COMA COM FARINHA QUE FICA PIOR



Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

Esse papo de reforma política em partes é um trem interessante, necessário e, por isso mesmo, permeado de inúmeras e perigosas arapucas para a nossa anêmica e cambaleante democracia já, há muito, reduzida a uma reles patetocracia.

Doutra parte, reforma política é também e tão somente mais um tema oco, entre muitos, que permeia as rodas de prosa que fazem os ares brazucas ficarem inundados com aquele velho e surrado blablabá afetado de gente metida e sabida, muito bem descrito por Machado de Assis (especificamente em seu conto Teoria do medalhão).

Ora, entendamos duma vez por todas que as pessoas não mudam seus hábitos porque as leis podem ser mudadas, nem por causa dessa ou daquela reforma. Não mesmo. Não e assim que a banda toca.

Vejam, por exemplo, a proibição da compra e venda de votos e do tráfico de influências. Sejamos francos, sem ser cínicos: essas mesquinharias ocorrem de norte a sul em nosso país, de maneira descarada sob o silêncio tácito das raposas e com a total cumplicidade dos galináceos cidadãos.

Na verdade, tais práticas são a base de nosso regime patetocrático.

Tal fato é um escândalo que, ora bolas, todos fingem escandalizar-se pra fazer o tipinho ético, mas que, na real, todos, no silêncio de suas alcovas dizem para si e para os seus aquele velha cantilena canalha: “é assim mesmo que segue o andor”.

(Ora, sou capaz de entender que algumas pessoas, algumas vezes, acabam sujando suas mãos para o bem da república, porém, não é isso que ocorre aqui em banânia não. Nessa terra de desterrados muitíssimos em inumeráveis ocasiões sujam suas mãos para o benefício próprio e de suas panelinhas parasitárias).

Doravante, o que muda os hábitos dos indivíduos é a força das leis, mas sim, o poder do exemplo dado por pessoas de aquilatado caráter; principalmente, se esses caiporas ocupam algum papel de destaque na sociedade, especialmente se forem as tais “otoridades” que, não precisamos nem dizer, mas diremos: nos brindam com uma mega quantidade de péssimos exemplos que são macaqueados por muitos, haja vista que, os gestos, com o peso da constância, gradativamente acabam impregnando-se nos hábitos e transubstanciando o ânimo dos indivíduos e de toda a sociedade.

Ora, da mesma forma que uma criança mimetiza o comportamento dos pais e demais familiares próximos, o povo invariavelmente olha pra cima, para aqueles que estão no centro da grande famiglia pátria e, cônscios ou não disso, os imitam.

Pior! Depois de tudo isso, os biltres empoleirados, como bons poltrões que são, tem a petulância de dizer que cada povo tem o governante que merece. Dá até vontade de escrevinhar um palavrão, mas esse, caro leitor, deixo por conta da sua imaginação.

Enfim, Por essas e outras que Johann Goethe dizia que a maior força que existe no mundo é a tal da personalidade. É por isso, também, que os romanos dizia que os exemplos arrastam enquanto as palavras apenas movem. E os exemplos fazem isso tanto na direção das virtudes quando para o precipício dos vícios. É simples como dois e dois são quatro.

Sem mais delongas e demais ensebações, lembremos o velho ensino que nos é ministrado por Caio Túlio Cícero que afirmava algo que todos nós bem sabemos e que, brasileiramente, ignoramos: que o nível de corrupção de uma sociedade pode muito bem ser mensurado pela quantidade de leis que nela há.

Quanto mais leis, piores são os hábitos e maior e mais complexa é a corrupção. Quanto menor o número de leis, mais sólidos e virtuosos são os costumes e, consequentemente, menor e mais simplória e controláveis são as manifestações de degradação do corpo social.

Resumindo: é nessa tensão dialética simbólica e moral que segue o andor da vida política de qualquer nação. Nessa tensão podemos compreender com relativa clareza que expressões como “reforma política”, no degenerado contexto moral de nosso triste país, não passa de um símbolo que está sendo usado para encobrir e garantir a continuidade dessa cultura política depravada tão solidamente institucionalizada entre nós.

É o fim da picada mesmo. Sei disso. Mas esse é o nosso Brasil. Ou o que restou dele.

(*) Professor, cronista e bebedor de café.

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