MUITO ALÉM DO HORIZONTE

Escrevinhação n. 1122, redigida no dia 11 de junho de 2014, dia de São Barnabé.

Por Dartagnan da Silva Zanela


As nuvens nublaram o céu. O horizonte está brusco e torna nosso semblante plúmbeo sobre nossos olhos que marejam e transbordam diante do que veem feito os córregos, riachos e rios que dançam pelas cicatrizes do solo.

As nuvens nublam o céu e nos lembram que não somos tão autossuficientes como cremos ser. No dia a dia, com nossa face banhada pelas luzes da normalidade, imaginamos que nosso caminhar é independente, senhor de si. Porém, quando as nuvens nos miram, sem sorrir ou gracejar, somos pegos de assalto. Não tanto pelo derramar de sua torrente, mas pela nossa fragilidade tão bem disfarçada pelas fantasias cotidianas.

Na verdade, nosso horizonte fica nublado com muito pouco. Não carece muito. Pouca é a nossa real independência. Parco é nosso poderio. Sim, imaginamo-nos insuperáveis e, em certos momentos, somos lembrados que somos apenas aquilo que somos: reles mortais.

E se as nuvens enegrecem o azul da abobada celeste, é para nos lavar das ilusões que tão profundamente veem-se impregnadas em nossa alma e, deste modo, voltemos a agir e a viver como uma comunidade de almas imortais que procuram com sua fraqueza auxiliar e socorrer a fraqueza dos outros e não mais como uma chusma impessoal de modernos cidadãos embrutecidos pela artificialidade das nossas rotineiras relações.

Brusco ficou o céu, mas não por crueldade. Não. A face carrancuda das nuvens apenas fez as escamas de nossos olhos caírem, levando-nos a dar às miudezas do dia a dia a importância que elas realmente merecem. Em momentos, como o atual, temos a oportunidade ímpar de recobrarmos o senso das proporções, a muito perdido pelo nosso egolatrismo.

Johann Goethe afirmava que as únicas ideias que merecem ser levadas a sério são as dos náufragos. Apenas elas são dignas de nossa atenção porque continuam a habitar o nosso coração quando tudo o mais está a desmoronar.

Sim, a vida, com todos os seus problemas e dificuldades, tragédias e regalos é um momento único para nos desfazermos de tudo o que é secundário para ficarmos apenas com aquilo que é fundamental e digno de estar presente conosco frente à eternidade.

De fato, tudo que passa a ser mensurado pela própria brevidade dos momentos vividos acaba tendo uma importância que não lhe é devida. Entretanto, quando passamos a mensurar os mesmos acontecimentos à luz da eternidade da alma humana frente à brevidade de nossa caminhada por esse vale de lágrimas, compreendemos, mesmo que apenas por alguns instantes, que a vida, para ser humana, deve ser iluminada por luzes que estão além da fugacidade cotidiana.

Enfim, tudo depende da medida que utilizamos para mensurar os nossos passos.

Pax et bonum
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