sexta-feira, 31 de março de 2017

QUASE POESIA, n. 83

A alma pragmática acha louvável
O vulgar espírito utilitário soturno
De sua vida banal e imprestável.

SEM CONFIDÊNCIAS INCONFIDENTES

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Houve um tempo, não faz muito, que o céu era um alento para as pessoas que, ao cair da noite, contemplavam as estrelas entregando-se aos mistérios que suas piscadelas que inspiravam todo aquele que deleitosamente entregavam-se ao seu espetáculo silencioso.

Atualmente, ao contrário dos tempos de antanho, vivemos com nossos olhos voltados para altura de nosso umbigo, para a tela luminosa dum brinquedinho eletrônico que suga uma porção significativa de nossas horas e um bom tanto do elã de nossa vida.

Enfim, diferentemente dos outros animais, nós éramos a únicas criaturas que contemplavam o firmamento e hoje, tais quais todas as bestas, ignoramos a sua celestial presença tendo os olhos voltados para a viseira eletrônica que voluntariamente passamos a carregar em nossas mãos.

(ii)
A perenidade das palavras não nos garante a eternidade dos aplausos que massageiam nosso ego [envaidecido] através do regozijo que nos é ofertado pela efemeridade dum momento.

Fiar a vida nesse passo, com uma ilusão no horizonte a nos guiar, é, no mínimo, uma grande temeridade, mas que, na atualidade, tornou-se praticamente a regra que rege o cambaleante andar da nossa desfibrada sociedade.

(iii)
As crianças e adolescentes, hoje, dum modo geral, de tão podres de mimados que estão, devido à desídia dos adultos responsáveis por sua educação, acabaram se tornando criaturas incapazes de empatia e almas desprovidas de atos que não seja egolátricos.

(iv)
Coerência, constância e consequência. Três palavras indispensáveis na prática da dita cuja da tal da educação. Três palavras que a educação brasileira ignora olimpicamente. Isso mesmo. Se há algo que é uma constante no incoerente sistema educacional brasileiro é a inconsequência dos atos e malfeitos infantis e juvenis.

(v)
Num país onde os infantes ficam, em média, onze anos em instituições de ensino e, ao final desse período, a maioria delas acaba saindo na condição de analfabeto funcional, é porque isso que se chama nessas terras de sistema educacional, pode ser qualquer coisa, menos algo que tenha como intento educar alguém.

Detalhe: cerca 68% da população brasileira é analfabeta funcional.

Outra coisa: numa sociedade onde as famílias, quando seus rebentos cometem uma série de erros, ao invés de corrigi-los, procura culpar os professores e possíveis coleguinhas, pode ser qualquer coisa, menos uma família.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quinta-feira, 30 de março de 2017

QUASE POESIA, N. 82

Seja em verso ou em simples prosa
A brincadeira com letras e palavras
É uma inutilidade franca e heroica
Que só escandaliza almas fracas.

domingo, 26 de março de 2017

MULTICULTURALISMO E OUTRAS PATACOADAS

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
A verdade está praticamente sempre sendo esfregada em nossas ventas, sempre mesmo. Porém, na maioria das vezes, nós estamos com os nossos olhos atentos demais, não para ela, mas sim, para nossas míseras opiniões o que, por sua deixa, nos impede de contemplarmos o seu esplendor.

(ii)
Não suportamos, na maioria absoluta das vezes, olhar diretamente para a realidade, para a face lavada e escarrada da verdade. Por isso, preferimos nos auto-enganar olhando para o mundo por meio do filtro de nossas rasas opiniões. Sem a proteção desse torpe filtro nossa personalidade de papelão seria incendiada pelas labaredas da verdade.

(iii)
Temos medo da verdade porque sabemos que ao ouvi-la e aceita-la teremos que, necessariamente, mudar de vida ou admitirmos que somos um tongo convicto de nossa tonguice.

(iv)
O grande problema das conversações sobre a tônica política em que nos encontramos imerso é que a maioria absoluta das vezes as pessoas falam, e como falam, do que elas sentem a respeito do momento vivido e do que elas pensam sobre o mesmo e, mui raramente, se preocupam em sinceramente entender o que exatamente está acontecendo com o nosso triste país e, não o fazem, por uma razão simples: para tanto teriam que necessariamente abdicar da posse de comentador político, largar seus cacoetes e esquemas mentais ideologicamente pré-concebidos e começar a estudar um pouco o assunto com um mínimo de seriedade. Só por isso.

