PARA ALÉM DO BOM-MOCISMO

Redigida no dia 22 de julho de 2014, dia de Santa Maria Madalena. Décima sexta semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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É interessante prestarmos atenção na forma como muitos indivíduos avaliam a bondade ou maldade duma pessoa. Não que não possamos, objetivamente, saber se um sujeito seja de boa ou má inclinação. Podemos discernir sim senhor. Porém, o que salta as nossas vistas são os critérios que muitas das pessoas esclarecidas, frequentadoras assíduas dos jantares inteligentes, descritos por Luiz Felipe Pondé, utilizam para declarar se uma pessoa integra ou não as fileiras das hostes do lado negro da força.

Para essa gente, crítica de doer, a pessoa deve, necessariamente, defender uma lista de bandeiras e causas que a rotulam como sendo “do bem”. Caso ela não comungue desses rótulos, inevitavelmente ela é do mal. Ponto. Não pertence ao “coletivo do bem”.

Um bom exemplo disso, colhido a esmo, é o duma conversa a muito tecida. Em meio a todo o blablablá, meu interlocutor disse-me: “Pois é. O sicrano é um canalha mesmo. E o pior é que ele é petista. Como é que pode? Mas isso não quer dizer nada pra você, não é mesmo?”

Bem, pode dizer muita coisa, ou nada. Porém, desde quando ser ou não ser petista é atestado de honorabilidade? Desde quando uma filiação partidária o coloca acima de qualquer suspeita, instando-o muito além do bem e do mal? Onde está escrito que um indivíduo torna-se impoluto simplesmente por defender uma determinada ideologia política? O finado João Ubaldo Ribeiro, e bem como Jorge Amado, diziam, cada um a seu modo, que há canalhas tanto à destra como à sinistra. Só não vê isso quem é lelé da cuca.

Vejam só como são as coisas: você pode ser uma pessoa de elevada dignidade e valor e tornar-se signatário dum partido totalitário, defender uma ideologia inescrupulosa e, ainda, ser uma pessoa boa. Sim, uma pessoa equivocada em suas convicções, que deposita suas fichas e esperanças de maneira desavisada num grupelho de crápulas não é, necessariamente, má. Apenas, como muitos de nós, equivocada nesta ou naquela escolha. Sobre isso, o filósofo Mário Ferreira dos Santos ensina-nos, em seu “Análise de Temas Sociais – Tomo II”, que o que move muitas pessoas a aderirem ao socialismo, utópico ou “científico”, é um sentimento justo de indignação, porém, esse justo sentimento não corrige os equívocos dessas doutrinas e nem mesmo evita suas turvas consequências.

Também, uma pessoa cruel, de coração infra-humano, pode muito bem infiltrar-se numa pia comunidade para corromper as pessoas boas que lá estão, distorcendo e confundindo tudo. Aliás, lembremos a grandessíssima lição que nos foi ensinada pelo Verbo divino encarnado: dos apóstolos apenas um esteve com ele ao pé da cruz. E, dentre os doze, estava o traíra.

Por isso, nota-se o quão perigosos são os juízos emitidos por aqueles que se consideram a fatia esclarecida da sociedade. Tornando um ente externo (partido, organização, ideologia) o critério último para auferir a benignidade, ou malignidade de alguém, estamos inevitavelmente anulando a autonomia de nossa consciência individual para, servilmente, tornarmo-nos autômatos que encaixam as pessoas nesses ou naqueles rótulos políticos para beatificar uns e condenar outros. Mas, tudo isso será feito criticamente, é claro.

É por essas e outras que J. O. de Meira Penna, em seu clássico “Ideologia do século XX” afirma que comunismo e nazismo são irmão siameses. Entre os muitos pontos convergentes dessas duas doutrinas totalitárias, lembremos que ambas elevam um credo político-ideológico ao patamar dum critério moral absoluto e onipresente.

Ontologicamente, a moral antecede a política. Porém, quando se inverte essa ordem, inevitavelmente, a política perverte a moral, tal qual vemos no exemplo casual apontado anteriormente. Tal qual vemos, de modo amplo e irrestrito, ocorrendo em nosso país hoje em dia que não mais sabe a diferença substancial que há entre o bom-mocismo fingido e a bondade abnegada.

Pax et bonum
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