quarta-feira, 19 de março de 2014

[áudio] FÉ, ESPERANÇA E AMOR - parte II

UMA MEDIDA QUE POUCO MENSURA

Escrevinhação n. 1105, redigida no dia 17 de março de 2014, dia de São Patrício e da Beata Bárbara Maix.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Em que medida é apropriado afirmar que a história da humanidade é, e sempre foi, uma luta de classes? Levantamos essa pergunta, pois, tal afirmação, praticamente tornou-se um lugar comum tão constante no imaginário contemporâneo que se converte toda e qualquer tensão inter-humana num gérmen da referida categoria. Por isso mesmo, perguntamos: em que medida pode-se atribuir a essa categoria o status dum princípio categórico onipresente?

Sobre esse ponto, o filósofo italiano Benedetto Croce, diz-nos que se pode falar em luta de classes quando temos algumas condições específicas, as quais seriam: (i) que existam classes, (ii) que essas tenham interesses antagônicos e, finalmente, (iii) que elas tenham consciência desse antagonismo. Quando esses pré-requisitos são preenchidos inegavelmente pode-se falar em luta de classes. Fora disso, o que temos é o alargamento dum instrumento político-conceitual para abarcar uma gama multiforme de ações humanas, esvaziando o sentido originário da categoria citada ao mesmo tempo em que mutila as realidades humanas que foram forçosamente enquadradas nela.

O fato de sermos capazes de constatar o quão restrito é a categoria teórica em questão, não significa que se está negando a existência das desigualdades sociais e a multitude de injustiças que abundam mundo a fora. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Aliás, qualquer pessoa razoavelmente sensata sabe muito bem que as desigualdades e injustiças abundam abaixo do sol e que elas têm múltiplas causas que vão muito além dessa vã categoria.

Doravante, não podemos também perder de vista que em muitíssimas ocasiões onde não há os pré-requisitos necessários para caracterizar a existência de conflitos de classe, fomenta-se qualquer ordem de conflito que, posteriormente, será qualificado (de modo impróprio) como se fosse um conflito dessa natureza. Conflitos esses que, inegavelmente, na maioria das vezes, apenas geram mais desigualdades e novas formas de injustiças do que qualquer outra coisa.

A devoção hipnótica que se tem a esse dogma materialista cega o indivíduo para as imensas possibilidades que podem ser ventiladas pelas ações humanas. Ações que se fossem explicadas, à luz desse limitado cânone materialista, apenas geraria distorções ao invés duma razoável compreensão.

Por exemplo: expliquemos, a partir da noção de luta de classes, a existência de um convento de Carmelitas descalças. Por que essas senhoras abdicaram do mundo para viver uma dura vida de reclusão? E a obra de Johann Sebastian Bach? Suas composições seriam apenas um instrumento ideológico? E a vida dum Santo Padre Pio de Pietrelcina? Melhor não dizermos nada.

Por fim, é claro que não serão poucas as almas de Procusto que irão mutilar esses feitos humanos para enquadrá-los melhor em seu limitado olhar e baterão no peito, dizendo que seu dogma materialista é sim uma pedra angular que explica tudo, mesmo que a tudo deturpe. E como deturpa.

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segunda-feira, 17 de março de 2014

[áudio] O AMOROSO ESPÍRITO

ELA FAZ A DIFERENÇA

Escrevinhação n. 1104, redigida no dia 13 de março de 2014, dia de São Salomão, de São Rodrigo, de Santa Eufrásia e de Santa Serafina.

Por Dartagnan da Silva Zanela


A mesquinharia faz a diferença. Sim, poderiam ser as virtudes. Não todas juntas e reunidas numa personalidade, mas uma e outra realizada em cada indivíduo. Mas não. É a mesquinhez que reina, a baixeza que impera e a vulgaridade que comanda a festa.

Ela faz a diferença, não por sua majestade, mas pela atenção desmedida que atribuímos às vãs querelas que cultivamos em nosso dia a dia. Querelas essas nascidas de nosso cavalar amor próprio que nos tampa as vistas feito viseira duma besta de carga, fazendo-nos crer que nossa mísera carga seja o fardo dos fardos.

E como ela faz a diferença! Poderíamos ser mais úteis para os nossos, poderíamos agir de maneira mais digna e, porque não, quem sabe até mesmo sermos bons se não fosse a atenção desmedida dada por nós aos reveses que caem sobre nossos ombros e que nos impede de simplesmente abrir os olhos para vermos os padecimentos que estão a nossa volta.