(v)
O multiculturalismo é uma forma cinicamente sombria de erodir, de um modo geral, a cultura ocidental e, particularmente, de destruir o Cristianismo e todos os valores que dele emanam e que por ele são sustentados.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

sábado, 25 de março de 2017

COISINHAS SONSAS DA MODERNIDADE

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

O mundo moderno é uma lindeza! Todo mundo, cada um ao seu modo, luta, quer dizer, faz manha e bate o pezinho para ver os seus desejos mais obscuros reconhecidos como um direito fundamental inalienável.

Seguindo esse andor (depre)cívico onde, bem ao contrário do que as almas sonsas esperavam, a cada dia que passa aumenta significativamente o narcisismo, cresce abusivamente o uso do outro como um mero instrumento para a obtenção de prazeres tão efêmeros quanto egoístas, temos a expansão do hedonismo e contamos com um número crescente de divórcios.

Pois é, e com tudo isso, bem ao contrário do que muitos esperavam, as pessoas estão mais e mais solitárias e infelizes (mesmo tendo uma chusma de "seguidores" e “amigos” em suas redes sociais).

Porém, todavia e, entretanto, o importante mesmo, para as cabeças sonsas e modernosas, é que todos nos sintamos mais emancipados, liberados e empoderados com nossas infelicidades coletivas, angustias difusas e, principalmente, com nossas frustrações existenciais individuais.

(*) Professor, cronista e bebedor de café.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O MAIS PURO XUCRISMO

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Uma cena muito comum que temos de testemunhar quase que diariamente é a de vermos a gurizada, estando ouvindo um tedioso e repetitivo sermão proferido por um adulto - seja esse adulto seu pai ou um professor - dizer que eles já estão cansados pra caramba de ter que ficar ouvindo aquela lengalenga toda. Triste isso.

Pois é, porém, sem querer ser chato, mas já o sendo, como de costume, de minha parte, diria o seguinte para esse tipo de fedelho: me diga uma coisa seu moleque mimado e presunçoso: quando você irá se cansar de continuar fazendo as mesmas bobagens de sempre e começar a criar vergonha da cara? Quando?

Lembre-se: errar é inerente a condição humana, mas persistir no erro achando isso a coisa mais linda do mundo é estupidez da brava. Só isso e olhe lá.

(ii)
A “valentia” de certos jovens e adolescentes que afrontam pais e professores só se justifica pelo seu desfibramento estupidificante estimulada pelos valores degradantes da sociedade contemporânea.

Isso mesmo! Todo esse papinho de revoltado - com ou sem causa - não passa de cobardia da brava. É isso mesmo, pusilanimidade.

Esses ranhentos que afrontam pais e mestres fazem isso só porque sabem que essas pessoas não irão revidar os insultos e/ou agressões - nem de modo proporcional e muito menos de maneira avassaladora as provocações deles. Só por isso.

E, tanto o é assim que, quando vemos os mesmos valentões entre os seus, esses mostram a sua verdadeira face.

Eles aturam as mais vis humilhações impingidas pelos seus semelhantes de modo silente e com aquele sorrisinho amarelo e sem graça estampado no rosto ao lado das espinhas, porque sabem que seus iguais não são como os seus professores e muito menos com os seus pais e, por isso mesmo, se eles ratearem frente aos ultrajes, os amiguinhos irão, sim, revidar.

Enfim, enganem-se e se auto-enganem o quanto quiserem, mas é isso que são todos esses jovens metidos e revoltadinhos: somente alminhas covardes e podres de mimadas. Só isso e olhe lá.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quinta-feira, 23 de março de 2017

BEM LONGE DA CIDADE DAS ESMERALDAS

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

Uma das frases mais sonsas ditas pelas pessoas pretensiosamente sabidas é de que a filosofia de forma particular, e a educação de um modo geral, têm por meta “ensinar as pessoas a pensarem”. Vejam só: ensinar a pensar.

Tal afirmação, com toda sua pompa, simplesmente diz nada com coisa nenhuma. E, assim o é, porque todo mundo, qualquer um, sabe pensar sem que ninguém os ensine a fazer isso, da mesma forma que respiramos, enxergamos e comemos.

O que todos nós, dum jeito ou doutro, aprendemos com o tempo, é a pensar sobre novos temas e a abordá-los duma outra perspectiva e/ou através de novas referências, mas não a pensar. Não mesmo.

Aliás, quando alguém afirma que aprender isso seria “aprender a pensar” é porque essa alminha está querendo que os indivíduos pensem exclusivamente a partir de sua concepção ideológica do mundo e que passem a tê-lo na conta de um guru venerável duma patacoada ideológica.

