DIÁRIO DE CLASSE – parte IX

Por Dartagnan da Silva Zanela

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[i] Verdade seja dita: dialogar é preciso. Dialogar, não jogar conversa fiada pra boi dormir. Capcioso detalhe: o pior é que nem sempre o bicho dorme.

Trololós à, sobre esse ponto, o tal do dialogar, o filósofo judeu Martim Buber era categórico chamando nossa atenção para o que o mesmo denominava como sendo um diálogo dialógico e um diálogo monológico.

O primeiro seria simplesmente uma conversa franca e transparente entre um EU e um TU. Um diálogo onde ocorre uma abertura do sujeito cognoscente para a realidade, para o ser. Ou seja: da realidade duma pessoa para o ser doutra, ou do ser dum indivíduo para a realidade de Deus, ou dum sujeito consigo mesmo.

No segundo, tal não ocorre. Entre o EU e o TU edifica-se um obstáculo, ou uma série deles, que impede que o sujeito tenha uma clara visão do seu interlocutor, seja ele uma outra pessoa, Deus, ou ele mesmo. Trocando por miúdos: por mais loquaz que seja o figurão ele não tem, como diremos, um interlocutor real, mas sim, apenas um boneco, um espantalho, com quem ele supostamente troca umas figurinhas.

Obviamente, se formos fazer uma avaliação qualitativa de nossos diálogos, tristemente concluiremos que a maioria encontra-se na clave monológica e raríssimos na dialógica. As razões que nos levam a tal situação não são poucas, porém, todas elas podem ser resumidas, em grossos traços, a uma só: a falta de sinceridade. Falta de sinceridade para conosco mesmo, para com o próximo e, consequentemente, para com Deus.

[ii] Com relativa frequência, batemos no peito para defender algo que convencionamos chamar de “nossas opiniões” que, na maioria das vezes, são tão nossas quanto a PETROBRAS.

Na verdade, a maioria inconteste desse palavrório todo que repetimos indevidamente não passa dum estranho que nos habita, que assimilamos levianamente aqui e acolá e que repetimos com a mesma falta de solenidade.

Para não ficarmos assim, divagando, há um exercício mui simples que podemos realizar para sabermos se o que dizemos é realmente algo que nos pertence. Vamos ao exercício: pense a respeito dum tema polêmico e, na sequência, reflita sobre o que você sabe a respeito do mesmo. Feito isso, levante três perguntinhas: (i) De onde tirei essas ideias? Qual é a fonte e de qual natureza ela é? (ii) Através de quem tive acesso a essas informações? (iii) Por fim, quando tive acesso a tudo isso?

Pois é, se não conseguimos fazer esse simplório mapeamento de nossas, tão nossas, opiniões, está mais do que na hora de pararmos com essa pose de sabidão de meia pataca e começarmos a cultivar melhor nossos estudos para que possamos, quem sabe, chamar algum conhecimento de nosso.

[iii] Opinar sobre todo e qualquer assunto é um vício cognitivo caipora e, como todo e qualquer vício, esse também acaba trazendo sérios danos a nossa inteligência.

Primeiro dano (e fiquemos, por hora, apenas nele): se acreditamos que estamos aptos a falar, com relativa autoridade, sobre todo e qualquer assunto sem ter estudado nada com razoável profundidade, dificilmente nos sentiremos impelidos a conhecer qualquer coisa duma forma apropriada.

Se, por um longo tempo, às vezes até por toda uma vida, insistirmos em manter uma pose afetada de especialista sem nunca ter realmente se dedicado ao estudo de nada, nem mesmo prestado a devida atenção nas palavras que não para de sair de nossa boca, é bem possível que progridamos, em marcha acelerada, rumo ao processo contínuo de bestialização voluntário que, gostemos ou não, aprofundará, como nunca se viu antes nesse país, nossa confusão interior e a impropriedade de nosso pretenso conhecimento.

[iv] A forma como utilizamos uma palavra diz muito a respeito de nós mesmos, do amor que temos pela procura da verdade ou da forma como idolatramos o nosso ego que insiste em deformar a realidade de acordo com a nossa confusa vontade.

Um bom exemplo encontra-se no uso da palavra amor. No confuso e disforme uso que se dá a dita palavra.

Para boa parte dos indivíduos da sociedade modernosa qualquer forma de comichão, toda e qualquer espécie de friozinho na barriga é sinônimo de amor, sem variação alguma de substância.

O Papa Emérito Bento XVI, ciente desse estado de coisas, dedicou a sua primeira Encíclica, DEUS CARITAS EST, a tão urgente e espinhoso tema. Carta essa que bem provavelmente foi “tolerantemente” desprezada pela turmada que gosta de falar no tal do amor, mas que, deveria ser amorosamente lida por todos, especialmente por eles.

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