A diferença gerada pela mesquinhez é tamanha que, devido a cara feia que fazemos frente os nossos pseudo-problemas, acabamos por nos envenenar com o fel da indiferença em relação aos sofrimentos alheios, aos sofrimentos que estão em nosso entorno. Choramos a mágoa por nós sentida ao mesmo tempo em que não sentimos a chaga aberta na mão que nos avizinha e que clama pelo afeto que não mais sabemos ofertar porque não mais sabemos amar. Tamanha a indiferença parida pela diferença propiciada pela mesquinharia nossa de cada dia. 

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sexta-feira, 14 de março de 2014

QUASE UM SONETO PARA HELENA

[aniversário da minha filhota]
Por Dartagnan da Silva Zanela,
em 14 de março de 2014.

No décimo quarto raiar de março
Da décima segunda valsa solar
Do Paço do terceiro milênio
Nasceu um amoroso solzinho.
Helena é a graça da estrela
Que alumia-nos com seu riso
E com seu jeitinho todo travesso
Revela-nos a sua realeza.
E ela caminha, corre e pula
Feito fadinha em dia de chuva
Fantasiada de flor no jardim
E agitando seu cabelinho pixaim
Ela dança, canta e baila
Fazendo a vida, e o dia, sorrir.

[áudio] O VÍCIO DO OPINAR

Democracia e ditadura

por DENIS ROSENFIELD

O discurso da diplomacia brasileira acerca da Venezuela e dos demais países bolivarianos segue a doutrina do PT, segundo a qual estaríamos diante de uma democracia pelo simples fato de lá haver eleições. Eleições seriam, então, o único critério de definição de Estados democráticos, com evidente desprezo pelas instituições da sociedade civil. Mais concretamente, há total desconsideração pelo equilíbrio entre Poderes e pela independência dos Poderes Judiciário e Legislativo. A liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral é sistematicamente pisoteada, se não aniquilada.

Nesse sentido, a “democracia” poderia prescindir das liberdades civis e políticas, devendo contentar-se com eleições e referendos, cada vez mais restritos, pois as condições de competitividade são progressivamente reduzidas. De fato, a democracia representativa nesses países “socialistas” é substituída, para retomar um conceito de J. L. Talmon, pela democracia totalitária.

A democracia representativa caracteriza-se por ser constitucional, obedecendo a princípios que fogem a qualquer deliberação popular. Consequentemente, não pode ser objeto de deliberação a igualdade de gêneros ou de raças. Uma maioria popular machista ou racista não se poderia impor numa democracia representativa, graças aos limites constitucionais, de princípios e valores, por ela assegurados.

Segundo a democracia totalitária, o poder reside na vontade popular encarnada pelo líder carismático. Não tem este, em razão da delegação popular recebida, nenhuma limitação, como se eleições o autorizassem, virtualmente, a fazer qualquer coisa. Basta um referendo para que isso ocorra. Foi o que aconteceu com o “socialismo do século 21″, nas figuras de Hugo Chávez e de sua caricatura, Nicolás Maduro, que aboliram a separação de Poderes, emascularam o Judiciário e o Legislativo, fazendo do Executivo o único Poder que conta.

A economia de mercado, por sua vez, foi cerceada, quando não aniquilada, tendo como consequência o domínio do Estado, cujos efeitos mais nítidos são a inflação galopante e a falta de produtos básicos – o papel higiênico é o mais emblemático deles. Já a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral foi sendo suprimida, só sobrando, hoje, o resquício de uma sociedade livre. Milícias no melhor estilo das SA nazistas aterrorizam a população, fazendo uso da violência e do assassinato sempre e quando o líder máximo o exigir. Tudo, evidentemente, em nome da “revolução” e do “socialismo”.

Não obstante, o Itamaraty e setores do PT continuam a justificar a “democracia venezuelana”, como se os protestos do que ainda resta de oposição fossem o real perigo. Ora, as posições estão totalmente invertidas. A dita “cláusula democrática”, bem entendida, significaria, apenas, a “cláusula democrática totalitária”.

Do ponto de vista diplomático, por uma questão de pudor, não se pode acatar o argumento de que o Brasil não se ingere em assuntos de outros países, uma vez que foi bem isso que fez no Paraguai. O então presidente Fernando Lugo foi afastado do poder por um impeachment, segundo a legislação paraguaia. O governo brasileiro não reconheceu o impeachment e aproveitou a ocasião para suspender esse país do Mercosul, tornando viável, dessa maneira, a entrada da Venezuela. É evidente o uso de dois pesos e duas medidas.

