de concluir o que não foi terminado ontem, de iniciar hoje o que não iremos começar amanhã e, neste ínterim, acabamos por não fazer nem uma coisa, nem outra. Muito menos o que deveríamos realizar hoje.

Impacientamo-nos com tudo, com todos e, principalmente, conosco. Queremos que tudo seja realizado de modo imediato e instantâneo mesmo que não solvamos nada do que estamos vivenciando. Muito deste estado de espírito deve-se as novas (e outras não tão novas) tecnologias que aceleraram inúmeros atos humanos de segunda ordem e deixando, os de primeira, catatônicos.

Todas as atividades exteriores praticadas pelos seres humanos foram imensamente facilitadas por toda ordem de inovações. As viagens tornaram-se mais breves, as notícias chegam até nós mais rapidamente, a contagem de votos em uma eleição perdeu seu charme e as atividades domésticas tornaram-se menos dispendiosas e tudo isso, junto e misturado, é uma conquista que nos brinda com um imenso campo de possibilidades.

Porém, como nem tudo é um mar de rosas, essas benesses também nos fizeram um imenso desfavor. Como as atividades segundas são agora feitas de modo mais rápido e eficiente, estas, de modo indelével, cultivam em nosso íntimo a expectativa de que as atividades primeiras, o laborar do intelecto, por exemplo, realize-se de modo instantâneo, similar a uma ligação de celular.

Obviamente, se pararmos por um minuto que seja para meditar sobre o assunto, perceberemos, com clareza, que a distância que há entre uma coisa e outra é descomunal e, mesmo assim, nos impacientaremos e, conseqüentemente, jogaremos fora todo o sabor da vida. Seja no corriqueiro ato de ir ao trabalho ou no intento de aprender algo, optamos por perder o gosto pelo viver por estarmos demasiadamente afobados em chegar numa conclusão, não importando qual seja ela.

Por isso Santo Agostinho nos fala da importância capital do cultivo da paciência, virtude essa hoje tão desdenhada. Lembra-nos ele que a paciência é companheira da sapiência, jamais uma dileta amiga da concupiscência. Uma fiel amiga da boa consciência e totalmente avessa aos nossos desatinos e, por essas e outras, que todos aqueles que sabem algo participam da ciência deste algo de algum modo, porém, todos aqueles que padecem de algo, não participam igualmente da paciência. Ora, para aprendermos algo, por mínimo que seja, carece-se desta modesta e silenciosa virtude em boa dose.

A lembrança deste dado diminuto e, ao mesmo tempo, monstruoso da realidade é algo que chega soar patético, todavia, mais tolo que isso, é não aprendermos, pacientemente, essa simplória lição que a todo momento bate na soleira de nossa alma.

Se soubéssemos esperar aprenderíamos melhor as lições que nos são apresentadas, realizaríamos as tarefas que nos propomos com uma excelência jamais quista por nós e, inevitavelmente, tornar-nos-íamos pessoas mais dignas, prestativas e boas, dum modo que jamais esperávamos nos tornar. Talvez, quem sabe, porque jamais esperamos isso de nós mesmos por total falta de paciência.

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domingo, 5 de maio de 2013

Governantes e governados

Por João Ubaldo Ribeiro

Essa capadoçagem burra, arrogante e irresponsável, tentada no Congresso Nacional, para intimidar e desfigurar o Poder Judiciário, mostra de novo como somos atrasados. Antigamente, éramos um país subdesenvolvido e atrasado. Fomos promovidos a emergente - embora volta e meia me venha a impressão de que se trata de um eufemismo modernoso para designar a mesma coisa - e continuamos atrasados. Nosso atraso é muito mais que econômico ou social, antes é um estado de alma, uma segunda natureza, uma maneira de ver o mundo, um jeito de ser, uma cultura. Temos pouco ou nenhum espírito cívico, somos individualistas, emporcalhamos as cidades, votamos levianamente, urinamos nas ruas e defecamos nas praias, fazemos a barulheira que nos convém a qualquer hora do dia ou da noite, matamos e morremos no trânsito, queixamo-nos da falta de educação alheia e não notamos a nossa, soltamos assassinos a torto e a direito, falsificamos carteiras, atestados e diplomas, furamos filas e, quase todo dia, para realçar esse panorama, assistimos a mais um espetáculo ignóbil, arquitetado e protagonizado por governantes.

