quarta-feira, 3 de maio de 2017

UM, DOIS, TRÊS...

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Essa conversa furada de querer mudar o mundo, de desejar construir o tal do mundo melhor possível, de lavorar pela realização de uma utopia e blábláblá, no fundo, bem no fundo, tudo isso é apenas um amargo fruto de uma tremenda falta de vergonha na cara e de achar algo útil, bom e digno que fazer. Só isso e olhe lá.

(ii)
Um dos fatores que mais nos leva a cometer equívocos é a crença pueril de que somos imunes a qualquer tentativa de nos influenciar e de nos ludibriar; a fantasia tonta de que somos mui espertos e que ninguém poderá dar um migué em nós.

Não é preciso dizer que em nosso país sobram pessoas – muitas delas bem intencionadas – que alimentam esse tipo de tolice. Soberba tolice.

Também não é à toa que os sem vergonha de todos os naipes políticos e dos mais variados estratos sociais fazem a festa às nossas custas e tripudiam, e com razão, em nossas paletas ao nos verem, muitas vezes, manifestando aquela indignação [depre]cívica contra eles quando, por desconhecimento voluntário dos fatos, estamos realizando justamente o que os carniças querem que façamos por eles imaginando que estamos lutando contra os caiporas.

Resumindo o entrevero: enquanto o cidatonto indignado, mesmo que seja por justos motivos, age por impulso, os senhores do carteado maquinam todas as jogadas possíveis, inclusive aquela que imaginamos estar fazendo autonomamente, por nossa conta e risco.

Se você nunca parou pra pensar nisso, está mais do que na hora de levar essa possibilidade em consideração para não ser mais feito de otário com tanta frequência.

(iii)
Tenha certa cautela com aquilo que julga saber com uma irrevogável certeza porque, na maioria dos casos em que imaginamos estar plenamente cônscios sobre algo, acabamos vergonhosa e tardiamente descobrindo que estávamos redondamente enganados sobre o dito cujo.

Para tanto, pergunte-se, sobre qualquer coisa que julgue conhecer com uma razoável certeza se isso, que você afirma saber tão bem, você o sabe enquanto uma possibilidade, como algo verossímil, como sendo uma probabilidade ou por ser uma indubitável certeza razoável.

Se não conseguir fazer isso é porque, penso eu, seria preciso, urgentemente, rever o seu ponto de vista sobre esse algo. Agora, se não conseguirmos nem mesmo compreender a razão dessa simplória indagação é porque o enrosco é muito mais sério do que você é capaz de imaginar. Bem mais sério mesmo.

(iv)
A grande batalha da modernidade, do homem moderno, é de natureza espiritual. E essa peleja começa pela defesa do silêncio. Sem ele, sem o nosso abençoado ambiente silente interior, tudo o mais tornasse apenas agitação vazia em misto com um punhado de impressionismos sentimentais ocos.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

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