Nessa perspectiva, poderíamos aplicar os mesmos critérios para o que se denomina ditadura militar brasileira, com o intuito de melhor apreciarmos a “verdade” do período, contrastada com o juízo “democrático” do atual governo a propósito do “socialismo do século 21″.

Considera-se a ditadura militar como se estendendo desde o governo Castelo Branco até o final do governo Figueiredo, quando há diferenças significativas nesse longo período. O governo Castelo Branco, por exemplo, tinha inclinação liberal, enquanto o governo Geisel foi fortemente estatizante. Segundo esse critério, o governo Dilma Rousseff se encaixaria na concepção geiselista, com forte intervenção do Estado na economia, a escolha de empresas e setores privilegiados a serem apoiados e o uso da política fiscal e de subsídios para o apoio a esses grupos. Seria Geisel de esquerda, conforme essa concepção? Mais ou menos democrático? E Lula, em seu primeiro mandato, seria castelista?

Durante o período do governo Castelo Branco (1964-1967) até o Ato Institucional n.º 5, promulgado por Costa e Silva em setembro de 1968, o País desfrutava ampla liberdade. Foi esse ato extinto em 1978 por Geisel e o habeas corpus, restaurado. Penso não ser atrevido dizer que as liberdades civis eram muito mais respeitadas do que o são nos países que, atualmente, encarnam o “socialismo do século 21″.

A gozação, para não dizer a sátira e a ironia, do Pasquim começou em 1969, quando o regime militar havia endurecido e a ditadura propriamente dita se estabeleceu. Isto é, a ditadura tolerou o Pasquim, enquanto os governos bolivarianos não toleram nenhuma crítica, muito menos a que se faz pela sátira que atinge os seus líderes.

A greve do ABC sob liderança de Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, foi um marco no Brasil, abrindo efetivamente caminho para a liberdade de participação sindical. Ocorreu em 1974, sob o governo Geisel. A partir dela novas greves se estenderam de 1978 a 1980, já no governo Figueiredo. Imaginem algo semelhante nos países bolivarianos. Por muito menos os “socialistas” enviam as suas milícias e fazem uso de perseguições, prisões, tortura e assassinato.

A Lei da Anistia, negociada entre militares democratas, políticos do establishment e a oposição do MDB, com amplo apoio da sociedade civil, foi assinada por Figueiredo em agosto de 1979, abrindo realmente caminho para a redemocratização do País. Foram os próprios militares que tomaram a iniciativa de abandonar o poder.

Sem dúvida a “democracia” bolivariana consegue ser mais dura do que a ditadura brasileira nesses períodos!

Fonte: O Estado de S. Paulo, 10/03/2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

O ÍDOLO UMBILICAL

Escrevinhação n. 1103, redigida no dia 10 de março de 2014, dia dos Quarenta Mártires de Sebaste, de Santo Emiliano e de São Macário de Jerusalém.

Por Dartagnan da Silva Zanela


A Quaresma é uma época propícia para refletirmos sobre a natureza humana, sobre nossa condição existência. Para cristandade, um tempo de penitência, de sacrifício, onde é mais do que recomendada a prática de jejuns com vista a partilharmos, mesmo que minimamente, dos sofrimentos de Cristo, num gesto de solidariedade para com o Filho do Homem, como nos ensina o Bem-aventurado Papa João Paulo II.

Nesse gesto tão pequeno, com a intenção e o coração voltado para Aquele que, por amor, entregou-se ao madeiro da cruz, aprendemos o quão frágeis somos. Sentimos o quão mísera é nossa força de vontade. Imaginamos, corriqueiramente, que podemos mudar o mundo e que estamos autorizados a corrigir os males feitos por todos como se fossemos deuses (Gênesis III; 4-5). Na verdade, imaginamos muitas coisas. Cremos estar mais do que autorizados para realizar mundos e fundos ao mesmo tempo em que desdenhamos tudo aquilo que devemos realmente fazer.

Mas não queremos ouvir essa conversa. Muitos dizem, soberbamente, que esse papo de penitente é coisa do passado. Ledo engano. A vida humana sempre foi e, sempre será, um rosário de holocaustos, gostemos ou não deste fato. Viver é um ato de sacrifício.

Quando preterimos alguma coisa em preferência de algo estamos realizando um ato de sacrifício. Quando deixamos de realizar alguma coisa o fazemos em favor de algo, ou de alguém, sempre. Por isso, a questão que não pode, e nem deve, ser calada é justamente essa: em nome de que realizamos os pequenos e grandes sacrifícios de nossa vida? Em favor de quem realizamos esses atos?

