O DILEMA DE TOMÉ

Redigida no dia 26 de agosto de 2014, dia de Santa Teresa de Jesus Jornet e Ibars e de Santa Micaela do Santíssimo Sacramento. Vigésima primeira semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Todos nós temos gravado em nossa alma algo dos doze. Se formos capazes de remover as traves de nossas vistas, poderemos reconhecer na pessoa de cada um dos doze apóstolos muitas de nossas falhas íntimas e, ao mesmo tempo, as virtudes que deveríamos realizar em nossa alma. E podemos perceber isso em diferentes proporções nas mais diversas combinações.

Doravante, para que tenhamos tal percepção, basta que, inicialmente, paremos de fingir que estamos analisando o texto bíblico, como normalmente fazemos, e permitamos que as suas santas palavras nos analisem. Basta que deixemos de querer avaliar as personagens presentes no Evangelho, como se fôssemos moral e espiritualmente superiores a elas, e nos coloquemos em nosso devido lugar. Em nosso diminuto lugar.

Uma atitude simples, para almas puras. Porém, para seres maculados como nós, tal esforço é muitas das vezes uma tarefa quase que hercúlea, porém, é fundamental que cada um ouse desvencilhar-se de sua soberba primordial para poder vislumbrar a nossa condição humana original.

Por isso, tendo essa dura atitude em vista, vem-me à mente a imagem da bela pintura de Caravaggio, intitulada “A incredulidade de São Tomé (1599)”. Aliás, a vacilação de São Tomé é o drama que, em muitos aspectos, nos remete ao dilema apontado acima e que, o grande pintor retratou de maneira tão feliz.

Quando deito minhas vistas na figura, pintada pelo artista citado, do santo que duvidou, sofro, imaginativamente, a dor que provavelmente ele sentiu quando viu diante das janelas de sua alma o Cristo ressuscitado tendo de colocar seu dedo em suas chagas. Vendo a cena e colocando-me no lugar de Tomé compreendo o quão complexo é o sentimento de incredulidade. O quanto é difícil o parir libertador da fé que exige de nós o abandono da soberba.

 Até o aparecimento do Cristo ele estava relutante. Não considerava crível tudo o que lhe fora relatado. Não aceitava. Não confiava na palavra das pessoas que tinha na conta de irmãos. Desconfiava em absoluto da honestidade de todos menos dos raciocínios que ele havia elaborado para tentar explicar os fatos que ele havia participado. Ou seja: ele desconfiava de todos e de tudo, menos de sua inabalável certeza edificada a partir de seu limitado horizonte de consciência e, por isso, num misto de petulância e desespero, propõem o desafio que todos nós conhecemos.

O desafio foi aceito por Deus, e o final desse causo todos conhecemos. E é este momento que, penso eu, Caravaggio teve grande sensibilidade em retratar. Na pintura, Cristo guia a relutante mão de Tomé até a Sua chaga do costado enquanto ele, estarrecido, desvia os olhos da ferida e do Cristo, da face da Verdade que está diante de seus olhos e que está sendo tateada por seus dedos. Ao vê-lo pintado dessa forma, tenho a impressão de que ele estaria, em seu íntimo, repetindo: “não pode ser! Não pode ser...”.

Tal atitude é mui similar a nossa atitude diante da Verdade. Todos cremos, sim, mas de maneira cambaleante. Se formos sinceros para conosco reconheceremos que, muitíssimas vezes, nossa fé é muito mais uma reles convenção social que seguimos desde tenra infância do que outra coisa. Raramente procuramos aprofundá-la e, principalmente, não fazemos dela o centro ordenador de nossa vida.

Somos hesitantes. Hesitamos em reconhecer essa mácula e nos irritamos se isso nos é atirado nas ventas porque, infelizmente, há uma porção de nós que nega Deus, que se revolta contra Ele, que quer colocar-se no lugar Dele para corrigir os Seus preceitos e a Sua vontade. Enfim, há em cada um de nós uma porção que se nega a aceitar a honestidade dos Evangelhos colocando-se acima deles. Uma porção que reluta em colocar o dedo na ferida de nossa vaidosa condição que nega a Verdade para não termos de sair de nossa zona de conforto existencial.

Enfim, há algo de São Tomé em cada um de nós, mesmo que nos recusemos a reconhecer esse fato. Mesmo que relutemos em tocar essa dolorosa ferida. E mais! Falta-nos ainda a fé e a coragem do Santo que, após duvidar, caiu de joelhos.

Pax et bonum
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