sexta-feira, 26 de setembro de 2014

TUDO COMO DANTES

Redigida no dia 22 de setembro de 2014, dia de São Maurício e companheiros. Vigésima quinta semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela
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Carlos Drummond de Andrade conta-nos que, certa feita, num desses internatos, havia dois garotos que, ansiosos, aguardavam pela vinda do seu padrinho para levá-los passear. O padrinho chegou, porém, apenas um foi ao passeio. O outro não teria se comportado bem no correr do mês e não atingiu a nota mínima estabelecida nas disciplinas.

O passeio foi uma maravilha e, ao final, o padrinho presenteou o garoto com um mimo. Um brinquedo que ele poderia escolher numa loja. Uma loja farta, com tudo que um garoto pode sonhar e, o moleque, escolheu uma gaitinha de boca.

Seu irmão lhe caçoou, pois, com tantas opções, como pôde o tonto do seu irmão escolher algo tão simplório? O infante disse que havia tantas opções para escolher e o tempo estava tão apurado que ficou meio zonzo. O mano pensou: “deixe comigo. Vou tirar boas notas, comportar-me, e na próxima vinda do padrinho eu irei passear e vou mostrar como é que se escolhe um brinquedo”.

Dito e feito. Passeio agradável, divertido e, ao final, o mimo. Seus olhos luziram diante de tantos brinquedos. Manuseava um, testava outro e, ao fundo, seu padrinho dizia para ele apurar, pois, precisavam ir. Tanto foi o apuro e tamanha a fascinação que, tal qual seu irmão, acabou por escolher uma simplória gaitinha de boca.

E nós, de modo análogo aos pequenos guris, vivenciamos o pleito eleitoral deste ano. Análogo, não igual, haja vista que o lojão de brinquedos políticos não é assim tão diversificado e a apresentação dos mesmos não é assim tão fascinante. Pra falar a verdade, os ditos cujos não dão nem queredeira de brincar. Mas, no final, acaba-se escolhendo uma coisinha qualquer só para não agravar o padrinho.

A pressa é tanta que nem paramos para refletir adequadamente sobre as opções. E, verdade seja dita, de tão pouco interessantes que são os brinquedos que, se bem ponderado for o valor de cada um, recairá rapidamente sobre nosso semblante uma atmosfera macambúzia que quase nos faz vergar os ombros para frente dizendo que não queremos levar nada.

Não que os brinquedinhos sejam ruins, muito menos que eles sejam o supra-sumo da excelência. É pior! Não representam nada que realmente possa ser considerado significativo.

Sim, eu sei que eleição não é brincadeira, cara pálida. Mas vocês só podem estar de zoação querendo que eu leve a sério o que as meninas de minhas vistas e os guardiões de meus tímpanos têm testemunhado. Estamos num quadro tão complicado que não podemos nem mesmo nos dar ao luxo de dizer que estamos numa encruzilhada porque, para poder ser uma, deveria haver ao menos duas opções, o que não há.

Tudo é encenado com aquele ar de serenidade democrática, permeado com um e outro rompante ao fundo para dar um toque de credibilidade a tudo, porém, quando bem ponderados as medidas e pesos ideológicos, percebe-se com grande clareza que impera em nossa sociedade um único e monolítico viés político com algumas divergências internas. Ou seja: a nau brasileira ruma apenas a bombordo. Detalhe: não há estibordo, em termos ideológicos nessas cabralinas terras. O que há, infelizmente, é apenas uma casta política fisiológica regionalista que parasita a estrutura do Estado brasileiro para manter os seus privilégios o que, por sua deixa, não caracteriza um espectro político ideológico opositor. No máximo, um vulto fantasmático, facilmente manipulável com o uso de cargos, benesses e favores, pouco importando a coloração ideológica do agrado.

Por isso, nessas horas, toda e qualquer ordem de esclarecimentos tornam-se pífio, como nos lembra Anatole France, porque eles nunca são fortes o bastante para sobrelevar as paixões, os preconceitos e interesses. Por mais óbvios que sejam os fatos, por mais claras que sejam as explicações, elas não tem a pujança necessária para vencer a frivolidade de espírito de todos os homens.

