quarta-feira, 30 de abril de 2014

UM GENERAL SEM DIVISÕES

Escrevinhação n. 1111, redigida no dia 30 de abril de 2014, dia de São Pio V e de São José Bento Cottolengo.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Provavelmente, uma das imagens mais dolorosas do início deste milênio foi a da última aparição pública de João Paulo II quando esse, debilitado pela sua enfermidade, tentou proferir sua benção. A voz não saiu. Mas seu coração falou através dum gesto. Pouco tempo depois ele veio a descansar no Senhor.

Mas quem foi esse homem vindo de terras distantes e que peregrinou por distantes terras? Foi, ao mesmo tempo, um herói de nossa era e um Santo de todos os séculos que nos deixou através de seus escritos e atitudes uma fonte inexaurível de inspiração para lutarmos o bom combate.

Obviamente que não temos como retratar nestas mirradas linhas tudo o que ele foi e quem ele é. Porém, esse parvo escrevinhador ousa rabiscar alguns traços sobre sua pessoa.

Ele era profundamente preocupado com o padecimento das vítimas da fome, das guerras e do totalitarismo. Ele mesmo foi uma delas na Polônia dominada por nazistas e comunistas. Por isso, abriu mão dos direitos autorais de seus livros em favor das crianças da África. Quando vivo, tal gesto não era alardeado porque ele o fazia por caridade, não por publicidade.

O João de Deus não propunha a expropriação dos meios de produção e o fomento da luta de classe movida pela dureza do coração humano. Ele pregava o amor. O mesmo amor que nos foi ensinado pelo Verbo divino Encarnado e que hoje, através dos mais variados subterfúgios, muitos querem tanto silenciar quanto deturpar.

Esse homem, que teve seu coração tocado por um alfaiate que o introduziu no caminho místico de São João da Cruz, jamais carregava dinheiro. Corajosamente, apoiou a luta pela autonomia operária em sua terra natal que durante décadas sofreu sob a batuta totalitária marxista que havia transformado todo o povo de sua amada Polônia em escravos estatizados. Escravizados como em todos os países em que essa ideologia tornou-se uma razão de Estado.

Por isso dizia a todos para que não tivessem medo. Para que não temamos o mal. E por não ter medo, por ensinar ao povo de Deus a não temer os ídolos estatais, ele sofreu dois atentados contra sua vida. Um a bala, que todos conhecemos. O outro, em Fátima, logo após a recuperação do primeiro, onde foi esfaqueado ao fim da Santa Missa. Tais covardias não foram suficientes para abalar a têmpera desse peregrino vindo das terras de São Stanislaw.

Hoje, se ele estivesse entre nós, provavelmente repetiria as palavras que deram início ao seu pontificado e conclamaria a todos nós para que jamais nos esqueçamos que no centro de nossas vidas, de nossas ações, deve estar Cristo, o Filho do Deus vivo, para que Sua luz dissipe as trevas totalitárias que assombram nossos dias. Ele diria: tenhamos coragem de não nos curvarmos diante dos ídolos seculares de hoje porque, como todos os mundanismos, um dia eles passarão. A palavra do Filho do Deus Vivo, não. Não passará.

S. Ioannes Paulus PP. II, ora pro nobis
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

PRONTUÁRIO DE INTERNAÇÃO

Escrevinhação n. 1110, redigida no dia 22 de abril de 2014, dia de São Sotero e de Santa Senhorinha.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Tudo mundo declara ser uma cândida alma preocupada com a educação. É coisa linda de ver. Todavia, o que torna a situação esquisita é vermos que essas ilações de salão não apresentam fruto algum. E não dão porque essas encenações não passam de pose de bom-mocismo afetado de sujeitos que, no fundo, nunca tiveram nem mesmo apreso pela sua própria educação.

Se não, vejamos: façamos um breve exame de nossa ação educadora. Todos, gostemos ou não, somos pontos irradiadores duma conduta humana possível. Podemos até nos desagradar com essa idéia, porém, mesmo assim, a nossa maneira de viver é um ícone do que um infante deve fazer para ser reconhecido como um adulto.

Vale lembrar que tanto adultos como infantes, tem uma relativa dificuldade em concentrar-se numa contínua, ou fragmentária, exposição oral. Alguns se dedicam na ampliação dessa capacidade, outras tantas, não estão nem aí para o borogodó. Até reconhecem a existência do problema, mas não tem coragem, nem vontade, de enfrentá-lo. Entretanto, os exemplos, tanto os dramáticos como os rotineiramente repetidos, calam, profundamente, em nossa alma tornando claras as questões que doutra forma teríamos dificuldade de aprender.

Dito isso, permitam-nos levantar uma magra lebre: imaginemos um indivíduo devidamente diplomado. Esse sujeito, por ventura, costuma ler com freqüência quando está em sua casa em seus momentos de lazer? Seus filhos, sobrinhos e demais pequenos de seu círculo de convívio, o flagram deitando suas vistas, alegremente, num livro? Será que ele tem o costume de ler para os seus?

