ANOTAÇÕES DUM NÁUFRAGO

Por Dartagnan da Silva Zanela

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1. 
Ensina-nos Santo Tomás de Aquino que quem não vive o que crê acaba crendo no que vive. Tal advertência é fundamental para todas as Eras da história. Principalmente para a nossa. Época essa em que os lábios murmuram doces palavras que exalam o putrefaz odor do que há no coração do homem moderno.

O mundo está cheio de pessoas que afirmam crer em Deus, mas que vivem como se ele não existisse. As paróquias estão repletas de almas, que creem mais nos efêmeros modismos mundanos do que nos perenes ensinamentos da Santa Madre Igreja e, por incrível que pareça, creem-se ser tão católicas quanto São Francisco de Salles. E quantas e quantas vezes, em nossa falta de zelo, preferimos os conselhos dos “sábios” mundanos ao invés dos ensinamentos dos santos de Deus por pura desídia intelectual e soberba? Quantas?

Por isso, mais do que nunca, as palavras do Doctor Angelicus são imprescindíveis. Quem não vive o que crê acaba crendo no que vive.

2.
Joseph Ratzinger, em seu livro MIRAR A CRISTO, nos chama a atenção para um dado mui característico do homem moderno. Hoje, praticamente, desapareceu do coração humano a ânsia pela salvação da alma e perdeu-se a consciência do pecado, imaginando-se, com isso, ter-se libertado dos últimos grilhões.

Ora, como bem nota o Emérito Pontífice, nunca a angustia reinou tão soberanamente nos corações humanos como hoje em dia. Em nome dum pífio sentimento de liberdade pessoal, nossa época baniu do horizonte a perspectiva de imortalidade da alma e minimizou o fardo de nossa consciência culpada, descarregando o peso das nossas escolhas noutras forças para justificar nossa leviandade e desespero.

E, mesmo assim, não nos sentimos mais leves porque não temos como tapar o sol com a peneira da soberba por muito tempo. O sol de nossa real condição continua a ofuscar nossas vistas nos lembrando que, mesmo que digamos o contrário, o ator responsável por nossas escolhas sempre somos nós, individualmente. Somos nós que decidimos e ninguém mais.

Mesmo que vivamos como se a primavera dos dias jamais findasse, cedo ou tarde, o peso dos anos e o espreitar da morte nos lembra que nossa caminhada por esse vale de lágrimas é breve. Mais breve do que desejamos e, por isso, no lugar da ânsia pela salvação abraçamo-nos com a depravação e substituímos a consciência do pecado pela autocomplacência escandalosa para com ele.

Enfim, trocamos a liberdade do temor a Deus para viver sob a tirania do medo e da angústia sem esperança do mundo.

3.
Percival Puggina, no artigo MACHISMO E COISIFICAÇÃO DA MULHER, nos apresenta preciosas reflexões. Recomendo vivamente a leitura integral do referido texto, porém, se o tempo lhe for escasso, te conto o que foi dito por ele. As mulheres, dum modo geral, “[...] Afligem-se em busca do amor e o confundem com sedução, desejo, paixão. Mas não é assim. A medida do verdadeiro amor é a medida do sacrifício pelo bem do outro. E como não é inteiramente própria da juventude essa capacidade de renúncia, faltam a tais amores tanto as condições da perenidade quanto o longo convívio que proporcione solidez à confiança mútua”.

O cronista também nos fala dos canalhas de plantão, que não são poucos, e, aproveitam-se desse quadro para colecionar troféus (fotos íntimas com suas “amadas”, entre outras coisas) que em muitas situações tornam-se públicas através da internet. E aí, Puggina é mais uma vez certeiro quando diz: “[...] percebi que existe algo contraditório aí. De um lado, a jovem está dando prova a si mesma de um rompimento com a cultura da geração anterior. Ela é jovem, autônoma, moderna, liberal e se deixa fotografar como bem entende. De outro - e aqui se esconde a contradição - ela está servindo ao machismo e não à autonomia da mulher! Essa jovem, que se crê autônoma, moderna e liberal, se oferece ao altar do machismo. Ao coisificar-se, serve-o”.

De fato. Só não vê isso quem não quer. Ou porque tem medo do óbvio ululante. Bem, dum jeito ou doutro, que cada um tenha a liberdade que tanto almeja. Só depois não reclame das consequências.

4. 
Na sociedade atual, homens e mulheres, gastam boleiras de tempo para cuidar de sua aparência. Pois bem, sobre esse traço da vida contemporânea, uma elegante voz do século XIX faz-se ecoar no atual milênio para nos advertir.

Quem nos fala é Joaquim Nabuco. E ele diz-nos o seguinte: “A impressão definitiva do corpo humano vem da pessoa que o habita. Antes de conhecer, não opinemos sobre a habitação. Um traço interior pode destruir, subitamente, nossa ilusão. O olhar é mais importante que os olhos, o sorriso que a boca, o gesto que as mãos, o andar que as linhas, a voz que os traços. E, desde que à expressão é permitida mais arte, mais artifício, mais disfarce, não nos arrojemos a conclusões. Seria falar daquilo que ignoramos por completo. Lembremo-nos de que a beleza não se assume como atitude, nem comporta reservas ou subterfúgios. Ela deve apresentar-se em toda simplicidade e candura para ser realmente beleza. A sociedade é uma exposição de obras de arte, onde, infelizmente, poucas são autênticas”.

Imagine só o que ele diria se vivo estivesse neste século... Melhor não imaginar. Deixe quieto.

5. 
A consciência moral, “[...] se manifesta do mesmo modo em todos os homens por meio da lei natural (inata) da consciência. Todo homem, colocado diante de um dever moral, conserva (em circunstâncias normais) a faculdade de dizer "Sim" ou "Não" a esse imperativo extrínseco; caso execute o dever, executá-lo-á livremente (com domínio sobre o seu ato), como também, se não o cumprir, estará agindo livremente”, conforme nos lembra Dom Estêvão Bettencourt (OSB).

Por isso, mesmo que joguemos a culpa nas costas sistema ou nas de um qualquer, a decisão continua sendo nossa. Só nossa. Principalmente a de depositar a responsabilidade por nossos atos nas paletas de outra pessoa ou duma entidade fantasmática.

E não adianta fazer cara feia porque é assim mesmo que a banda toca.

Pax et bonum
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