Por isso, quem quiser brincar de cidadão esclarecido e participativo, divirta-se, porém, ao final, qualquer que seja a decisão tomada pela massa cívica ao digitar os números de sua preferência nas maquininhas de pililim, será uma decisão similar a dos garotos de Drummond, que foram apresentados no início dessa missiva e, por mais otimistas que nos sintamos nesse momento, tudo continuará como dantes nesta terra de olhares ululantes.

Pax et bonum
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

PALAVRAS DUM DESESPERANÇADO

Redigida no dia 16 de setembro de 2014, dia de São Cornélio e de São Cipriano. Vigésima quarta semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Está ruim, mas, não se preocupe! Vai piorar. Basta ter paciência e aguardar os próximos capítulos do angu nacional. E nessa sorumbática espera, pelo amor de Deus, não me pergunte em quem não vou votar e não me peça um conselho para saber em quem votar. Sou franco: não está dando pé.

E te digo mais! Não me venha com os surrados trololós para querer me convencer que Marina [Lula] Silva ou AS Neves são alternativas para Comandanta e sua trupe. Isso mesmo! A segunda via festejada por muitos é uma ex-petista histórica ou, se preferirem, uma Dilma com clorofila. E o PSDB? Apenas uma versão cor de rosa do PT. Lembre-se que Fernando Henrique foi um dos principais articuladores da criação do segundo (palavras do próprio Lula em julho de 1979) e, obviamente, do primeiro. Que coisa em?

Sim, há que se iluda com as alternativas que se apresentam, entretanto, essas alternativas não refletem a apresentação duma estrutura e dum projeto político antípoda à estrutura do Foro de São Paulo, haja vista que nenhuma das candidaturas contrárias a Dilma ousa tocar nessa ferida. Na mais mórbida hipótese, essa disputa eleitoral reflete um racha interno ou simplesmente uma reles disputa pelos cargos junto ao Estado. Um bate-boca entre compadres. Nada mais.

Obviamente que nos Estados e Municípios continua a imperar, mais aqui, menos acolá, o velho cancro mandonista, com seus caciques políticos e suas tribos ideologicamente desbotadas (clãs políticos, como diria Oliveira Vianna). E, dum modo geral, nesses rincões julgam-se os projetos e disputas políticas em nível federal como se fossem orquestrados pelas mesmas mesquinhas razões que regem o carteado político local. Carteado esse que facilitou, e continuará a facilitar a permanência do poderio rubro em nível nacional.

Sim, a estratégia tacanha e a imaginação política mesquinha, muitas das vezes, auferem alguma eficácia na obtenção do poder numa pequena e restrita república (que é uma municipalidade e/ou um Estado). Estratégia que simplesmente articula e rearticula interesses individuais e grupais que tem apenas em vista a obtenção de vantagens e prestígio momentâneos. Porém, o Brasil e bem como os projetos políticos que estão regendo a ordem nacional são bem maiores do que aqueles que são orquestrados numa cidadezinha brasileira e estão, muitas das vezes, muito além da imaginação política e do desejo de compreensão dos sujeitos que confundem os seus interesses pessoais e grupais com o bem público.

Não? Então mudemos de saco pra mala. Me diga uma coisa: você acha, realmente, que um homem como o senhor José Dirceu, pensa e age como um coronelzinho? Você acredita que ele, um homem que afirma sentir-se mais cubado que brasileiro, deseja somente, como direi, mamar nas úberes estatais como um terneirinho? Por fim, você acredita que um homem como ele, com a frieza dele, seria apenas um politicozinho corrupto como outro qualquer? Não meu caro. Ele é muito mais do que isso. Ele é um homem à altura do projeto de poder que ele, e seus pares, edificaram e consolidaram em nosso país. Uma obra de engenharia política admirável, mas que, como todo projeto totalitário, condenável do princípio ao fim.