Trocando por miúdos: para esse tipo de gente, aqueles que não pensam a partir de suas referências não pensam e por isso, seriam alienados, como eles mesmos dizem.

A afirmação de tal absurdidade seria similar, por exemplo, a pretendermos ensinar uma pessoa a comer. Todos sabem mandar ver junto à mesa. Aliás, um bebê, no colo de sua mãe, vorazmente procura o ceio materno para encher sua pancinha de leite sem que ninguém necessariamente o ensine a fazer isso.

Com o tempo, ensinam-lhe a apreciar outros manjares mais apetitosos que o leite da mamãe e modos mais refinados para se portar à mesa nas ocasiões mais diversas e, isso tudo, obviamente, não é ensinar a comer, mas sim, a diversificar e refinar o paladar e instruir o sujeito sobre os tais bons modos e, penso eu, que ninguém em sã consciência confundiria o aprendizado disso com o ato de ensinar alguém a comer.

Porém, todavia e, entretanto, no primeiro caso, por uma profunda presunção e prepotência, não são poucos os que arrogam para si a missão de ensinar as pessoas a “pensar” sem ter parado - por um momento que seja - pra pensar no que isso realmente significa, não é mesmo?


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quarta-feira, 22 de março de 2017

TIRANDO A CASQUINHA DA FERIDA

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
As ideias subjacentes às palavras que frequentemente repetimos e que estão subentendidas nas frases feitas que regularmente usamos para dar forma as deformidades que matutamos e falamos acabam, sorrateiramente, determinando o tipo de pessoa que acabaremos, cedo ou tarde, nos tornando sem que estejamos cônscios disso.

(ii)
Muitos são os pecados que cometemos. Muitos mesmos. Mas, é bom lembrar sempre que a base de todos os desvios cometidos por nós nessa matéria consiste simplesmente em procurarmos Deus onde Ele não está; em tratarmos como divino aquele ou aquilo que, definitivamente, não o são.

(iii)
Amizade é um luxo, uma joia preciosa que, quando encontrada, carregamos em nosso íntimo para todo o sempre, mesmo que raramente ela esteja ao nosso lado em nossa caminhada em nossa jornada por esse vale de lágrimas.

(iv)
Em regra, na sociedade atual, o que leva muitas pessoas a sentirem orgulho e a fundarem sua autoimagem seriam certas bobagens que, fundamentalmente, não são coisas que sejam motivo de vergonha quando não ocupam essa posição em nossa vida, porém, a partir do momento em que certas tranqueiras são estampadas junto ao peito, como uma espécie de medalhão para que sejam compulsoriamente vistas a admiradas por todos, inevitavelmente tornam-se algo, no mínimo, vergonhoso. Pior! Quanto maior for orgulho nutrido por essas bagatelas, mais feio se torna o vexame.

(v)
Não são poucas as pessoas que, ao lerem algo, preguiçosamente procuram introduzir nas palavras os significados que elas gostariam - ou que imaginam - que elas tenham para que, desse modo, possam dizer o que elas consideram ser o sentido do dito cujo do texto. Dificilmente ocorre a essas alminhas que as palavras, todas elas, carregam em seu âmago não apenas um significado dicionarizado, mas também e fundamentalmente, uma imensa bagagem de experiência humana ciosa por ser decifrada por aqueles que deitam suas vistas sobre elas.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

sexta-feira, 17 de março de 2017

PIOR QUE UM BERNE NO LOMBO

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Não tenho a pretensão de proferir uma verdade cientificamente comprovada, nem de utilizar-me de títulos furados de valor duvidoso para calçar minhas palavras mal escrevinhadas.

Aliás, somente imbecis se apresentam como portadores de tais coisas para parecerem sabidos e importantes e, talvez, por isso mesmo, esse tipo de gente, que tanto abunda nessas terras cabralinas, nunca sabem do que exatamente estão parlando apesar de toda a pose de “sinhô dotô” que cultivam com tanto esmero.

De minha parte, me darei por satisfeito se conseguir, dentro de minhas jumenticas limitações, descrever os fatos, as cenas, os fenômenos e as inquietações geradas por elas em minha alma suína tal qual elas todas se apresentam ao meu ser e, principalmente, da forma mais sincera que me seja possível.

