DIÁRIO DE CLASSE – parte II

Por Dartagnan da Silva Zanela

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[i] Podemos fazer o que quisermos e dizer o que nos der na ventana, porém, nem tudo convêm. Assim nos ensina São Paulo através duma de suas epístolas.

Mesmo que com a admoestação do apóstolo dos gentios, seja conhecida por todos, sua prática é ignorada por muitos. As razões para tanto podem ser as mais variadas possíveis, entretanto, podemos resumir a duas que são conhecidas de todos nós a muitíssimo tempo. São elas: a soberba e a vaidade.

Embebido em nossa soberba de cada dia, cremos que sempre temos algo a dizer a respeito de tudo ignorando nossa real condição e,  por isso, nos inflamos a uma posição bem acima de nossos méritos.

Não é por menos que esse é o primeiro pecado. O pior de todos. Ele se aproxima de tudo para tudo destruir em favor de nosso engrandecimento auto-bajulatório que é um terreno fértil para o cultivo das pútridas tulipas da vaidade. E, por essas e outras, não nos flagramos que não somos o centro da criação, mas apenas uma pequena e diminuta parte dela. Detalhe: estamos muitíssimo, mas muitíssimo mesmo, longe de ser a melhor. Basta um pouco de sinceridade para consigo pra confessar e reconhecer no silêncio da consciência o quão miserável é nossa humana condição.

[ii] Um bom homem, certa feita, confidenciou-me que ele havia ficado estarrecido com a declaração feita por uma filosofa em um determinado programa televisivo. Em meio a sua declaração, a senhora, devidamente munida dum título de doutora, ironicamente, indagou: “por que um aluno deve aprender o nome das capitais dos Estados brasileiros?” Pois é, toda cidade é igual na forma, aparência, organização, importância e localização, não é mesmo? Não. Não mesmo. Porém, se fiarmos nosso raciocínio pelo da doutora, poderíamos então concluir que também não precisaríamos saber o nome que damos para os nossos animais domésticos, apesar de suas muitas diferenças. Cão é cão e jumento é jumento, independente de suas peculiaridades e pouco importando se o moar tenha ou não um título de doutor.

Firulas à parte, poderíamos indagar e apontar muitíssimas coisitas sobre e singela pergunta, porém, sejamos breves em esse colóquio. É o seguinte: não é relevante que uma pessoa conheça as principais cidades brasileiras, com suas peculiaridades, saber localizá-las e, desse modo, saber localizar-se em seu país? Como podemos nos localizar no espaço se não sabemos nos posicionar nele? Se tudo o que existe tem nome e encontra-se nalgum lugar, como irei localizar-me se eu não sei onde estou e para onde desejo ir? Aliás, o que é um mapa mesmo?

Um e outro podem até dizer que tal prática apenas exercita a memória e que isso não é necessário. É mesmo? Que lindo. Entretanto, vale lembrar que antes de irmos para algum lugar, ou de realizarmos alguma coisa, primeiro nós temos que saber, razoavelmente, para onde estamos indo, ou o que deverá ser, aproximadamente, o resultado do que pretendemos realizar e, para tanto, necessitamos recorrer a elementos mnemônicos como estamos fazendo agora na leitura dessas turvas linhas.

É claro que saber o nome das capitais e cidades mais importantes em termos econômicos, políticos e geopolíticos não irá trazer de lambuja todas as informações sobre elas. Porém, antes de querermos aprender sobre isso é de bom alvitre sabermos os nomes e os títulos de importância das civitas, da mesma forma que é razoável que primeiro perguntemos a uma pessoa o seu nome e sua procedência antes de escrafuncharmos a sua vida.

De mais a mais, tudo o que existe tem nome e forma e nós captamos o seu conteúdo, significado, singularidade e importância porque sabemos identificar as múltiplas formas na imensidão do espaço através da singularidade duma palavra. Dum nome.

Sem mais delongas, saber tudo isso pode até não ser imprescindível, porém, não é algo que possa ser considerado totalmente dispensável como quer a inominada doutora.

[iii] Hugo de São Vitor ensina-nos que a virtude fundamental para que uma pessoa possa realmente aprender e crescer em conhecimento e verdade é a humildade. 

Tal observação, feita pelo grande mestre do medievo, não é apenas válida para os infantes. Ela é perene, pra vida toda e para todos.

A referida virtude estimula em nós o desejo de conhecer porque ela fomenta em nosso íntimo uma clara visão de nossa real e diminuta condição. Se estamos com nosso ego inflado, crendo que somos a última bolacha do pacote, inevitavelmente, pouco aprenderemos, haja vista que já nos julgamos sabedores de praticamente tudo sem nada saber, ou pouco sabendo.

Podemos dizer que a humildade nos faz esvaziar o copo da alma que, frequentemente, vê-se cheio de vinagre e fel. Essa virtude nos liberta da soberba e nos purifica da vaidade para, desse modo, nos predispor a receber o vinho do saber para podermos nos embeber da verdade.

Por fim, vale lembrar que a verdade não habita onde a superficialidade da soberba e as pompas da vaidade imperam. E é por isso, somente por isso, que onde não há humildade, não há conhecimento, mas apenas um simulacro afetado de educação que, no fundo, não passa duma simplória procura por diplomação.

@dartagnanzanela
http://zanela.blogspot.com/

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