A COPA DO MUNDO NÃO É NOSSA

Redigida em 08 de julho de 2014, dia de Santo Áquila e Santa Priscila, amigos de S. Paulo, e de São Gregório Grassi e companheiros mártires. 14ª semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Levamos a maior goleada da história das copas do mundo. Todo mundo viu. Até eu vi! Por pouco não foi hexa! Seis a zero para Alemanha. Mas, infelizmente, foi mais.

As piadas nas redes sociais bombaram. O jogo nem havia acabado e aquilo que, até a pouco, era símbolo de orgulho nacional tornou-se objeto de escárnio total. Poderíamos escrevinhar toda uma crônica apenas com as piadas digitas, curtidas e compartilhadas. Mas não o farei. Poderia, haja vista que não sou um amante do futebol, como já havia confessado. Porém, como meu bom pai sempre me ensinou: não se tripudia sobre quem está caído. É uma questão de hombridade.

Verdade seja dita: nesse jogo, o Brasil revelou a sua face decadente, politicamente covarde e moralmente desvalida. Explico-me. Os jogadores em campo agiram de modo similar a muitos brasileiros que, em seu cotidiano, não vestem a camisa de sua equipe e recusam-se a sacrificar-se pela comunidade.

No jogo, como muitas vezes na vida em comunidade, não havia vantagem pessoal aparente para ser galgada. Necessitava-se apenas dum trabalho em equipe. Equipe essa que não existia. Que não existe e que, infelizmente, demorará muito para que venha existir. E não digo isso apenas em relação à pusilanimidade dos jogadores em campo. Não! Bastaram dois gols para que a torcida silencia-se e, não demorou muito para que as vaias e a violência passassem a tomar conta do estádio e para que as redes sociais fossem invadidas por infindáveis gracejos.

Tudo isso, de certa forma, é similar a atitude de muitos cidadãos que não contribuem para o bem comum sob o argumento de que já pagaram os seus impostos, análogo aos nossos governantes que se esquivam malandramente de seus deveres públicos. Muito parecido com certos pais que se eximem de suas responsabilidades quando seus filhos dão problemas, declarando que não podem mais com a vida deles. E todos, praticamente todos, lavam as mãos sem a menor cerimônia ou vergonha.

O vexame foi feito, dentro e fora de campo, sim senhor. Então, bola pra frente. Enterremos o Brasil, país do futebol, da malandragem, do jeitinho, desse costume ridículo de querer tirar vantagem em tudo e façamos nascer, sob os escombros dessa Copa, uma nação de verdade, e não mais um país onde o maior sonho duma criança é tornar-se um jogador disso. Aliás, sejamos francos: um país onde esse tipo de sonho é o número um no imaginário dos infantes é um país condenado à tristeza.

Isso mesmo! Não somos uma nação. Se vivo fossem, essa seria a constatação de Ernest Renan e Jules Michelet. Não aspiramos valores edificantes. Escarnecemos deles. Honra, em nosso país, é motivo de zombaria. Coragem e determinação é coisa para otários. E na falta de algo que realmente nos eleve acima do entulho do dia a dia, acabamos nos apegando a essa idolatria chinfrim dum desporto circense.

Nessa semana, a seleção Alemã enterrou a Pátria de chuteiras. Que bom! Esperamos que de agora em diante o Brasil, de alto a baixo, viva de modo mais digno e procure edificar um novo símbolo de orgulho nacional que não seja meramente uma alegoria midiática e espetaculosa.

Que procuremos agir como uma nação e aprendamos a viver como uma comunidade. Sejamos, de agora em diante, mais do que apenas uma fugidia, etílica e festiva torcida de zumbis que se ufanam apenas dum momento de vago significado.

Enfim, a seleção jogou bem? Não. O técnico liderou bem? Também não. E nós, agimos bem? Como nação, não. Como clientes insatisfeitos, talvez sim. Porém, como nos ensina Eça de Queiroz, a soma de muitos egoísmos não faz uma nação, da mesma forma que manifestações de indignação epidérmica não caracterizam um cidadão.

Sem mais delongas, o que nos falta, definitivamente, é honradez, senso de dever e desejo de realização coletiva. O que nos falta é agirmos como nação e não apenas, de vez enquanto, sentirmo-nos como uma por estarmos sentados numa arquibancada ou em frente a uma televisão.

E tenho dito.

Pax et bonum
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