PRONTUÁRIO DE INTERNAÇÃO

Escrevinhação n. 1110, redigida no dia 22 de abril de 2014, dia de São Sotero e de Santa Senhorinha.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Tudo mundo declara ser uma cândida alma preocupada com a educação. É coisa linda de ver. Todavia, o que torna a situação esquisita é vermos que essas ilações de salão não apresentam fruto algum. E não dão porque essas encenações não passam de pose de bom-mocismo afetado de sujeitos que, no fundo, nunca tiveram nem mesmo apreso pela sua própria educação.

Se não, vejamos: façamos um breve exame de nossa ação educadora. Todos, gostemos ou não, somos pontos irradiadores duma conduta humana possível. Podemos até nos desagradar com essa idéia, porém, mesmo assim, a nossa maneira de viver é um ícone do que um infante deve fazer para ser reconhecido como um adulto.

Vale lembrar que tanto adultos como infantes, tem uma relativa dificuldade em concentrar-se numa contínua, ou fragmentária, exposição oral. Alguns se dedicam na ampliação dessa capacidade, outras tantas, não estão nem aí para o borogodó. Até reconhecem a existência do problema, mas não tem coragem, nem vontade, de enfrentá-lo. Entretanto, os exemplos, tanto os dramáticos como os rotineiramente repetidos, calam, profundamente, em nossa alma tornando claras as questões que doutra forma teríamos dificuldade de aprender.

Dito isso, permitam-nos levantar uma magra lebre: imaginemos um indivíduo devidamente diplomado. Esse sujeito, por ventura, costuma ler com freqüência quando está em sua casa em seus momentos de lazer? Seus filhos, sobrinhos e demais pequenos de seu círculo de convívio, o flagram deitando suas vistas, alegremente, num livro? Será que ele tem o costume de ler para os seus?

Mesmo assim, provavelmente, o sujeito deve comprar livrinhos para os pequenos e cobrar deles o amor a leitura que nunca lhes foi demonstrado através de gesto algum, diga-se de passagem.

Enfim, se fôssemos francos, reconheceríamos que damos pouquíssima atenção para eles, ao mesmo tempo em que exigimos que a sociedade lhes dê aquilo que recusamo-nos regalar àqueles que dizemos amar.

Sem mais delongas, executemos duma vez esse lebrão: o que fazemos em nossos momentos de ócio? Bem aquilo que nossos filhos vêem. Atividades que fazemos com gosto e alegria descontrolada e que pouco tem haver com educação. E, por essas e outras, que não me empolgo, nem um pouquinho, com todo esse amor pela educação que é apresentado, publicitariamente ou não, em nossa sociedade que, infelizmente, hoje, mais do que nunca, faz do fingimento a instituição cívica número um, reduzindo o amor ao conhecimento a uma esquisitice digna de internação. Fazer o quê?

Pax et bonum
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