Engraçado. Abrimos mão de muitas coisas, mas sempre, em favor do grande ídolo da modernidade: nós mesmos. Nosso Baal umbilical. Não é por menos que quando alguém ousa falar da importância da prática do jejum quaresmal, rapidamente surge uma chusma de vozes soberbas gritando e rotulando tal observação como sendo um parvo colóquio retrogrado.

Entretanto, quando o assunto é ficarmos bonitos e sarados, a conversa é bem outra. Abstêm-se, orgulhosamente, de toda ordem de manjares. Fazem-se dietas rigorosamente traçadas, madruga-se cedo do dia, ou estendem-se o itinerário tarde da noite, para modelar o corpinho de acordo com os ditames das doentias formas modais. Detalhe: não vemos nada de ridículo nisso porque tais sacrifícios são feitos em favor da divindade preferencial de nossa vida. É a egolatria em sua radiante majestade.

Por fim, esse é o miserável estado em que nos encontramos. Criaturas embriagadas de amor próprio, incapazes de amar a Deus e ao próximo como se ama a si mesmo.

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[áudio] O ÓCIO

terça-feira, 11 de março de 2014

DESDITOSAS LETRAS

Escrevinhação n. 1102, redigida entre os dias 06 de março de 2014, dia de Santo Olegário e de Santa Rosa de Viterbo, e 11 de março de 2014, dia do Beato João Batista de Fabriano, de São Ramiro e de São Constantino.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. 
O tempo é uma joia preciosa. Uma joia preciosa que, por incrível que possa parecer, não é nem um pouco rara. Aliás, ela existe em abundância, com jazidas que transbordam, aos borbotões, os seus encantos.

E, como tudo o que existe em abundância, o tempo é desperdiçado. Gasto vilmente nas ocupações mais tolas pensáveis e todos esses desperdícios são feitos em nome da satisfação dos desejos mais levianos e fugidios.

Paradoxalmente, o imediatismo que nos agrilhoa consome uma porção significativa de tempo, do nosso tempo, dando-nos a sensação de que ele é escasso e que facilmente se esvai por entre os dedos.

Essa vã ilusão que nos carcome, que nos agonia, apenas encontra acolhida em nosso coração porque esse, em boa parte do tempo, encontra-se fora de centro, fora de nós, agrilhoado aos momentos fugazes que nos afastam sorrateiramente de tudo o que é eterno levando-nos a crer que tudo seja passageiro, mesmo que nosso coração, silenciosamente, grite o contrário de nossos epidérmicos desejos.

2.
Ensina-nos Bento XVI que “diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente, no Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão”.

Quando fechamos nossa alma para a dimensão transcendente da realidade, caímos nas mais rasteiras formas de idolatria. Idolatria da (pseudo)ciência, das ideologias, do dinheiro, do hedonismo e tudo isso muito bem embalado pelo ídolo mor, o relativismo, todo soberbo e orgulhoso. A Torre de Babel dos dias atuais. E, não nos esqueçamos que: “o orgulho e o egoísmo do homem geram sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência”, como nos ensina o Papa Emérito.

Por fim, o que nos falta, e muito, é que abramos nosso coração ao Espírito Santo que, ao contrário das ideologias mundanas, “torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu. O Espírito Santo é Amor. [...] O Espírito Santo ilumina o espírito humano e, revelando Cristo crucificado e ressuscitado, indica o caminho para se tornar mais semelhantes a Ele, isto é, ser expressão e instrumento do amor que d'Ele promana”.

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PEREIRA, Américo. Louis Lavelle - na senda de uma milenar tradição metafísica. [pdf]

[áudio] ESCÂNDALO

A liberdade nas ruas


Há quatro semanas, os estudantes venezuelanos começaram a protestar nas ruas das principais cidades do país contra o governo de Nicolás Maduro. Apesar da dura repressão - 20 mortos, mais de 300 feridos reconhecidos até agora pelo regime e cerca de mil presos, entre eles Leopoldo López, um dos principais líderes da oposição -, a mobilização popular continua firme.

Ela semeou pela Venezuela "Trincheiras da Liberdade" nas quais, além de universitários e escolares, há também operários, donas de casa, funcionários de escritório e profissionais liberais, em uma onda popular que parece ter superado a Mesa da Unidade Democrática (MUD), a organização que abrange todos os partidos e grupos políticos de oposição, graças aos quais a Venezuela não se transformou ainda numa segunda Cuba.