Enfim, resumindo o entrevero: fazer pose e repetir frases de efeito é moleza, até um adolescente metido faz isso. Ostentar um currículo burocraticamente cheio de papéis que atestam feitos duvidosos também não é difícil. É apenas enfadonho, chato pra dedeu, porém, não é o bicho. Todavia, falar com o coração na mão e com os olhos vazados pelas setas da sinceridade é, penso eu, algo realmente digno de ser almejado e urgente que seja conquistado por cada um de nós.

(ii)
Lima Barreto, certeiro com sua pena, como sempre, dizia que no Brasil não existe esse negócio de vocação; o que há nessas terras de Pindorama, segundo ele, é apenas imitação.

Trocando por miúdos: dum modo geral, desejamos apenas parecer uma cópia fajuta de algo que consideramos bacana, que pega bem na fita e que, de quebra, dê uns bons trocados.

Infelizmente, dum modo geral, não almejamos, jamais, com todas as forças de nosso ser, nos tornar esse algo que em regra apenas imitamos.

(iii)
A palavra empoderamento além de não lhe proteger duma situação de ameaça real, ainda pode, devido à soberba subjacente ao dito vocábulo, colocar a sua alma numa condição de irrevogável perigo, haja vista a forma prepotente que ela e as ideologias que a justificam colocam a carne e o mundo contra e acima do espírito. Pense nisso, sem pressa e sem aquela epidérmica irritação. Caso contrário, se isso não for possível, apenas ignore essa infame escrevinhação.

(iv)
Uma das grandes causas do desfibramento moral da sociedade atual, que se encontra à deriva em meio a ondas niilistas e maresias hedonistas, é a facilidade com que se confunde a formação duma personalidade forte e estável com uma autoimagem fragilizada, complacente com nossa soberba e vaidade.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quinta-feira, 16 de março de 2017

TEDIOSAMENTE TEDIOSO

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Gente sabida, diplomada e engaja, dum modo geral, imagina que todo mundo deve ser reduzido e enquadrado dentro dos contornos mesquinhos da imagem e semelhança de suas limitações mentais; gente essa que é capaz de mover mundos e fundos para tentar na base do grito e do patrulhamento ideológico colocar tudo e todos dentro do esquadro da subcultura degradante que elas elegeram como sendo o cume mais elevado da realização humana.

(ii)
Aprendermos a olhar a nós mesmos pelos olhos de Platão e, definitivamente, deixar de olhar Platão com as limitações de nossos olhares entorpecidos pela cultura contemporânea. Eis aí uma grande empreitada. O mesmo vale para todos os grandes mestres. Enfim, sem rodeios, essa é uma lição simples que deveria ser aprendida por todo aquele que diz gostar da tal filosofia e da dita cuja da literatura.

(iii)
A totalidade da realidade é sempre bem, bem maior que o olhar esquadrinhador de qualquer ofício. Bem maior mesmo. Porém, maior que isso é somente a nossa incapacidade de aceitar e compreender essa patente obviedade.

(iv)
Pagar o ódio com amor é uma lição que todos nós, indignos pecadores, relutamos em aprender. Como relutamos. Entretanto, ninguém é mais relutante do que aqueles ativistas progressistas que fazem da semeadura do ódio nos corações uma profissão que, em muitíssimos casos, é muito bem remunerada e tem um elevado status na sociedade atual.

(v)
Quando Nosso Senhor diz-nos para abraçarmos a nossa cruz de cada dia e, fazendo isso, nos coloquemos a segui-Lo, o que Ele está querendo nos dizer, de modo elegante e eloquente, é que nós devemos ser phodas e encarar a vida como Ele encarou a cruz para sermos discípulos Dele. Ou, como bem nos diz C. S. Lewis, se você está à procura de uma religião que o deixe confortável e bem fofinho, definitivamente o autor das "Crônicas de Nárnia" não lhe aconselharia o Cristianismo.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A PALAVRA CÃO NÃO MORDE

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Muitos amam assistir seriados. Uns mais que outros. Inclusive há aqueles que se fiam em grupos de discussão para adentrar nas vísceras das tramas formulando inúmeras teorias e, de quebra, acabam apresentando várias interpretações possíveis e plausíveis sobre as mesmas.

Aliás, tais práticas são profícuas formas de exercitar a imaginação moral. Show de bolice.

Dois grandes sucessos que merecem destaque seriam os seriados “Game of Thrones” e “The Walking Dead”. Não há dúvidas: são duas grandes produções.

Porém, o que de fato me chama muita a atenção é o seguinte: como pode uma pessoa gostar desses dois seriados citados e, ao mesmo tempo, ser favorável ao desarmamento civil? Como?

