SIMULACROS E MAIS SIMULACROS

Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

INDIGNIDADE
Não fico indignado facilmente não. Na verdade, nada me causa espécie ao ponto de manifestar esse sentimento [depre]cívico, tão bem quisto na sociedade atual.

E procedo assim porque, primeiro: porque não me considero digno de rompantes de fúria. Não tenho moral pra isso. E, de mais a mais, francamente, esse tipo de bagaça tem cheiro de molecagem e, também, não mais tenho idade pra isso.

Segundo: vejo neste tipo de manifestação não um símbolo de dignidade ferida, mas sim, apenas um sinal de profunda falta de honradez. Uma manifestação pífia de impotência que presume-se onipotente com aqueles ares dissimulados de santarrão. Só isso. Ponto final.

ISSO FEDE 
Uma das grandes e pustulentas feridas da sociedade brasileira é a facilidade com que se confunde os interesses corporativistas com o tal do bem comum e a propensão vil de trata negócios excrementícios de facção como se essa fosse sinônimo de defesa heroica da coletividade.

Sim, sei que para toda regra deve uma e outra exceção. Pode ser. Porém, em regra, quando certas pessoas vem com esse tipo de trelelê, pode ter certeza que a única coisa que está sendo feita é a retirado do deles da reta. Só isso.

PAUL SÉRIEUX
Um ignorante, diplomado e presunçoso, versando de modo canhestro sobre os absurdos da ignorância presentes na sociedade high-tech a partir das ilações dum douto ignorante midiático [televisivo] é coisa linda de se ver. Não é todo dia que somos brindados com um exemplar cristalino daquilo que Paul Sérieux chamava de delírio de interpretação.

O ALICERCE
O gozado em nosso triste país é que quanto mais o tempo passa, mais o fracasso sobe à cabeça, chegando ao ponto de tomar a forma duma ideologia da brava. Similar a um encosto. Fracasso esse que se impregna na alma ao ponto de servir de alicerce para os mais rasteiros cultos egolátricos travestidos com os andrajos dos mais variados coletivismos.

E aí de quem ousar dizer aos sorumbáticos infelizes, que praticam cultos desse naipe junto com suas manadas, que eles estão imersos em um profundo sono ideológico. Não que o infeliz vá agredi-lo. Quer dizer, ele pode até fazer isso, porém, irão fazê-lo sem perder aquela afetação de superioridade postiça que, em si, é mais risível que qualquer stand up.

Ou seja: ele pode até te dar uns safanões e esses podem até te machucar, mas isso não irá impedi-lo de dar umas boas gargalhadas da cara de indignado manifesta por seu agressor e por seus pares criticamente críticos.

A MEDIDA DO METRO
Confio mil vezes mais num carniça que fala as coisas com as palavras que brotam do coração, mesmo que essas sejam um punhado de palavrões, do que num caipora que vive calculando os vocábulos pra dizer o que pensa, vê e sente, principalmente se ele faz isso com toda aquele postiço moralismo politicamente correto.

Resumindo as razões do entrevero: o primeiro, em regra, mede o que diz com a trena da sinceridade, sem maldade. O segundo, invariavelmente, regula suas palavras com a régua da aparência e do fingimento, com toda a malícia que é uma característica fundamental do politicamente correto.

(*) Professor, cronista e bebedor de café.

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