Por isso não tenho conselhos eleitorais para dar nem mesmo pra vender. Não tenho mesmo. No atual cenário político, a nível federal, o projeto de poder laboriosamente construído pelo Foro de São Paulo encontra-se consolidado e não há nenhuma força similar a ele para confrontá-lo. Não? Então me diga uma última coisa: por um acaso há algum grupo político que tenha um plano de metas a ser realizado nos próximos trinta anos? Pois é, que coisa em?

Pax et bonum
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

TEATRINHO CARO E INDIGESTO

Redigida no dia 09 de setembro de 2014, dia do Beato Frederico Ozanam e de São Pedro Claver. Vigésima terceira semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Quando mais moço apreciava muito assistir a um bom debate político. Sim, ver dois ou mais contendores pelejando com os mais variados ardis retóricos é algo bonito de se ver.

Não que me convencesse com as palavras atiradas uns contra os outros, mas apreciava a habilidade dos candidatos em confrontar-se face a face. Prestava muita atenção na forma como os sujeitos enfrentavam situações delicadas que lhes eram apresentadas de maneira ríspida e agressiva e, ao assisti-los, com minhas parcas luzes, procurava analisar o potencial de liderança e a forma como um e outro procuravam capitalizar a simpatia e a empatia do eleitorado.

Independente dos gostos e desgostos, não podemos não reconhecer a grande habilidade de Leonel Brizola em fixar, sem medo, os mais duros apelidos e jargões em seus adversários. E fazia isso com um olhar flamejante. Era impagável vermos o bom humor e a audácia com que Mário Covas desbancava e desestabilizava seus rivais. E o que dizer do cinismo de Ciro Gomes que não media eira ou beira para atacar ou responder os seus antípodas? Todos eles não tinham medo de deixar claro ao que vieram.

Pois é, e vejam que estou me referindo a debates recentes, que ocorreram na década de 90 da centúria passada e, de lá pra cá, a coisa degringolou dum jeito que chega a dar vergonha do Valter. Isso mesmo! Confesso que me esforcei para assistir aos dois debates que foram realizados entre os presidenciáveis, mas não deu pé não.

Era inevitável. Vinha à minha memória os debates que assisti em passado não muito distante e comparava com esse trem fuçado que estava diante de meus olhos e dizia a mim mesmo: isso não é um debate! É uma conversa entre compadres. De compadres que não querem agravar o outro porque tem medo do que ele irá lhe dizer ou, do que ele poderá contar para os demais sobre ele.

Aquela pose de pseudo-educação, de afetação barata que não convence nem mesmo a uma criança. É só mirar nos olhos de cada um dos elementos envolvidos nesse fiasco que vemos claramente que nenhum deles está ali para liderar um povo. Está escrito, em seus olhos: somos apenas atores, ruins, e aqui estamos para encenar uma pecinha encomendada para manutenção do sistema de poder rubro laboriosamente montado em nosso país.

Perdoe-me a indelicadeza, mas falta sangue nesses debates e nessa eleição. Não no chão, mas nas veias dos candidatos, principalmente na dos que dizem querer retirar o PT do poder. Até agora eles não convenceram ninguém de que esse é o intento deles e se a dona Marina Silva, que parece que vai desmaiar quando começa a falar, cresce nas pesquisas, não é por mérito, mas sim, por pura e simples falta de opção. Quanto ao seu Neves, infelizmente ou não, ele claramente quer ser uma opção. Aliás, só falta ele pedir desculpas para dona Dilma por estar concorrendo. Ele consegue ser mais sem sal que o picolé de Chuchu (Geraldo Alckmin) e o suflê de alface (José Serra), juntos.

Por essas e outras que essas eleições parecem muito mais um teatrinho mal encenado do que realmente uma disputa aberta pelo poder. Sim, almejar o poder não é pecado! Não se precisa ter vergonha de lutar por ele. Pecado é o que é feito para obtê-lo e o que é realizado com ele quanto o temos em mãos. E, mais grave que isso, é colocar-se numa luta em nome de milhões e negar-se a disputá-la de maneira honrada e varonil.