Bem, ou o caboclo não entendeu nada do que está em jogo na vida real, ou não entende patavina nenhuma do que as referidas séries nos convidam a pensar.

(ii)
As palavras não são a expressão da realidade. São pontes movediças que podem nos auxiliar a entrarmos em contato com o mundo ou nos distanciar definitivamente da concretude da vida.

(iii)
Se estabelecermos como meta maior de nossa vida o intento de sentirmo-nos bem e sermos aprovados e aceitos por todos do jeito que somos com nossos desejos e esquisitices, uma coisa é certa: dificilmente uma vida assim vivida terminará bem, porque simplesmente a vida é muito maior que um sentir-se bem, muitíssimo mais ampla que a necessidade de aprovação e aceitação dos outros e, obviamente, mais profunda que nossas veleidades.

(iv)
Um dos subterfúgios mais calhordas do politicamente correto é o de fazer os indivíduos sentirem-se culpados por um erro que eles tenham cometido no passado, ou fazê-los sentirem-se torturados em sua consciência por um suposto erro cometido noutras primaveras, paralisando seu discernimento.

E isso é feito através de cínicos jogos de linguagem, por meio de pressão grupal e de histerismo coletivo na forma de indignação [depre]cívica (aqueles piti cheios de indignação e palavras de ordem).

Tamanha é a pressão que muitas mentes não resistem e sucumbem pateticamente diante desses ídolos de barro e passam a aderir aos novos “preceitos morais” que são ditados pelos modismos intelectuais que lhes são sugeridos como sendo a expressão máxima do progresso humano.

(v)
Da mesma forma que a palavra cão não morde a vocábulo empoderamento não defende sua vida numa situação de risco real.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

sexta-feira, 10 de março de 2017

ENTRE PONTES E MATA-BURROS

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Não queira, jamais, fiar os seus estudos no intento de ser entendido pelos ignorantes, principalmente por aqueles néscios que vivem da pose postiça de sabichão engajado.

Estude para conhecer a verdade e compreender a realidade. Se os estultos não compreenderem o que você faz e não entenderem o que você diz, não te apoquente não, porque não existe conhecimento da verdade quando esperamos candidamente que os sonsos nos compreendam.

Resumindo: não há procura pela verdade que não seja acompanhada pela incompreensão da manada presunçosamente [des]informada. Não mesmo.

(ii)
Deveríamos, penso eu, iniciar o nosso dia com a apresentação – para nós mesmos – duma intenção que deverá ser realizada o findar do dia. Proposito firmado, dia iniciado.

Quando chegar a hora crepuscular, com a mesma inclinação, deveríamos, pensou eu, realizar um exame de consciência e verificar em que medida realizamos o proposito firmado e, além dele, o que mais realizamos no anonimato silente de nosso cotidiano para, desse modo, constatar em que medida a agitação do dia a dia nos afetou e nos distanciou de nós mesmos.

(iii)
Uma pessoa que coloca sempre diante de seus olhos os seus desejos e quereres como se fossem um direito pétreo são geralmente almas incapazes de, no seu dia a dia, perguntarem-se quais seriam os seus deveres para com seus próximos e, muito menos, em que medida elas deveriam estar esforçando-se para realizá-los.

(iv)
Sempre quando um bocó diplomado e metido a sabidão diz que você tem ideias simplórias, que você pensa de maneira deveras simplista, não é porque você seja um tonto, não mesmo. Bem provavelmente ele diz isso porque o caipora está simplesmente bravinho porque você ousou discordar diametralmente dele e que, por isso mesmo, ele foi pego com as calças nas mãos e não sabe como respondê-lo dum modo realmente inteligente e apropriado sem perder a pose afetada de "sinhô dotô".

(v)
Toda essa galerinha que dá show na forma de manifestação de cidadanite exigindo respeito, tolerância e todinho sabor morango, confunde com grande frequência a tal da tolerância com um tipo de culto profano de todos os seus desejos e, o dito cujo do respeito, com uma espécie de veneração egolátrica.

(vi)
Quando alguém diz, como Simone de Beauvoir, que nada deve nos definir, nem nos sujeitar e que isso seria a própria substância da liberdade, sem querer querendo, essa criaturinha está confessando o quão profundo é o poço egolátrico que há em sua alminha.

