DESOSSANDO AS PALAVRAS

Por Dartagnan da Silva Zanela

QUE SEJA DITA - O relativismo moral e cognitivo é uma das piores pestes que atualmente nos fustiga. Uma das piores, mesmo, e lhe digo a razão: ele impossibilita qualquer diálogo humanamente razoável e esteriliza a inteligência em médio prazo.

Quando coloca-se a subjetividade individual, e/ou a de alguns grupelhos sociais, como sendo o centro irradiante de tudo, acaba-se, inevitavelmente, desdenhando-se a primazia da realidade. Ou seja: todos falam muito sobre toda e qualquer coisa, porém, cada um fechado em sua relativa alcova existencial, pouco importando se o que se diz tem ou não alguma correlação com a tal da realidade. Pouco importando a veracidade do que está sendo parlado.

Enfim, bastaria lembrar que não existe, como nos diz Santo Agostinho, esse troço de minha verdade e tua verdade, porque ela não é nem sua e muito menos minha. Ela independe de nós. Por isso, quando humildemente aceitamos que a realidade é mais ampla e complexa que nossa capacidade de compreendê-la, invariavelmente nós ampliamos nosso horizonte de compreensão. Porém, quando imaginamos que o mundo cabe, direitinho, em nossos tacanhos esquemas e cacoetes mentais, consequentemente tornamo-nos obtusos em relação a nós, a tudo e a todos, mesmo que imaginemos estar fazendo o contrário.

PODE SER QUE SIM - Se tudo é relativo, se tudo tem o mesmo valor e importância, porque devemos ouvir aqueles que dizem que tudo é relativamente igualzinho? Por que devo respeitar, em absoluto, a autoridade de alguém que diz que tudo é relativo? Por que? Só se for pelo mútuo respeito entre relativas nulidades, ou com base na reciprocidade entre ignorâncias relativamente presunçosas.

FATOS SÃO FATOS - O mais importante não é a forma como interpretamos os fatos, mas sim, os fatos. Se nós não captamos com razoável clareza o que está acontecendo diante de nossos olhos, pouco importa a interpretação que façamos. Por mais sofisticada que seja, a interpretação está sendo feita com base em informações equivocadas. Pior que isso! Podemos, também, captar com fidelidade tudo o que está ocorrendo diante de nossos olhos e, ainda, interpretar os ditos fatos duma forma delirante. Dum jeito ou doutro, sempre a primazia está com a realidade dos fatos, nunca com os sentimentos e ilusões que tenhamos com relação a eles. Esse é o ponto.

TUCANICE - Mais ou menos há dez anos atrás, frente ao escândalo do mensalão, os tucanado batia no peito dizendo que não queria caçar o mandado do então presidente da república, mas sim, que eles iriam levá-lo “sangrando” até o fim de seu mandato e derrotá-lo nas eleições. Bem, como todos sabemos, não deu certo. Lula foi reeleito, fez sua sucessora e reelegeu-a. Agora temos o petrolão que, ao que consta, reduz o mensalão a um caso para tribunal de pequenas causas. Diante disso, o que diz o tucanado? Adivinhem? Que eles não querem o impeachment de Dilma, mas sim, levá-la sangrando até o fim de seu mandato. Pois é, errar é humano, persistir no erro e recusar-se a não aprender com a experiência é tucanice.

SIMPATIZANTES E MILITONTOS -  Seria interessantíssimo se muitas pessoas, mas muitas mesmo, realmente parassem pra ler e entender o que chega até suas vistas antes de começarem a ter urticárias de pseudo-indignação. Pessoas desse naipe furado, quando leem algo que contrarie seus brios, ao invés de esforçarem-se para compreender o que está sendo dito preferem dizer o que elas acham que está sendo apresentado, reagindo sempre com sete pedras numa das mãos, um tanto de palavrinhas e factoides na outra e nada em suas cabeças, só pra contrabalançar a confusão (depre)cívica que impera em suas almas.

Site: http://dartagnanzanela.k6.com.br/

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