TERRA ARRASADA

Escrevinhação redigida em 28 de julho de 2014, dia de São Vítor I e da Beata Maria Teresa Kowalska. Décima Sétima semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Em qualquer rincão que colocarmos nossos cansados pés, inevitavelmente ouvimos uma grande ladainha de queixumes quanto ao decrépito estado em que se encontra a administração pública em nosso país. Juntamente com esses colóquios, sempre temos a apresentação duma gama surreal de soluções para todos os azedumes que desgostam nosso paladar em relação à vida política na grande polis brasileira, e bem como nas inúmeras menores que lhe dão forma.

Os queixumes são justos. Praticamente incontestáveis são os males que assolam a sociedade brasileira que tem seu nascedouro nos mandos e desmandos dos timoneiros que estão à frente dessa nau desgovernada. Quanto às soluções, essas, em sua maioria, são verdadeiros tiros no escuro. Tiros no próprio pé, na maioria dos casos.

De minha parte, confesso, não saberia nem mesmo por onde começar. Pra falar a verdade, me assusta a leviandade que perpassa a esfera pública que se vê dominada por uma sulfurosa atmosfera de inabilidade, congênita e maliciosa, travestida de presunção orgulhosa. Atmosfera essa que corrompe até os mais dignos corações. E, quem o diga os fracos que tão facilmente se deixam seduzir pelas bagatelas que são ofertadas nesse meio que exige os mais mirabolantes malabarismos políticos daqueles que desejam fazer algo realmente sério. Malabarismos esses que, nem de longe, garantem a realização do bem comum.

Para ilustrar o que afirmo, lembro aqui, uma confissão feita por um homem público de distante província, que admiro apesar de discordar de suas inclinações políticas. Dizia-me ele que em conversa com uma velha raposa de sua terra, falava-lhe da necessidade de tornar a administração pública mais eficiente e que, para isso, deveria haver um maior zelo pela competência dos quadros que servem a sociedade. O senil “coronel” disse-lhe, de maneira lacônica: “em política, meu jovem, não há competência e eficiência. Em política há companheirismo”.

Essa é uma resposta cínica, sim, mas expressa uma verdade que, por sua deixa, é cínica também. E, para o desgosto do meu amigo, tão sério quanto idealista, viu o seu castelo de cartas caindo diante da realidade mais patente que lhe foi tão duramente revelada.

Sabemos ou, ao menos, deveríamos saber, que um homem público não deveria temer a competência dos seus auxiliares, como nos lembra o historiador Marco Antônio Villa. Mas temem. Compromissos firmados em campanha, projeção de possíveis acordos futuros, troca de favores e tutti quanti, encontram-se, na maioria dos casos, acima de qualquer critério de eficiência. Isso sem falar nas infindáveis intrigas palacianas que pululam os paços municipais e que pesam drasticamente sobre as decisões de gestão.

Não apenas isso. Com uma frequência muito maior do que deveria, veleidades pessoais e grupais são colocadas acima do interesse público que tornam a gestão da célula básica duma democracia, que é o município, algo no mínimo estranho e, muito disso, se deve a presença acachapante de políticos profissionais na cena pública e uma monstruosa ausência de estadistas na mesma.

Por isso, ousar apresentar, mesmo que numa conversa de boteco, uma solução para os problemas públicos de nosso país sem levar em consideração essas feridas pustulentas é o mesmo que ficar concebendo, imaginativamente, várias maneiras para se fazer buracos n’água.

E é por essas e outras que, confesso, não tenho nenhuma proposta para solucionar dos problemas do Brasil, ou mesmo uma solução, diminuta que seja, aplicável a uma municipalidade. O que tenho é apenas uma resposta direta sobre a forma como um indivíduo pode e deve se relacionar com esse trem fuçado sem se desumanizar. Não ouso mais que isso porque não posso nada que vá além disso.

Pax et bonum
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