Resumindo: a criaturinha acaba apresentando como cume da liberdade e, consequentemente, da maturidade humana, uma pose similar a de uma criança mimada que diz, batendo o pesinho, que ela não vai comer legumes porque ninguém vai definir o que ela irá comer e nem sujeitá-la a arrumar o seu quarto porque ela é uma pessoinha livre, independente, engajada e blábláblá.

Isso é triste. Sei disso. Mas é mais ou menos assim que a banda da cidadanite toca em nosso macambúzio país.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quinta-feira, 9 de março de 2017

UMA CASA MUITO ENGRAÇADA

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
É incrível como, hoje em dia, muitas pessoas confundem tristeza, profunda ou rasa, com a tal da dita cuja da depressão. Basta que um fardo um pouco mais pesado que o de costume pese sobre os ombros para que o sujeito diga todo macambúzio: “Tô deprimido”.

Muitas vezes, como nos aponta Theodore Dalrymple, não é nada disso. Não é depressão. É apenas tristeza.

Porém, tamanho é o estímulo à fragilização do caráter dos indivíduos que hoje impera que muitos, sem perceber, acabam tornando-se almas desfibradas ao ponto de se deixar abater por um olhar torto, ou com meia dúzia de palavras ríspidas, vendo nisso um imenso desterro que demandaria uma atenção especial, um tratamento singular ou, ao menos, um colinho estatal.

Resumindo a peleja: nosso país não está deprimido não; ele é triste e carece urgentemente de símbolos culturais que arrastem os indivíduos a abandonarem de vez a cidadanite do mimimi para abraçar de peito aberto o indispensável senso aristocrático que é exigido por uma democracia para, desse modo, deixarmos de ser uma massa amorfa para nos tornar, de fato, um povo.

Que isso aconteça em larga escala e num curto prazo de tempo é praticamente uma impossibilidade. Estou sabendo. Agora, nada impede – nada - que mudemos o rumo de nossa existência agora mesmo e de modo resoluto para longe da direção que sonsamente caminha a brasilidade contemporânea. Nada mesmo.

(ii)
Há tempos em que o amarelado do sol apresenta-nos uma feição doentia ao ponto de fazer a vida em nosso em torno parecer cabisbaixa e sem brilho.

Nesses mesmos tempos as noites acabam nos engolindo com seu assustador negro manto de ébano que devora a presença luminosa de tudo e todos que estão em nossa volta.

Esses dias tristes e essas noites escuras são um tempo propício para voltarmos nossas vistas para o luzeiro que habita o íntimo de nosso coração e que, na correria nossa de cada dia, acaba passando totalmente despercebido e mesmo ignorado por nós.

Esse luzeiro é o que José Ortega y Gasset chamava de “o fundo insubornável do ser” que, por seu turno, os medievais chamavam simplesmente de olhar onisciente de Deus.

Olhar esse que nos guia pela noite escura e nos vivifica nos dias plúmbeos quando, é claro, estamos dispostos a mirar nosso passo na direção que nos é indicada por onisciente luzeiro.

(iii)
Pessoas boazinhas cultivam a pose de boa gente, agradando tudo e todos, até terem a oportunidade de agir de modo cínico e descarado e, mesmo assim, fazem isso sem perder aquele jeitão afetado de superioridade postiça. É assim mesmo. Não adianta. Nesses casos o amor ao ridículo é sempre maior que o desejo de agir de modo verdadeiramente bom.

(iv)
Toda essa folia raciocinante que se apresenta pelo garboso nome de educação crítica, ou que responde pela linda alcunha de formação crítica para uma cidadania ativa, não passa duma vil transmissão de rabugices de segunda e perene infância, duma geração criticamente mimada que não quis e não quer abandonar a criancice, para outra que não quer de modo algum ter de carregar o fardo da maturidade.

(v)
Deus está vivo ou morto? Nem uma coisa, nem outra. Ele é. Simples assim. Agora quanto a mim, bem, no momento estou vivo e, um dia, para felicidades de alguns, morto estarei. Não tem jeito. É simples assim também.

E tem mais! Passar-se-á algumas semanas e minha passagem por esse mundo será esmaecida e, em pouquíssimos anos (nem isso), serei esquecido de tal forma que se terá a impressão de que eu nunca teria existido [com você não será diferente não]. Sei que isso é phoda, mas é a mais pura verdade.

Porém, todavia e, entretanto, Deus, que é tido por muitos sonsos, como uma mera ilusão, continua e continuará sempre presente e atuante sobre o mundo, mesmo após o anuncio de sua morte que fora feito pelo enlouquecido e falecido filósofo alemão de bigodão.

