NA MIRA DA PENA E DO TINTEIRO

Por Dartagnan da Silva Zanela


[i] Muitas pessoas batem no peito para dizer que tem opinião própria e que não estão a macaquear ninguém. Chega ser bonito de ver a demonstração de macheza "intelectual".

Hormônios retóricos e esteroides mentais à parte,  vejamos no seguinte: já repararam que os caboclos que insistem em dizer que pensam exclusivamente com suas próprias moringas apenas dizem o que sua patota ideológica repete incansavelmente? Notaram que essa gente, de “opinião criticamente própria” preocupa-se mais em parecer bonitinha do que em ser verdadeira? Perceberam que esse gente tão independente em seus pontos de vista preocupa-se muito mais em parecer inteligente do que agir como tal?

E, no frigir dos ovos, quando essa gente está a beira do precipício da realidade, quando estão prestes a ter o seu embuste existencial desmascarado, afirmam gritando, fazendo saltar as veias do pescoço, que todos os que ousam contrariá-los não passam de fascistas ou, no mínimo, dum bando de alienados. Pois é, fazer o que?

[ii] Para encontrar alguma ordem no mundo, ou impôr alguma, é imprescindível que antes coloquemos ordem em nossa alma. Uma pessoa perturbada, com sua vida interior desordenada, apenas será capaz de externalizar a sua confusão, mesmo que creia piamente estar fazendo o contrário disso.

[iii] Frequentemente nos queixamos dos incômodos que nos são causados por uma e outra pessoa, sejam elas integrantes de nosso círculo íntimo ou não. Enfim, esse detalhe pouco importa. O fato é que com maior ou menor intensidade nos entregamos a esse rito sadomasoquista que intercala queixas e lamentos. Diante disso, seria interessante perguntarmos o seguinte: se não somos capazes de suportar as esquisitices e descomposturas dos outros isso quer dizer que estamos dispensando todas as pessoas de terem de suportar as nossas? É isso? Pois é, meu caro Watson, por essas e outras que Goethe dizia que aquele que é incapaz de suportar pequenas injustiças não está preparado para a vida civilizada e, principalmente, não faz a menor ideia do que seja a tal justiça quando a reivindica em seu favor.

[iv] O brasileiro sempre cultivou uma saudável margem de tolerância para com toda ordem de deslizes, fossem eles voluntários ou não, sejam eles de ordem pública ou privada. Porém, atualmente a patifaria e a safadeza vararam bem longe dos limites da compreensão. O trem da corrupção ganhou um upgrade profissional insuportável, tornando a atmosfera brasileira pesada e asfixiante. A situação tornou-se intolerável e toda pessoa com um mínimo de decência percebe que do jeito que está o Brasil não pode mais ficar. Tornando ou não manifesta a sua indignação, toda pessoa com um mínimo de vergonha na cara sabe disso. Detalhe: os corruptos também o sabem, mesmo que insistam em dissimular o contrário.

[v] Quando perdemos no senso das proporções, quando desdenhamos a primazia da realidade, inevitavelmente acabamos por mutilar nossa consciência, deformar nossa inteligência e por nos rebaixar abaixo do mínimo que se espera dum ser humano.

[vi] A canalhocracia só é possível porque as pessoas medianamente descentes são miseravelmente covardes enquanto os canalhas são formidavelmente ousados.

Os canalhas, no fundo, não são de nada, mas dissimulam ser alguma coisa de maneira tão convincente que a multidão amedronta-se e cala-se somente com a vaga presença da sombra que canalhamente os [des]governa.

[vii] É necessário, digo, é urgente que cada um de nós faça como o finado Nelson Rodrigues: grite, num só brado, eu sou um ex-covarde! Um ex-covarde! E não mais tremer diante dos monstros totalitários de papel representados pelos canalhas dos mais variados tipos e tamanhos que parasitam a sociedade brasileira através do projeto de poder que está desmantelando o nosso país.

[viii] O Brasil vive hoje um momento histórico, creio que não há dúvidas quanto a isso. Porém, todo esse desejo de querer mudar o país, e de fundar a república, irá evaporar e se perder no ar caso não empreendamos uma profunda mudança pessoal para que realmente uma nova ordem social passe a emergir da alma de cada um ou, ao menos, dum bom número de indivíduos. Enfim, uma nova sociedade somente nascerá se florescer uma uma renovada ordem interior em nossos corações. É isso. Ponto. 

Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br/

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