A DESONRA COMO META A SER DOBRADA



Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

“Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem”. (Eclesiastes VI; 1)

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Aprovações escolares imerecidas são consolações hipócritas ofertadas por um sistema decaído para almas em decadência.

Isso mesmo. Para fazer-me entender melhor, permitam-me contar um causo. Lembro-me que, quando infante, e isso faz algum tempo, nos jogos escolares havia uma frescura de medalha por participação. Se você não fosse vitorioso em nada, ao menos levava uma medalhinha dessas pra mostrar pra turma em casa.

Eu mesmo ganhei uma delas, porém, nunca a ostentei. Na verdade ela me envergonhava; era o símbolo do meu fracasso desportivo. Só isso. Ora, o que eu tinha feito para ser digno dela? Fiz-me presente na competição. Fora isso, nada.

Pois é, essa moda da desonra ao mérito acabou entrando nas salas de aula através de teorias pedagógicas pervertidas e contaminaram todo o sistema de ensino brazuca. Por isso hoje é mais do que comum vermos alunos sendo aprovados, por meio dos mais variados subterfúgios, mesmo tendo reprovado em duas, três, quatro e até mesmo em cinco disciplinas. Apesar disso, ele estava lá e, por isso, ele seria “merecedor” de alguma consolação. De uma indébita aprovação. Mas em que ele está sendo aprovado? Melhor não dizer.

Lembro-me até hoje de uma reportagem sobre um pai que, indignado, pedia para que o Colégio reprovasse seu filho, haja vista que o garoto não havia obtido a média mínima para aprovação em quatro disciplinas e, nas demais, não havia nada que chegasse próximo do que poderíamos chamar de decente. Mas não teve jeito, o garoto recebeu o prêmio de consolo que hoje é ofertado à desídia mental, a indisciplina moral, ao desamor pelo conhecimento. Resumindo: somos regidos pelo abecedário da indignidade geral do fracasso do modelo escolar vigente.

Doravante, ao contrário das medalhas de participação, esses prêmios escolares sem honra hoje são recebidos por muitos mancebos com orgulho porque, com base nesse turvo entendimento, eles conseguiram se dar bem, sem necessariamente serem bons.

No frigir dos ovos, não dá nada e eles sabem disso. Os mancebos aprendem bem rápido essa pérfida lição. Quanto às demais, é claro que não.

Existem muitos pais que também acham isso tudo lindo, porque acreditam que proteger a ignorância presunçosa de seus filhos indolentes é o mesmo que educá-los. Há inúmeros professores - ou deveria dizer educadores – que acreditam que isso é a coisa mais linda do mundo porque imaginam que fazendo isso, bajulando a inconsequência mimada dum infante eles estarão protegendo-os da tal exclusão, sem perceber que estão, com esse gesto tacanho, desviando-o do universo do conhecimento.

É óbvio que o moleque que foi consolado por esse vil sistema terá o seu lugar ao sol. Valha-me Deus! Estamos no Brasil, o país onde o mérito é um insulto pessoal.

Bem provavelmente muitos desses indivíduos corrompidos por esse sistema que envilece o merecimento e a dignidade irão se dar bem na vida, como muitos se dão, porém, jamais serão dignos, prestativos e bons, pois tais adjetivos não foram ensinados pelo currículo silencioso do sistema de ensino vigente em nossa nação que se ufana de ser educadora por apresentar ao futuro uma imensa multidão de analfabetos funcionais devidamente diplomados com honrarias vazias.

Poxa vida, mas que mérito há em ser aprovado, ter seu esforço reconhecido por um sistema como esse? Perguntar não ofende: há algum? Deixe pra lá.

Alias, não ficarei espantado se entre esses estólidos diplomados, um e outro venha a se tornar, num futuro próximo, um secretário de Educação, de Cultura, Presidente da República, uma “otoridade”, um assessor de patavina alguma e, porque não, um professor. No Brasil, qualquer aberração é possível. Qualquer uma e todos sabem muito bem disso.

Enfim, atos inconsequentes, têm sim, muitas consequências. Mas não adianta falar isso para almas viciadas em tirar vantagem de tudo, porque elas não aprenderam e dificilmente aprenderão a pensar com decência e nem irão agir e viver de maneira proba. A consciência delas é criticamente limitada às fronteiras de seus umbigos.

Pobre futuro! Pobre mesmo, porque a essas almas deformadas ele pertence. Qualquer um minimamente razoável pode imaginar o que restará do Brasil após essa geração toma-lo em suas mãos. Geração essa que foi degrada pelas incautas mãos que regem esse infame sistema que descaradamente produz o contrário da educação.

Quem viver verá.

(*) professor e cronista

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