Pois é, e se Ele fosse uma ilusão, não consigo parar de pensar o quanto isso torna maior a minha insignificância cósmica, haja vista que, desse modo, uma “ilusão” será lembrada e amada por milênios e eu - tão real quanto carnal - num pestanejar torno-me um ninguém mais que esquecido.

Enfim, não é à toa que a Sagrada Escritura nos diz que tudo que está debaixo do sol não passa de vaidade; vaidade das vaidades.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

sábado, 4 de março de 2017

É NÓIS MERMO MANO VEIO

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
O direito dos manos nada mais é que o uso, a instrumentalização feita pelas hostes do marxismo cultural, dos direitos humanos transformando-os num cavalo de batalha para solapar as frágeis bases das nossas instituições e, de modo sorrateiro, fazer ruir toda ordem social e, de quebra, erodir com os fundamentos dos direitos humanos.

(ii)
Toda vez que a camarilha esquerdopática começa a dar piti politicamente correto na defesa dessas ou daquelas minorias, ela faz isso não tanto por amor ao próximo, mas sim, por devoção idolátrica ao seu projeto totalitário de poder que instrumentaliza tudo e todos para realização de seus delírios políticos.

 (iii)
O grande problema não é tanto a direção que é apontada pela bússola ideológica dum indivíduo. O grande problema é a falta de honestidade intelectual e a total ausência de amor ao próximo que habita, dum modo geral, no universo político e intelectual brasileiro. Tais pedras angulares – o amor ao próximo e à verdade - são substituídas pela dissimulação histriônica de superioridade moral e pelo bom mocismo afetado de gente intelectualmente chique e tolerantérrima. Quando isso ocorre, invariavelmente, o sujeito acaba por colocar qualquer ninharia ideológica no lugar da verdade para, desse modo, tentar parecer aquilo que ele jamais será: uma pessoa razoável e minimamente decente.

(iv)
As dificuldades na vida existem e não são poucas, diga-se de passagem, porém, nada se compara ao calvário de Nosso Senhor que por amor se entregou ao madeiro da cruz por cada um de nós. Ou você é daqueles imbecis que, como certas figurinhas públicas, com seus probleminhas vis gostam de fazer aquele teatrinho bufo e se comparar a Nosso Senhor Jesus Cristo?

(v)
Thomas Jefferson, leitor devoto da Sagrada Escritura, tinha o hábito de compilar os versículos que mais lhe tocava a alma. Compilações essas que, por sua deixa, acabaram sendo publicadas com o título de “A Bíblia de Jefferson”. Bem, nenhum de nós aqui pode bater no peito e encher a boca pra dizer que é uma pessoa da envergadura intelectual de Jefferson, porém, podemos procurar ser um leitor devoto da Sagrada Escritura, tomar notas dos versículos que mais profundamente tocam o nosso coração e meditar, diuturnamente, sobre eles. Isso, meu caro, é algo digno de imitação. Digno mesmo.

(vi)

Para a trupe esquerdopática tudo e todos são apenas meios para realização de seus totalitários fins. É tão somente isso que está subjacente a todo bom-mocismo politicamente correto.

(vii)
Peçamos humilde e insistentemente a Deus para que Ele preserve o pouco de dignidade que resta em nós e que, principalmente, nos dê a coragem necessária para defendermos tudo o que representa essa minguada distinção que nos resta para que não sejamos despedaçados pela volúpia insana que não mede esforços para nossa alma devorar. Enfim, imploremos a Deus para não sermos fracos moralmente, nem espiritualmente acovardados diante dos desafios que se apresentam a cada um de nós.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

quinta-feira, 2 de março de 2017

ABRA OS OLHOS NAVEGANTE

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Uma das palavras mais celebradas na sociedade contemporânea é a tal da tolerância e, como toda palavra que é utilizada como uma carta-coringa, ela acaba no final das contas significando coisa nenhuma pra poder dissimular que diz algo.

Senão, vejamos: primeiramente não podemos esquecer que há coisas toleráveis e outras tantas intoleráveis. Se perdemos essa distinção elementar, inevitavelmente, a vida torna-se gradativamente intolerável por tolerarmos toda e qualquer coisa.

Outra coisa: não se deve confundir tolerância com apatia moral da mesma forma que ela, a tal da tolerância, não é de modo algum sinônimo de complacência com o que é evidentemente errado e ruim.

