O TEOREMA DE HOUSE

  

Conhece-te, aceita-te, supera-te. Assim, desse jeito, Santo Agostinho nos diz o que devemos fazer para criarmos vergonha na cara. E o caminho é esse mesmo. Não tem jeito. Porém, a treta toda começa no fato de que todos nós presumimos que já nos conhecemos muito bem e que precisaríamos apenas nos superar. Eita soberba velha.


Ou, como diz o jargão surrado: basta somente que nos tornemos uma versão melhor de nós mesmos. Meu Pai do céu. Melhor versão do quê? De que joça? Opa! Melhor não rimar, continuemos escrevinhando em prosa.

 

Uma das grandes obviedades da vida é que ninguém suporta uma dose muito grande de verdade como sacanamente nos ensina Friedrich Nietzsche. Aliás, essa é a pergunta de um milhão de dólares: quanta verdade nós somos capazes de aguentar sobre nós mesmos? Que tanto? Esquecemos com facilidade a frase repetida inúmeras vezes pelo Doutor House, frase essa que dá nome ao primeiro episódio da série: todo mundo mente. Todos.

 

Eu minto, você mente, todos nós mentimos. Mentimos uns para os outros e, é claro, mentimos muito, muito mais para nós mesmos. E é aí que reside toda a encrenca.

 

Como não suportamos uma boa dose de verdades sobre nós mesmo, verdades essas que são sutilmente apontadas para nós pelos voz sussurrante de nossa consciência, recorremos frequentemente para elaboração de justificativas, subterfúgios e demais recursos malandros para não sermos incomodados pela dura e cômica realidade sobre nós.

 

Aliás, se realmente estivermos dispostos a isso, façamos, agora, um bom exame de consciência e ousemos elaborar para nós uma lista das inúmeras justificativas que apresentamos para nós mesmos quando estamos diante de um fato desconfortável sobre nossa pessoinha, a respeito de nossas escolhas e decisões que foram levianamente tomadas no correr de nossa porca vida. Te garanto, será uma bagual de uma lista. A minha, confesso, não é pequena.

 

E se formos bem bandidos, doidos para nos judiar, podemos nos indagar, toda vez que estivermos matutando sobre algo, a respeito das nossas escolhas e decisões, o seguinte: nossas considerações sobre isso ou aquilo são uma tentativa sincera de entender a situação, ou seria apenas mais um punhado de justificativas, bem ou mal elaborada, para disfarçar tolamente a nossa patética condição demasiadamente humana.

 

Pois é. Não aceitamos reconhecer esse mecanismo malandro que habita nossa alma desordenada e, por isso, não superamos nossos equívocos, não abraçamos nossa cruz de cada dia e seguimos em frente.

 

Tememos e rejeitamos o reconhecimento, que nos leva ao conhecimento, porque, se fizermos isso, de fato, a verdade irá nos libertar desse autoengano que nós chamamos de “a melhor versão de nós mesmos”; que nós chamamos de nossa “autoimagem”, de nossa “personalidade”, ou de qualquer outra coisa que o valha.

 

E o pior é que muitas vezes confundimos a voz da nossa consciência com os gritos e grunhidos dos círculos de escarnecedores que compõem a sociedade e, ao invés de procurarmos estar nos conformando à verdade, para crescermos com ela, terminamos por nos deformar, seguindo caninamente os ditames das opiniões toscas, fundamentadas em ideologias canalhas, que se impregnam em nossa alma, desordenando-a mais ainda.

 

E caímos nesse conto, com ou sem aumento de ponto, porque não procuramos realmente nos questionar para melhor nos conhecer. Nos recusamos a aceitar o fato de que cometemos uma série de erros em nossa vida e que, apenas conhecendo-nos e aceitando-nos, com nossas incontáveis imperfeições, nós poderemos superar essas inúmeras página borradas de nossa história. E se não as superamos, elas permanecem e nos assombram.

 

Talvez, por isso mesmo, sejamos tão inquietos. Provavelmente, por essa razão, que gostamos tanto de fazer pose de cidadão crítico, muito mais do que crítico, tremendamente crítico, parente tudo e todos porque, imaginamos, que agindo assim, ao menos ficaremos bonitinhos na fita.

 

Não apenas isso. Aí não temos de admitir que o tanto de verdade que somos capazes de aceitar é proporcional ao número de estudos científicos que consultamos para dizer aos quatro ventos que nossas crendices cientificistas e alopradas do momento são [suposta e hipoteticamente] cientificamente comprovadas. Pois é. Doído isso, não é mesmo? Mas é a mais pura verdade.

 

É, cara pálida, é muito mais fácil colocarmos entre nossos lábios palavras apelativas como negacionismo, fascismo, empatia, alteridade, comunismo, alta cultura e tutti quanti, do que realmente procurarmos reconhecer e aceitar a verdade que bate, de forma sutil, às portas de nossa alma.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela




Comentários

  1. Exatamente!!! Vivem num 'mundo idealizado" que começa na 'própria persona',
    e aí a fantasia rola solta.

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