OS FILHOS DE CAIM

Redigida no dia 19 de agosto de 2014, dia de São João Eudes. Vigésima semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

____________________________________________________________

Quem muito quer parecer nega o ser. Esse é o problema fundamental presente no âmago do bom-mocismo que hoje impera em nossa sociedade que destoa, radicalmente, do bem.

Quando ouvimos as preleções politicamente corretas que são-nos repetidas freneticamente, quando somos obrigados a ouvir toda aquela surrada opereta, notamos que o que há, no fundo, de toda aquela aparente bondade não é o desejo de fazer o bem, mas sim, uma refinada forma de rancor camuflado sobre muitas camadas de postiças boas intenções.

Não é por menos que toda vez que uma alma toda imersa e cegada por clichês progressistas demonstram muito mais, em suas falas adocicadas, ódio por aqueles que destoam de seus pressupostos do que realmente uma sincera preocupação para com o próximo. Aliás, amar o próximo não se evidencia com palavras melosas. Evidencia-se com atos anônimos e silenciosos.

De mais a mais, ao contrário do que rege o povo dos slogans do bem, da tolerância e tutti quanti, a bondade não é um pressuposto para se cultivar uma vida moral. Ela deve ser o fruto dela. O contrário disso é malícia inescrupulosa. Ponto.

Doravante, um dos dados mais óbvios da vida humana é que ela, a vida, é tecida por uma sutil trama de desafios que nos são postos, trançados com as respostas que apresentamos a eles. Cada uma dessas respostas sinaliza nossa inclinação para determinados valores que, por um ato de vontade, elegemos.

Cada ato, principalmente os atos mínimos, espelham os valores que cultivamos como sendo prioritários em nossa conduta, em nossa maneira de ser e, por isso, toda vez que vejo, ouço ou leio uma inflamada manifestação politicamente correta, salta-me aos cinco sentidos muito mais o rancor que está contido no coração do falante que as profere do que qualquer outra coisa, haja vista que toda sua postiça bondade não reflete, nem de longe, um franco esforço para ser bom, mas apenas um desejo imaturo de querer parecer bom aos olhos daqueles que, como ele, vivem duma fantasia bordada com incoerências e fingimentos.

Nesse sentido, podemos, sem medo de equívoco, comparar esses tipos humanos, tão presentes em nossa sociedade, com a figura do irmão de Abel. Caim, quando realizou sua oferenda a Deus não o fez por amor Àquele que é. O fez por ódio, inveja e rancor de seu irmão.

Ele, Caim, não oferecia o que ele possuía de melhor em sacrifício a Deus, porque sua vida de mentiras existências, fingimentos, de bom-mocismo, impedia-o de enxergar o mal latente em seu coração, que precisava ser reconhecido para poder ser extirpado.

Todavia, o que ele fez? Culpou Abel pelo mal que havia em seu coração. Projetou sobre seu irmão todo o seu ressentimento e amargor. Sacrificou, no altar de seu orgulho e soberba, aquele que se esforçava em ser bom, para que ele pudesse sentir-se mais cômodo e confortável com sua pseudo-bondade de butique progressista. 

Por fim, quantos não são os filhos de Caim que perambulam de lá para cá com suas almas embebidas em fel? Quantas e quantas vezes nós não nos portamos como seus herdeiros? 

Pax et bonum
blog: http://zanela.blogspot.com
e-mail: dartagnanzanela@gmail.com

Comentários