Mesmo assim, provavelmente, o sujeito deve comprar livrinhos para os pequenos e cobrar deles o amor a leitura que nunca lhes foi demonstrado através de gesto algum, diga-se de passagem.

Enfim, se fôssemos francos, reconheceríamos que damos pouquíssima atenção para eles, ao mesmo tempo em que exigimos que a sociedade lhes dê aquilo que recusamo-nos regalar àqueles que dizemos amar.

Sem mais delongas, executemos duma vez esse lebrão: o que fazemos em nossos momentos de ócio? Bem aquilo que nossos filhos vêem. Atividades que fazemos com gosto e alegria descontrolada e que pouco tem haver com educação. E, por essas e outras, que não me empolgo, nem um pouquinho, com todo esse amor pela educação que é apresentado, publicitariamente ou não, em nossa sociedade que, infelizmente, hoje, mais do que nunca, faz do fingimento a instituição cívica número um, reduzindo o amor ao conhecimento a uma esquisitice digna de internação. Fazer o quê?

Pax et bonum
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quarta-feira, 16 de abril de 2014

MAIS UMA VOZ QUE SE CALA

Escrevinhação n. 1108, redigida no dia 15 de abril de 2014, dia de Santa Anastácia e Santa Basilissa.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Grandes nações são forjadas por grandes homens. Aliás, não se tem como fundar a magnificência em colunas de mesquinhez. Infelizmente, quando volvemos nossas vistas para o presente, a grandeza de espírito vê-se não apenas minguada em nossas terras, mas também, e principalmente, vexada quando ousa manifestar-se. Em nossos tristes trópicos essa é a regra.

Pior! Quando reconhecemos uma alma valorosa e pensamos que essa irá imprimir destemidamente seu nome nos umbrais da história, erramos. Ficamos vagando pelo ermo, desenganados. Não estou a referir-me aqui a uma decepção. Não mesmo. A grandeza não falta ao senhor ao qual me refiro sem nominar. Ele a tem de sobra. Refiro-me sim ao silêncio auto-impingido por um grande intelectual que preferiu abraçar o anonimato junto a sua família ao invés de travar pelejas com seu tinteiro e pena na arena pública.

Não o censuro por tal escolha. Afinal, quem sou eu para tanto? Reconheço o quão pequeno é meu quinhão. Aliás, tanto respeito seu silêncio, que não cito o nome deste que tenho na grata conta dum bom amigo. Apenas lamento. Lamento o silêncio deixado pelo emudecimento voluntário de sua voz.

Certa feita, George Washington disse, a respeito de George Manson, mentor de Thomas Jefferson, que ele foi o melhor da sua geração. Desse amigo, posso dizer o mesmo. Ele, provavelmente, é o melhor de nossa geração, mas que, ao contrário de Manson, preferiu o anonimato.

Bem, é isso que a sociedade brasileira faz com aqueles que demonstram elevada capacidade. Somos uma sociedade que se recusa a elevar os olhos acima de nossos umbigos e, por isso, imaginamos que a grandeza de espírito não existe para nos inspirar e nos elevar com ela, mas sim, que ela teria sido concebida com o intento maldoso de nos dominar e humilhar. 

Ora, somente os medíocres sentem-se aviltados com a magnificência e, infelizmente, a mediocridade em nossa pátria atingiu tamanha valoração que as mais abjetas manifestações culturais são elevadas a categoria de sentença categórica de pensadora, onde as mais grotescas manifestações de bestialidade ganham o status de digna expressão de cidadania e os comentadores jornalísticos que ousam destoar da unanimidade rodriguesiana são silenciados de maneira covarde. Neste cenário, como posso convencer meu amigo a sair de seu ostracismo voluntário?

Enfim, como havia dito, lamento o silêncio acadêmico, literário e político desse bom homem sem nome que, sem sobra de dúvidas, é o melhor de nossa geração. Uma voz calada que se resolver levantar-se contra a estupidez reinante fará estremecer todas as almas sebosas. Porém, esse brado, ao que tudo indica, não irá ecoar em prado algum, infelizmente.

Pax et bonum
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terça-feira, 15 de abril de 2014

ESTRANHAS LETRAS

Escrevinhação n. 1107, redigida entre os dias 11 de abril de 2014, dia de Santa Gema Galgani, de Santo Estanislau e da Beata Elena Guerra, e 15 de abril de 2014, dia das Santas Anastácia e Basilissa.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. 
Dia após dia, vejo-me diante do pálido reflexo da minha imagem que me é apresentada pelo tosco espelho de meu viver. E neste reflexo, o que vejo além da imagem alva? Pouca coisa. Quase nada. Praticamente nada que valha algo.

Vejo apenas um rapaz envelhecido, de passos cambaleantes, que sepultou suas ilusões e sonhos nos distantes ermos que foram encontrados na trilha de sua caminhada.

