CONSELHOS FURADOS

Por Dartagnan da Silva Zanela

AMANTES VULGARES - Uma frase dita com frequência pelos pretensos conhecedores da História e, principalmente, pelos supostos amantes dessa distinta dama: “Por que ficar estudando as sociedades greco-romana e medieval? Isso é uma perda de tempo quando poderíamos estar estudando algo mais atual do que essas coisas que não tem nada haver conosco hoje, com o nosso dia a dia”.

Essa frase, na real, é um claro sinal de estultice, uma cristalina demonstração duma sabedoria histórica postiça parida por sujeitinhos de minguado quilate. Não apenas isso. Uma clara confissão de má intenção.

Explico-me: Quando um sujeito diz que nós não devemos conhecer os fundamentos da experiência civilizacional, desconsiderando o valor de toda experiência humana que fora acumulada no correr de milênios, ele está declarando, discretamente, o seu total desamor não apenas pela história, mas por tudo que dignifica o ser humano.

No fundo, o que ele quer mesmo é convencê-lo da posição política que considera como sua, mas que, devido a sua superficialidade histórica inconfessa, é ele que a ela pertence feito uma marionete que apenas repete as palavras que seu ventrículo oculto sussurra em seus ouvidos. E o faz de maneira tal que o bonecão imagina estar agindo por conta própria. Tadinho. Tão bobinho quando presunçoso. Tão curto no entendimento quanto profundo em seu discernimento histórico.

PRA ESTUDAR HISTÓRIA – Outro comentário recorrente vindo da parte daqueles que dizem amar a tal da História é que, muitas vezes, a dita cuja apenas apresenta figurões que, segundo eles, apenas representam a classe dominante e que, por isso, os mancebos das classes menos abastadas, acabariam não se identificando com eles por não pertencerem à mesma classe social (há livros didáticos com essa consideração logo no início).

É obvio que as figuras que ganham destaque nas páginas da História são selecionadas e que essa seleção é feita no intento de atender a determinados critérios que, dum modo geral, refere-se a importância das ações desencadeadas por Fulano ou Sicrano. Importância essa que deve ser mensurada pelo efeito das ações que são desencadeadas ou simbolizadas neste ou naquele indivíduo. Podemos até discordar, desaprovar e repudiar as ações de muitas figuras que ganham o seu lugar nas laudas da mestra da vida, todavia, não temos como não reconhecer o impacto que as escolhas e decisões desses tiveram sobre a vida de milhares (às vezes de milhões).

Mais que isso! Há aqueles cujo efeito de suas ações se prolongam através dos séculos. E há outros que simplesmente são figuras de tamanha magnificência que nos inspiram a imitá-los e a querer aprender a ser digno, prestativo e bom com os feitos e desfeitos de sua vida a muito vivida.

Quando defrontamo-nos com essas figuras, em especial quando estamos diante dos últimos, dum modo geral, não estamos preocupados se eles eram reis, sacerdotes, escravos, operários ou guerreiros. Nada disso. O que importa é que essas figuras nos inspiram uma sincera admiração e um profundo respeito. Enfim, reverenciamos certas figuras não por elas em si, mas sim, pelas virtudes que elas encarnam.

É por essa razão que tanto Júlio César e bem como Spartacus e Epicteto ocupam seus merecidos lugares na história. Um general, um gladiador e um filósofo-escravo, homens que, cada qual ao seu modo, abalaram o mundo. Homens que nos ensinam a sermos maiores que nossas penúrias e problemas circunstanciais e o fazem não por serem oriundos dessa ou daquela “classe social”, mas sim, por serem quem eles são.

Enfim, somente pessoas destituídas de qualidade humana não compreendem isso.

O CAMINHO SUAVE PARA A VERDADE – O Papa Emérito Bento XVI, na sua homilia proferida em Havana no dia 28 de março de 2012, falou aos presentes, e a todos aqueles que tiverem ouvidos para ouvir, algumas considerações a respeito da vocação natural do ser humano para a procura pela Verdade, que é o caminho que todos nós estamos naturalmente inclinados para verdadeiramente vivermos, mas que, infelizmente, os três grandes inimigos de nossa alma tentam, através de todos os meios, nos afastar.

Diz-nos ele que: “[...] a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica. Muitos, todavia, preferem os atalhos e procuram evitar essa tarefa. Alguns, como Pôncio Pilatos, ironizam sobre a possibilidade de conhecer a verdade (Jo XVIII, 38), proclamando a incapacidade do homem de alcançá-la ou negando que exista uma verdade para todos. Esta atitude, como no caso do ceticismo e do relativismo, produz uma transformação no coração, tornando as pessoas frias, vacilantes, distantes dos demais e fechadas em si mesmas. São pessoas que lavam as mãos, como o governador romano, e deixam correr o rio da história sem se comprometer”.

E como lavamos nossas mãos! Negamos diariamente as verdades mais elementares para que estejamos sempre em paz com os ditames do mundo. Não queremos ser rotulados pelos outros como chatos, atrasados ou retrógrados, porém, não paramos nem por um instante para considerarmos a verdade sobre nossa alma que está sendo apresentada por nós à Deus com esse nosso descuidado gesto.

E não apenas isso. Bento XVI, na mesma homilia ainda nos lembra que: “[...] há outros que interpretam mal esta busca da verdade, levando-os à irracionalidade e ao fanatismo, pelo que se fecham na ‘sua verdade’ e tentam impô-la aos outros. São como aqueles legalistas obcecados que, ao verem Jesus ferido e ensanguentado, exclamam enfurecidos: ‘Crucifica-o!’ (Jo XIX, 6). Na realidade, quem age irracionalmente não pode chegar a ser discípulo de Jesus. Fé e razão são necessárias e complementares na busca da verdade. Deus criou o homem com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotou-o de razão. Certamente não é a irracionalidade que promove a fé cristã, mas a ânsia da verdade. Todo o ser humano deve perscrutar a verdade e optar por ela quando a encontra, mesmo correndo o risco de enfrentar sacrifícios”.

Enfim, a ânsia pela verdade não pode ser calada em nosso coração, porém, diante da má inclinação de nossa sociedade, muitos acabam substituindo-a pelas mais elegantes mentiras que, ao final das contas, obscurecem a nossa razão, empalidecem a nossa fé cambaleante e aviltam a dignidade humana que foi em nós semeada por Deus.

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