O EMBUSTE ORIGINAL

Escrevinhação n. 1101, redigida no dia 04 de março de 2014, dia de São Casimiro e de São Lúcio I.

Por Dartagnan da Silva Zanela


As estatísticas rezam que todo indivíduo, intencionalmente ou não, em apenas dez minutos de conversa, mente ao menos três vezes. Aliás, o Dr. House partia dessa premissa e seus pacientes e colegas nunca o decepcionaram, pois, reconheçamos ou não, todos mentem. Uns mais, outros menos, mas ninguém escapa desta falha originária.

Entretanto, as razões que levam uma pessoa a praticar esse desvio são as mais variadas possíveis. Tal miséria é abordada de modo instigante por J. A. Barnes em seu livro “UM MONTE DE MENTIRAS – para uma sociologia da mentira”. O assunto não é pouco e os problemas advindos deste dão pano pra manga.

Mas vamos em frente! Cada um de nós emite seu grito, verdadeiro ou não, a partir de um lugar que ocupamos na sociedade que, com maior ou menor intensidade, deixa sua marca em nossa fala. Além desse lugar societal, cada um de nós carrega em seu íntimo o que Antonie de Saint-Exupéry chamava de nossa pátria interior, a qual não podemos jamais renunciar. Esse reino íntimo é o que somos. É onde se vive independente de onde estivermos. De mais a mais, como nos ensina São Tomás de Aquino, em seu livro “Los Mandamientos”, pelas palavras dum homem sabe-se onde é sua pátria.

E é nessa pátria interior que encontramos as razões duma mentira. É neste ambiente solitário que vislumbramos os alicerces do mentir. Tomando essa constatação como pedra de toque, podemos, em resumidas pinceladas, tomar duas categorias classificatórias de farsantes que nos são apresentadas por Santo Agostinho. Diz-nos ele, em seu livro “De mendacio”, que podemos apartar os pilantras em dois grupos: os mentirosos e os embusteiros. Os primeiros seriam aqueles que, conscientes ou não da gravidade de seus atos, procuram sempre tirar vantagem de outrem através de toda ordem de subterfúgios. Esses indivíduos, independente dos pretextos que os levam a fazer o que fazem, são perigosos.

Quando aos segundos, seriam todos aqueles que sofrem do terrível vício de opinar levianamente sobre todo e qualquer assunto sem ter necessariamente parado para estudá-lo, nem para ponderar sobre as palavras que está proferindo. Esses indivíduos falam por falar, opinam pelo mero prazer de serem ouvidos, de estar recebendo um pingo de atenção mesmo essa seja um pífio simulacro de botequim motivado pela vaidade, onde o amor à procura pela verdade não tem lugar.

Ah! E como é difícil reconhecermos a presença dessa mancha em nossa alma. Consideramo-nos informadíssimos e providos de uma aguda consciência crítica. Todavia, se há em nosso coração ainda um pouco de sinceridade que seja, aproveitemos o início da Quaresma para fazer um voto de abstinência em manteria de opinião e ofereçamos essa modesta penitência aos pés da Virgem Santíssima para que o Bendito fruto de seu imaculado ventre nos revele a verdade sobre o nosso maculado coração elevando-nos em Espírito e Verdade para que não mais rastejemos sordidamente por entre embustes e auto-enganos que tanto infectam nossa pátria interior.

Pax et bonum
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