Dia após dia, vejo-me ainda a caminhar, silencioso, por entre sombras alucinadas que me assombram com sua loucura travestida de realidade. Sombras que tentam, diariamente, convencer-me de que minha jornada é uma peregrinação sem prumo. Plúmbeas sombras que se arrastam em meu entorno com seus delírios de superioridade.

Por fim, dia após dia, enxergo com clareza, o reflexo pálido e cansado do que sou e digo, a mim mesmo: a caminhada continua. A jornada não chegou ao termo. A loucura que me circunda, também não.

2. 
A linguagem, segundo muitos, é uma ponte que interliga almas. Para outros tantos, uma muralha. Seja num caso, ou noutro, os indivíduos devem estar dispostos a percorrer a ponte ou saltar o muro para compreender o outro, o mundo e a si mesmos.

A linguagem não é, fundamentalmente, um facilitador. Nem mesmo, necessariamente, um obstáculo. Ela é, por sua natureza, um instrumento que nos permite acessar realidades.

Dum jeito ou doutro, a facilidade ou a dificuldade são apenas detalhes de pouca valia para aqueles que realmente desejam compreender o que seu interlocutor está comunicando. Quando a vontade de compreender, e de ser compreendido, faz-se ausente, inevitavelmente, a linguagem torna-se inútil. Nestes casos, bem provavelmente, o sujeito não compreenderá nada. Ninguém. Nem a si mesmo.

3. 
Thomas Jefferson, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, afirma que: “a arte de governar é a arte de ser honesto. Procure cumprir o seu dever e a humanidade lhe dará crédito por suas falhas”.

Belíssimas palavras, porém, em nossas terras, essa excelsa fórmula ganhou outra roupagem. Aqui, a arte de governar consiste na desavergonhada malícia, no fingimento contínuo e no descumprimento de todo e qualquer dever e, tudo isso, fundado na sínica crença de que a sociedade pouco se incomodará com o resultado de seus mandos e desmandos.

Resumindo: lá eles tiveram pais fundadores da pátria e aqui tivemos e temos padrastos usurpadores do povo.

Pax et bonum
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sexta-feira, 11 de abril de 2014

É DE BRANQUEAR OS CABELOS

Escrevinhação n. 1106, redigida no dia 18 de março de 2014, dia de Santo Eduardo e de São Cirilo de Jerusalém.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Nós conseguimos realizar a façanha das façanhas na história da humanidade! Nessas terras de Tupinambás, conseguimos, como nos lembra o filósofo Olavo de Carvalho, a opressão sem ordem social, o autoritarismo sem segurança, o caos sem liberdade e a indefinição sem mobilidade. Tudo junto e misturado essa é a cara escarrada de nosso grande legado para todas as gentes.

E o pior de tudo é que não são poucas as vozes que afirmam, descrentes, que isso tudo é normal, como também não são minguados lábios que festejam tal situação devido ao grande potencial de transformação social que elas vêem no referido quadro.

Confesso: não sei o que iniciou primeiro, se a desordem reinante na realidade externa à alma ou se confusão que impera nela. Talvez, uma e outra, se alimentem juntas da mesma alucinação. Quem sabe? Digo apenas que uma sociedade que acha normal o acanalhamento geral não é uma sociedade formada por pessoas interiormente equilibradas, com seu coração razoavelmente ordenado.

Sejamos francos: somos, gostemos ou não, uma sociedade adoecida pelo cancro do relativismo moral e, por isso, indiferente aos valores universais que, quando são evocados, o são em nome duma pequenez oportunista, não por adesão consciente.

Isso mesmo! Muitas vezes ouvimos uma e outra garganta gritar: “o que está acontecendo com os valores da sociedade?” Ora, de que valores estamos falando, cara pálida? Quais são os valores que cultivamos em nosso dia a dia? Quais são os tão aclamados, e inauditos, valores que norteiam a nossa vida?

Podemos dizer que, à sua maneira, o relativismo moral imperante realizou, com maestria, no coração das brasílicas almas o dito do Marquês do Paraná que reza que aos amigos deve-se garantir tudo, aos inimigos nada e aos indiferentes os rigores da lei, dos olhares e das convenções.

Bem, na falta desses rigores, passa-se a imperar a arbitrariedade da vontade umbilical dos círculos de amigos e das ideologias, para a infelicidade geral dos indiferentes, haja vista que vivemos num país onde se conseguiu ter opressão sem ordem social, o autoritarismo sem segurança, o caos sem liberdade e a indefinição sem mobilidade.

Ah! E antes que eu me esqueça, sei que muitos dirão que tudo isso depende do ponto de vista de cada um. Pontos de vista que vêem a si mesmos como sendo uma manifestação apolínea duma verdade unívoca, inconteste, velada e, inevitavelmente, de papelão, como tudo o mais que hoje reina em nosso país que se entregou de corpo e alma a esse relativismo tosco que tão bem reflete a loucura reinante. Já estou sabendo. Já estou branqueando os cabelos de saber.

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