O PROBLEMA É SIMPLES, POR ISSO...

Escrevinhação n. 1114, redigida no dia 19 de maio de 2014, dia de São Celestino V e de Santo Ivo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


São os detalhes que fazem a diferença. São os pequenos cuidados que formam a grandeza. Eis aí uma verdade simples que toda pessoa razoável não desdenha, porque são eles, os detalhes, que moldam nossa maneira de agir e, consequentemente, de ser.

Poderíamos apontar uma gama imensa de exemplos para fiar esse poncho verbal, todavia, inclinaremos nosso tear vocabular na procura duma situação cotidiana e compará-la com a de outra sociedade para vislumbrarmos o quão embaixo é o buraco de nosso falta de civilidade.

Imaginemos a seguinte cena: um sujeito sai pelos corredores dum colégio e chega à porta duma sala com várias pessoas. Tais pessoas seriam professores. Ao chegar à porta o indivíduo diz: “Viu! O Fulano de Tal...”, ou “vem cá...”, ou algo do gênero. Penso que todos nós já vivemos nessas terras Cabralinas ocorrências similares, seja num ambiente escolar ou fora dele.

Frases como: “Bom dia! Desculpem-me interromper, mas o Fulano de Tal está?” “Perdoe-me, mas você poderia me ajudar por um momento?” Ao que tudo indica, tais palavras não se fazem presentes no vocabulário usual da brasilidade. Não é assim que tratamos nossos semelhantes por aqui.

Por mais que fechemos as vistas, uma das leis não-escritas que mais fortemente impera em nossa sociedade é a canina. Isso mesmo, a lei das matilhas. Ela reza que devemos agir de maneira servil para com aqueles que são mais poderosos e de modo brutal e covarde para com aqueles que são mais fracos. Com os que estão em igualdade de condição, com dissimulada formalidade.

Por isso, quando vemos, pra cima e para baixo, essa firula de cidadania pra cá, de cidadão acolá, o trem fica muito esquisito. Ora bolas, como falar em cidadania numa sociedade onde não sabemos nem mesmo respeitar uns aos outros nas situações mais banais do dia a dia? Como imaginar que um dia haverá relativa retidão com o que é público numa sociedade que turva a ordem moral que poderia dar sustentação a retidão referida?

Não sabemos conviver uns com os outros, essa é uma verdade pura e simples. E o Estado brasileiro é o primeiro a prestar um grande desserviço para a [des]civilização geral da nação. Essa, uma mera obviedade.

Sei que não gostamos que comparem nossa sociedade com outras. Tal impostura, em si, já demonstra um apego orgulhoso a baixeza e uma incapacidade de crescer e aprender com a visão do que seja dignificante e bom. Mesmo assim, cometamos essa infâmia e perguntemo-nos, como será que cidadãos de países como EUA, Inglaterra ou Japão agem em situações similares às descritas? Como? Sim, já sei: não comentaremos. Sei que para os padrões de nossa moralidade brasiliana é humilhante por demais reconhecer que há pessoas, e mesmo sociedades inteiras, melhores do que nós. Quem o diga reconhecer que existam criaturas mais educadas.

Resumindo o entrevero: vivemos numa sociedade em que não se sabe falar bom dia, mas que, se crê, candidamente, no excelso poder da palavra cidadania, cuja evocação nos elevará da barbárie que [depre]civicamente estamos edificando nos mais mínimos detalhes, dia após dia.

Pax et bonum
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