NO MUNDO DA LUA: reflexões e borrões – parte I

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1.
Não há educação sem regra. Não há. E quando falamos de regras não estamos nos referindo a um conjunto de normas institucionais que devem ser observadas com vista a garantir um saudável convívio entre os indivíduos. Refiro-me sim a necessidade de regras que são absorvidas pelo sujeito a fim de tornar-se, gradativamente, a mediatriz de sua conduta exterior e interior.

Só há educação, de fato, quando nós, humildemente, procuramos nos curvar diante do objeto de nossa apreensão e conhecimento. Por isso a necessidade duma regra para nos auxiliar nesse intento. Do contrário, o que acaba ocorrendo é o império de nossa soberba e vaidade que exige que os objetos se amoldem ao tamanho diminuto de nossa capacidade cognitiva, tão limitada por nossa parca vontade. Ou seja: não regrando nossa vontade, acabamos por desregrar nossa vida e, consequentemente, nossa formação.

Por isso que todas as ordens religiosas estabeleciam uma regra. Por essa mesma razão que as escolas sapienciais faziam o mesmo. Conhecer regras, seja de ordens religiosas ou de escolas sapienciais, pode ser um salutar remédio para nos auxiliar no ordenamento dos descaminhos da educação contemporânea. Ordenamento não do sistema, não mesmo. Mas do nosso caminhar, individual, se assim julgamos necessário.

2. 
Há uma regra d’ouro que deve ser guardada para realização duma boa formação. Duma boa educação. Encontramo-la tanto presente na sabedoria oriental como na ocidental. Ensina-nos, por exemplo, o brocardo chinês que quando não se tem nada de relevante a dizer, devemos calar. Por sua deixa, a Regra não bulada proposta por São Francisco de Assis afirma que devemos nos empenhar em guardar silêncio. Seja como for, tanto lá como cá, todos os sábios de todas as épocas e de todas as terras bem sabia que devemos aprender a silenciar para aprender bem qualquer coisa, principalmente a sermos gente, como diriam os populares.

O alarido constante, o falar sem medida o tempo todo não é sinal de largueza de espírito, mas apenas sintoma duma desmedida inquietação que impede o indivíduo de centrar-se de maneira apropriada em algo.

Essa inquietação impede o sujeito de bem ouvir, dificultando a sua atenção e, consequentemente, tolhendo a sua compreensão. Tal observação, não é uma conjectura, mas sim, a simples constatação duma realidade tão obvia quanto ululante. Só não a vê quem realmente não quer.

3.
Nos ensina São Francisco de Sales: "Amai toda a gente com um grande amor de caridade, mas reservai a vossa amizade profunda para aqueles que podem compartilhar convosco coisas boas. […] Se as compartilhardes na área de conhecimento, a vossa amizade é sem dúvida louvável; mais ainda o será se as comunicardes no campo da prudência, da discrição, da força e da justiça. Mas se o vosso relacionamento é baseado no amor, na devoção e na perfeição cristã, oh Deus, como a vossa amizade é preciosa! Ela será excelente porque vem de Deus, excelente porque busca a Deus, excelente porque o seu vínculo é Deus, porque vai durar para sempre em Deus. Como é bom amar na terra como se ama no céu, aprender a amar neste mundo como faremos eternamente no outro!"

4.
Ensina-nos São João Crisólogo: "Ninguém é mais rico do que aqueles que abraçam de vontade e de todo o coração a pobreza […], e são mais ricos do que os reis; estes, tendo grandes necessidades, temem que lhes faltem os recursos, ao passo que aos pobres nada falta, porque nada temem. Pergunto-vos então: quem é mais rico, aquele que se afadiga para amealhar cada vez mais […], ou o que se contenta com o pouco que tem como se vivesse na abundância? […] O dinheiro torna o homem escravo: 'Os presentes e as dádivas cegam os olhos dos sábios' (Sir 20,29), diz a Escritura".

5.
Ensina-nos Santo Agostinho: “Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um demônio entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: “Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo” (Matheus XIII; 29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: “Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão (Matheus XVIII,15)”.

E o Bispo de Hipona continua, dizendo-nos: “Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que “não se dêem aos cães as coisas santas», que se «tratem como aos publicanos” aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Matheus VI, 6; XVIII, 17; V, 30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo. […] Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contacto, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não frequentarmos os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles”.

Pax et bonum
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