Que coisa mais desgraciosa e primitiva, esse festival de fanfarronadas e bravatas, essa demonstração de ignorância mesclada com inconsequência, essa insolência despudorada, autoritária, prepotente e pretensiosa. Então a ideia era submeter decisões do Supremo Tribunal Federal à aprovação do Congresso, ou seja, na situação atual, à aprovação do Executivo. E gente que é a favor disso ainda tem o desplante de lançar contra os adversários acusações de golpismo. Golpismo é isso, é atacar o equilíbrio dos poderes da República, para entregar à camarilha governista o controle exclusivo sobre o destino do País. Até quem só sabe sobre Montesquieu o que leu numa orelha de livro lembra que o raciocínio por trás da independência dos poderes é prevenir o despotismo. Se eu faço a lei, eu mesmo a executo e ainda julgo os conflitos, claro que o caminho para a tirania está aberto, porque posso fazer qualquer coisa, inclusive substituir por outra a lei que num dado momento me incomode. [continue lendo]

Ação natural


Por Carlos Ramalhete

A palavra “natural”, no discurso político-social de hoje em dia, parece ter tantos sentidos quantos são os falantes. Para os ambientalistas, é “natural” o que não tem aditivos manufaturados, como uma fruta sem pesticida. Para os naturalistas, é “natural” o que pode ocorrer sem coerção, como o incesto entre os cachorros.

No sentido aristotélico do termo, contudo, introduzido no discurso político sem que se perceba muito bem do que se trata, “natural” é aquilo que leva algo à perfeição de sua natureza. Assim, é natural ao homem casar-se e ter filhos, mas não é natural matá-los, ainda que haja quem o faça sem ser coagido. Tampouco, evidentemente, é natural confundir o sistema digestivo com o reprodutivo. [continue lendo]

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O MAIS FRIO DOS MONSTROS FRIOS


Escrevinhação n. 1004, redigida em 29 de abril de 2013, dia de Santa Catarina de Siena, quinta semana do Tempo Pascal.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Creio que todos já assistiram ao filme “Advogado do diabo” (1997), dirigido por Taylor Hackford. No correr da trama, o advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves) pergunta a John Milton (Al Pacino), porque ele optou pelo trabalho com as leis. E este respondeu, com um sorriso malicioso: porque a lei nos permite fazer tudo. Nunca esqueci essa passagem.

Não sou um especialista da seara das leis. Aliás, estou à milhas de distância disso. Porém, como um reles mortal, quando volvo minhas vistas para o mundo hodierno não tenho como não vislumbrar nas palavras do demônio da película citada uma verdade patente sobre os caminhos e descaminhos que estamos trilhando.

A letra da lei nos liberta quando esta corresponde à estrutura ontológica da realidade. Ou seja, a lei liberta quando reflete, mesmo que palidamente, a verdade que necessariamente transcende a contingência material. Trocando por dorso, o fundamento último que vivifica a letra é Deus. Sem o reconhecimento de Seu poderio ela é nula.

Quando apontamos isso, temos em mente a sanha legislativa que toma conta de todos nós no intento de sempre desejar a criação de novas garantias e direitos que, ao invés de assegurar a ordem da liberdade, apenas garante o império da arbitrariedade daqueles que podem esgueirar-se pelas infindáveis fendas do entulho legislativo.

Em todas as esferas, várias vozes pronunciando-se a respeito da necessidade da criação duma lei para isso ou para aquilo, como se criação de novas leis em uma sociedade que desdenha a transcendência da realidade fosse resolver algo. Aliás, para ser franco, esse impulso legislativo nada mais é do que um sintoma da soberba e da vaidade que tomou posse da alma do homem moderno.

Por essas e outras que em sua obra “Sobre el poder”, Bertrand de Jouvenel nos adverte para o fato de estarmos muito distante do crescimento da liberdade. Segundo ele, a única coisa que cresceu foi o poder do Estado sobre a sociedade. Seja num regime democrático, seja numa ditadura autoritária ou totalitária, o sentido da história moderna reside no crescente aumento dos tentáculos estatais que regulamentam toda ordem material e moral, orientando as ações individuais em torno do qual se organiza a vida de todos. Tal seu gigantismo que praticamente tornou-se inconcebível a idéia de sua morte.

Ora, se não mais é Deus o fundamento último de toda realidade, o que fará às vezes Deste? Ora, é só perguntar: quem foi tomando o Seu lugar conforme Ele foi sendo riscado do horizonte de consciência do homem moderno? O Estado. Aliás, como bem nos lembra Chesterton, um dos fenômenos mais marcantes da modernidade é a divinização do Estado (e de seus governantes) que não media, e não mede, esforços para tornar o seu poder total.

Por fim, mais uma vez, não temos como discordar do personagem interpretado por Al Pacino, quando este nos lembra ao final do filme mencionado que a vaidade é o seu pecado preferido (e nosso também). Não é por menos que dia após dia nos perdemos mais e mais em nossa vã tentativa de sermos melhores que o Criador. Não é por menos que o monstrengo Estatal dia após dia está a nos devorar com nosso festivo consentimento.

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