A disputa está tão farsesca que o ponto alto dos dois debates ficou por conta de figuras folclóricas interpretadas por alguns candidatos menores. Ponto alto pela comicidade, não por alguma excelsa habilidade. Pra falar a verdade, eu queria ver essa tigrada largada no meio duma seção do Parlamento Britânico pra ver como eles se saíam, ou se sairiam com eles. Quem sabe lá eles aprendessem o que é a tal da coragem política a tanto perdida nessas terras de Pindorama (vã esperança).

Por fim, não há mais a menor dúvida de que a vileza subiu à cabeça do Brasil. Definitivamente, é o fim da rosca.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

SEU NOME É LEANDRO

Redigida no dia 02 de setembro de 2014, dia de Santa Doroteia. Vigésima segunda semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Deus age em nossa vida de forma misteriosa. Age sobre nossa alma por meio de palavras, objetos, fenômenos e pessoas. Pessoas que com sua presença nos levam a vislumbrar a nossa real condição.

Deus sabe que quando estamos diante duma pessoa fragilizada algo em nós é transubstanciado. Invariavelmente, quando somos colocados diante do sofrimento humano recobramos, mesmo que por alguns instantes, a nossa sanidade espiritual que, em muitos momentos, vê-se adoecida pelas mundanidades que estão em todas as direções que volvemos nossas vistas.

Quando essas pessoas passam a fazer parte de nossas vidas, algo fica a espinhar nossa consciência, dizendo: por quê? Qual a razão desse sofrimento? Por que o Altíssimo permite que situações como essa ocorram? Aliás, quem sou eu para perscrutar os desígnios do Pai? Um reles pecador. Apenas isso, nada mais do que isso.

Porém, se compreendo que a vida tem uma dimensão terrestre, finita, e uma dimensão celeste, eterna, e entendo que a primeira existe em razão da segunda, compreendo que tudo o que aqui vivo e testemunho tem o propósito de purificar algo que há em mim que não pode adentrar os umbrais da eternidade. Por isso, penso que seja conveniente, nesses casos, indagar, o que Aquele que é deseja de mim, o que Ele quer extirpar de meu coração?

Esse é o caso do jovem Leandro. Lembro até hoje do primeiro dia que vi esse menino. Era um evento cultural promovido pelo Colégio Estadual Professora Isabel. O garoto estava então no quinto ano e fora junto com os seus colegas da Escola Municipal Pedro Siqueira para assistir as apresentações daquela tarde.

Lá estava ele, pequenino, com um sorriso tímido, ornado por um olhar distante, sentado em sua cadeira de rodas. Na ocasião fiquei sabendo que ele sofria, e sofre, duma distrofia muscular do tipo Duchenne (DMD).

Naquele dia, meu coração ficou menor, mais apertado ao saber que aquele garoto não poderia desfrutar das traquinagens que caracterizam a infância. Que marcaram a minha meninice e, bem provavelmente, a sua, mas, não a dele.

Os anos passaram e ele tornou-se meu aluno e o sentimento de impotência continuava presente em meu peito e cada dia que o via sorridente diante de mim, o seu sorrir revelava-me o quão pequeno que eu era, e sou, diante da grandeza daquele garoto. Ele me humanizava. Me humaniza com sua colossal força presente em sua humana fragilidade que revela para mim toda a minha soberba, toda a minha pequenez.

Passaram-se as primaveras e descobriu-se um tratamento para a doença do Leandro. Tratamento esse não disponível no Brasil e que tem um elevado custo (R$ 150.000,00). Um elevado custo se nos mantivermos indiferentes ao sofrimento silencioso desse garoto. Por isso, sem mais delongas, peço a sua ajuda. Peço-lhe uma doação para que ele possa, como eu e você, estender a mão sem dificuldade para cumprimentar os seus. Uma doação para que ele possa, sozinho, pentear-se diante do espelho. Suplico a sua ajuda para que sejamos realmente bons e realizemos um ato concreto de amor ao próximo.

Doe. Motive outros a fazer o mesmo porque a nossa passagem por esse plano da vida é breve demais para nos mantermos indiferentes.

Leandro Souza Lima: BANCO DO BRASIL, agencia 8277-5, conta poupança 829-x. Telefone para contato: (42)8869-2670 ou (42)8851-3163.

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