ORAÇÃO FÚNEBRE À JOÃO MATHEUS SOARES

OSS. TODOS NÓS, QUE AQUI ESTAMOS, conhecíamos o João Matheus. Todos, que aqui estão, eram amigos do filho da Claudete, companheiros do piá do professor Vando. 

Conhecíamos bem o seu bom humor, o carinho que ele tinha para com os cães, a paixão e perseverança que ele nutria pelas artes marciais, pelo jiu jitsu, e a indignação manifestada por ele frente às injustiças que aqui, em nossa terra, não são poucas, infelizmente.

Porém, poucos conheciam e compreendiam a sinceridade que pulsava em seu coração.

Um coração que procurava, silente e ardentemente, por Deus.

Sim, como ele procurava! Procurava, todavia, não lhe despertava a menor confiança os olhares dissimulados que supostamente julgavam e julgam em nome do Senhor; os lábios fingidos que diziam e dizem falar em nome do Altíssimo, pela mesma razão, o inquietavam, pela falsidade que se faziam presente nas palavras ditas sobre Cristo, mas sem Deus no coração; ele não queria acreditar que a grandeza de Deus poderia caber simplesmente dentro da pequenez e mesquinharia das escaramuças de púlpito. É. Deus é maior que tudo isso. 

Pois é. Sem conhecer, ele sabia o que o Eclesiástico nos ensina: “Aí do coração fingido, dos lábios perversos, das mãos malfazejas, ai daqueles que levam na terra uma vida de duplicidade”. (II, 14)

O nobre coração desse rapaz, que sinceramente estava procurando a Verdade – Verdade que apenas ao Pai pertence - via de maneira translúcida a hipocrisia que, como uma névoa, pairava sobre nós.

E isso o deixava inconformado. Inquieto.

Essa inquietação que ele sofria, sem o saber, é a marca característica de todos aqueles procuram Deus com fervor, como nos ensina São Paulo em sua epístola aos Filipenses.

E aí daqueles que não se inquieta, pois, como nos lembra Santo Agostinho, Deus nos fez para Ele e, por isso, o coração que o procura anda sempre inquieto enquanto não descansa Nele. Enquanto não descansa no Senhor. E, agora, o nobre coração desse lutador está em paz. O João Matheus descansa no Senhor.

Santo Agostinho, o filho de Santa Mônica, certa feita havia composto uma belíssima prece para ser rezada em momentos como esse. Uma prece para rezarmos e meditarmos em todos os dias de nossa vida.

“A morte não é nada./Eu somente passei para o outro lado do Caminho./Eu sou eu, vocês são vocês./O que eu era para vocês, eu continuarei sendo./Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram./Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador./Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos./Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim./Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo./Sem nenhum traço de sombra ou tristeza./A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado./Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas?/Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho…/Vocês que aí ficam, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi”.

É. Hoje, nesse momento os tatames desse mundo estão em silêncio. Eles perderam um de seus mais valorosos lutadores que, agora, está no Dojô celeste a encantar as hierarquias beatíficas com sua arte em uma série infindável de ippons.

Oss.

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