FRAGMENTOS DUM DIÁRIO

Escrevinhação n. 1115, redigida no dia 20 de abril de 2014, dia de São Bernardino de Sena e de Santo Arcângelo Tadini.

Por Dartagnan da Silva Zanela

1. 
Certa feita, um gentil amigo havia me dito que quando ele via uma pessoa agindo de modo espalhafatoso, tentado chamar a atenção nos momentos e lugares mais inconvenientes possíveis, de certo modo, sentia piedade dela.

Segundo ele, somente almas desprovidas de dignidade, dum mínimo de razoabilidade são capazes de agir desse modo. Por não reconhecerem, dentro de si, junto ao silêncio primário que há no coração, algo de minimamente decente, preferem sair de si e escancaram gargalhadas e gritos de dissimulada felicidade para não tornar tão evidente a mediocridade que se faz reinante em seu íntimo. 

E o que é pior! Não são poucas as almas que se encontram em tamanho estado de decrepitude. Sejam nas ruas ou corredores, em transportes públicos ou nos ecos distantes que tem seu nascedouro nalgum espaço privado, não são poucas as gargantas que gritam desvairadas e riem-se de tudo para mal disfarçar o seu desespero. Por isso, penso como meu dileto amigo: tenhamos paciência. Paciência, porque essas almas se entregaram ao ridículo para não ter de encarar a realidade de sua decadente condição e isso, em si, já é uma triste condenação.

2.
Ler. Tomar nota. Reler. Reler as linhas da lavra do autor e bem como os rabiscos por nós sulcados nas margens da lavoura de palavras. Silenciar e, mais uma vez, fiar o arar da vista junto ao solo da leitura para, com o autor, colher bons frutos ao mesmo tempo em que se semeia um vivaz roçado em nosso coração. Isso é estudar.

Como a arte do plantar, o estudo exige do indivíduo uma razoável paciência e zelo. Não se cultiva o solo se não sabemos respeitar o tempo de amadurecimento das plantas. Uma horta se perde se não fiamos o sacho, atentamente, para livrar as hortaliças das ervas daninha.

O mesmo pode-se afirmar com relação ao estudo. Ler, meditar, tomar notas, reler, silenciar, narrar para si (mentalmente e por escrito) e refletir sobre o que foi lido. Podemos dizer que esses são os rudimentos elementares do bom cultivo do solo d’alma humana.

3.
John Adams certa feita afirmou que a Constituição dos Estados Unidos da América seria apenas apropriada para uma sociedade que fosse firmemente calcada em sólidos princípios morais e religiosos. Doutra forma, a referida constituição seria apenas letra morta.

Com o perdão da palavra, podemos ir mais longe. Somente uma sociedade fundada em sólidos princípios religiosos e morais é apta para viver sob um regime democrático. Fora disso, o que se tem é um solo fértil para a eclosão duma torpe oclocracia que, cedo ou tarde descamba numa tirania. E se tarda, não é por mérito das massas desarrazoadas, mas sim, por causa da astuta malícia das oligarquias que bem aprenderam utilizar o regime, democrático invertebrado e anêmico, em seu proveito.

Por fim, John Adams sabia o que estava dizendo e nós, atualmente, no Brasil, definitivamente não sabemos o que estamos fazendo.

Pax et bonum
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