E tem mais uma: não existe nada mais intolerante, e mesmo totalitário, do que um grupo ideologicamente deformado exigir no grito e na marra que todo mundo seja “tolerante” com isso ou aquilo ao mesmo tempo que considera como algo intolerável que alguém tenha a audácia de divergir deles.

Enfim, esse tipo de confusão é uma entre muitas que o politicamente correto, o multiculturalismo e o marxismo cultural sorrateiramente semeiam nas almas tão bem intencionadas quanto desavisadas que acabam sendo instrumentalizadas na realização de um projeto totalitário de poder que elas ignoram por completo.

(ii)
O grande legado da era do direito dos manos é a ampliação irrestrita e descarada da ousadia dos criminosos e o total desrespeito pelo trabalho dos policiais.

(iii)
Outro grande legado da era do direito dos manos é a injuriante cultura da impunidade da canalhada que, cedo ou tarde, acabará culminando numa multidão de cidadãos comuns agindo como justiceiros num ato extremo para defender os seus. E é claro que quando isso ocorrer poderemos contar com a presença certa e indefectível das carpideiras dos manos, cheias de bom-mocismo, pra defender a integridade dos manos e, de quebra, pra taxar os cidadãos comuns de monstros desalmados, e doutras lindezas do gênero, por eles terem ousado defender o fruto do suor de seu trabalho e por tentar proteger aqueles que eles amam.

(iv)
Quando mais se apazígua um canalha, mais acanalhado ele fica e, de quebra, acaba acanalhando junto com ele aqueles que tolamente dedicam suas vidas na vã esperança de dignifica-los.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.

QUASE POESIA – n. 81

Nesse dia dois do mês de março que agora raia
Faz dezessete anos que nossas mãos se acariciaram
Que nossos dedos, pela primeira vez, nossa pele roçaram
Dando início a uma história - única - que não se apaga.

quarta-feira, 1 de março de 2017

ENTRE GRANDES QUEDAS E PEQUENAS VITÓRIAS

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
Se o sujeito se preocupa muito, muitíssimo, em ter “fortes” argumentos para defender suas crenças e convicções é porque elas são demasiadamente superficiais. Tudo que carece, que necessita da confirmação, da concordância advinda de terceiros para poder ter ares de verdade não passa duma ilusão que apenas conquista a adesão de almas sem consistência.

(ii)
Empoderamento [ou empoleiramento] é apenas uma palavra vazia, uma expressão não significativa que acaba sendo utilizada para justificar toda ordem de sandices impensadas, mas que, na aridez do mundo real, não preteje ninguém das investidas sombrias que espreitam a vida das almas desavisadas. Resumindo: palavras bonitas nada podem contra a maldade que está armada até os dentes e, no frigir dos ovos, apenas revelam a fragilidade presente nas ideias politicamente corretas e rudemente engajadas.

(iii)
Empoderamento é só uma palavra mal utilizada para justificar atitudes enervantes e, em muitos casos, pra lá de mal intencionadas.

(iv)
Expor-se engajadamente ao ridículo não é poder. É pagar mico. Só isso e olhe lá.

(v)
Perceber a realidade tal qual ela se apresenta aos nossos sentidos e procurar compreendê-la a partir de suas razões seria tão só e simplesmente o tal do realismo. Agora, quanto sentimos e reagimos a tudo a partir de imagens que nos são sugeridas por palavras extremamente carregadas de emoções epidérmicas estamos diante do dito cujo do histerismo que, no Brasil contemporâneo, é celebrado como consciência crítica. E põe crítica nisso.

(vi)
O hedonismo reinante em nossa sociedade, que impregna em todas as esferas da vida contemporânea, sorrateiramente leva os indivíduos a reduzirem a sua percepção e compreensão de toda a realidade a pequenez de sua ânsia por prazeres que, inevitavelmente, acaba subvertendo toda a hierarquia dos valores e desfibrando toda a sociedade.

(vii)
Uma boa pitada de modéstia no agir e no portar-se é como canja de galinha: não faz mal a ninguém.

(viii)
A discrição não apaga nossa individualidade diante da multidão. Pelo contrário. Ela nos destaca da turba e realça nossa personalidade frente a eternidade.

(ix)
Poucas coisas são tão toscas quanto termos de testemunhar pessoas sem a menor experiência da vida sendo instigadas por criaturas maliciosas a julgarem as realidades que permeiam a vida da experiência e, consequentemente, serem levadas a crer [criticamente] que os “seus” juízos seriam mais sapientes do que tudo o que até então fora vivido por aqueles que tem alguma vivência dessas realidades.


(*) Professor, cronista e bebedor de café.