FRAGMENTOS DUM LIVRO QUEIMADO

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1.
A verdade é filha do tempo. O contrário dela, a mentira, da impaciência, de nossa incapacidade de lidar com o fluir mecânico dos relógios e calendários.

Quando estamos apressados, o que queremos, no fundo, não é conhecer a verdade disso ou daquilo. Não. Quando impacientados, o que almejamos é ter simplesmente razão, pouco importando se estamos redondamente enganados.

Por isso, passamos o dia em meio as nossas conversas fugidias... seja no trabalho, nas horas vagas, nos momentos de lazer e, principalmente, diante das luminosas telas... pouco importa, estamos sempre apressados com tudo sem nos importar com nada e, por isso mesmo, pouco nos vale a verdade.

Ela, a verdade, exige de nós algo que a muito perdemos e que, infelizmente, não estamos nem um pouco interessados em recuperar.

E, é claro, temos inúmeras justificativas razoáveis para fundamentar essa nossa desarrazoada atitude. Sempre achamos. Para isso nós encontramos tempo, não é mesmo?

2.
Evangelizar é crime? Nos idos imperiais de Roma, passando pelo México pós-revolucionário era crime sim senhor. E se estacionarmos em regimes islâmicos totalitários, e ditaduras marxistas, para anunciar a Boa Nova, seremos enquadrados. Porém, no Brasil, graças a Deus, ainda não é. Mas até quando?

Essa é uma pergunta pra lá de pertinente, haja vista algumas decisões judiciais que obrigaram a retirada, das ruas de algumas cidades de São Paulo, de outdoors que traziam versículos bíblicos e bem como o intento de restringir as pregações religiosas unicamente dentro do recinto dum templo. Nas ruas, segundo recente proposta legislativa, não. Praças? Também não. E nos canais de televisão? Não sei. Mas você acha que o próximo passo será qual meu caro Watson?

Teoria da conspiração? De modo algum. Simplesmente essa é a lógica dos fatos. Há vinte anos se alguém dissesse que haveria um grupo de manifestantes que se masturbaria com imagens sacras ao lodo dum evento como a Jornada Mundial da Juventude, todos diriam que isso era absurdo. Mas o absurdo tornou-se realidade e não por acaso. Aliás, somente tolos e covardes acreditam no acaso.

Por fim, evangelizar é crime? Como dissemos, por hora, ainda não. Mas, aguarde os próximos capítulos e você testemunhará a ampliação do absurdo que, no momento, nos recusamos a enxergar e a reagir.

3.
Diz-nos Joaquim Nabuco, na centúria retrasada, que: “O júbilo dos materialistas, quando um cientista explora uma porção desconhecida do sistema cerebral, é verdadeiramente ingênua. Outrora nada se sabia sobre o aparelho; só o feito intelectual era conhecido. Hoje a ciência esforça-se por localizar esse feito, ou feitos. Quando terminar esse levantamento do cérebro humano, em que terá progredido a ciência no que se refere ao mecanismo cerebral? E, quando mesmo ela descobrisse esse mecanismo, em que teria progredido quanto à própria natureza do pensamento?”

Eis aí duas perguntinhas que não podemos desdenhar. Ou podemos, por pura presunção. Como também podemos respondê-las com algum fraseado decorado e bonitinho por pura falta de honestidade intelectual e um bom tanto de vaidade.

Pax et bonum
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