No entanto, é evidente que essas são as intenções do sucessor do comandante Hugo Chávez. Todos os passos que ele deu desde que assumiu o poder que lhe foi ungido, no ano passado, são inequívocos. O mais notório deles, a asfixia sistemática da liberdade de expressão. O único canal de TV independente que sobrevivia - a Globovisión - foi submetido a uma perseguição tal pelo governo, que seus donos tiveram de vendê-lo a empresários favoráveis à situação, que agora o alinharam ao chavismo.

O controle das estações de rádio é praticamente absoluto e as que ainda se atrevem a dizer a verdade sobre a catastrófica situação econômica e social do país têm os dias contados. A mesma coisa ocorre com a imprensa independente que o governo está eliminando aos poucos pela privação de papel-jornal.

Entretanto, embora o povo venezuelano quase não possa ver, ouvir nem ler uma informação livre, experimenta na carne a brutal e trágica situação para a qual os desvarios ideológicos do regime - as estatizações, o intervencionismo sistemático na vida econômica, a perseguição às empresas privadas, a burocratização cancerosa - levaram a Venezuela e essa realidade não pode ser ocultada com demagogia. A inflação é a mais elevada da América Latina e a criminalidade, uma das mais altas do mundo.

A carestia e o desabastecimento esvaziaram as prateleiras das lojas e a imposição do tabelamento dos preços para todos os produtos básicos criou um mercado negro que multiplica a corrupção a extremos vertiginosos. Somente a nomenclatura conserva os elevados níveis de vida, enquanto a classe média encolhe cada vez mais e os setores populares são golpeados de uma maneira cruel que o regime trata de amenizar com medidas populistas - estatismo, coletivismo, distribuição de doações e muita propaganda acusando a "direita", o "fascismo" e o "imperialismo americano" pela desordem e pela queda livre do nível de vida do povo venezuelano.

O historiador mexicano Enrique Krauze lembrava há alguns dias o fantástico desperdício do regime chavista, nos seus 15 anos no poder, dos US$ 800 bilhões que ingressaram no país neste período, graças ao petróleo. Boa parte desse esbanjamento serviu para garantir a sobrevivência econômica de Cuba e para subvencionar ou subornar governos que, como o nicaraguense do comandante Daniel Ortega, o argentino de Cristina Kirchner ou o boliviano de Evo Morales, apressaram-se nos últimos dias em solidarizar-se com Maduro e em condenar os protestos dos estudantes "fascistas" venezuelanos.

A prostituição das palavras, como assinalou George Orwell, é a primeira façanha de todo governo de vocação totalitária. Nicolás Maduro não é um homem de ideias, como percebe de imediato quem o ouve falar. Os lugares comuns tornam seus discursos confusos e ele os pronuncia sempre rugindo, como se o barulho pudesse suprir a falta de argumentos. Sua palavra favorita é "fascista", com a qual ele se dirige sem o menor motivo a todos os que o criticam e se opõem ao regime que levou um dos países potencialmente mais ricos do mundo à pavorosa situação em que se encontra.

Sabe, senhor Maduro, o que significa fascismo? Não o ensinaram nas escolas cubanas? Fascismo significa um regime vertical e caudilhista, que elimina toda forma de oposição e, mediante a violência, anula ou extermina as vozes dissidentes. Um regime que invade todos os aspectos da vida dos cidadãos, do econômico ao cultural e, principalmente, é claro, o político. Um regime em que pistoleiros e capangas asseguram, mediante o terror, a unanimidade do medo, do silêncio e uma frenética demagogia por meio de todos os veículos de comunicação na tentativa de convencer o povo, dia e noite, de que vive no melhor dos mundos.

Ou seja, o que está vivendo cada dia mais o infeliz povo venezuelano é o fascismo, que representa o chavismo em sua essência, esse fundo ideológico no qual, como explicou tão bem Jean-François Revel, todos os totalitarismos - fascismo, leninismo, stalinismo, castrismo, maoismo e chavismo - se fundem e se confundem.

É contra essa trágica decadência e a ameaça de um endurecimento ainda maior do regime - uma segunda Cuba - que se levantaram os estudantes venezuelanos, arrastando com eles setores muito diferentes da sociedade. Sua luta é para impedir que a noite totalitária caia totalmente sobre a terra de Simón Bolívar e não haja volta.

Acabei de ler um artigo de Joaquín Villalobos (Como enfrentar o chavismo)no jornal El País, desaconselhando a oposição venezuelana a adotar a ação direta que empreendeu e recomendando que, ao contrário, espere se fortalecer para poder ganhar as próximas eleições. Surpreende a ingenuidade do ex-guerrilheiro convertido à cultura democrática.

Quem garante que haverá futuras eleições dignas desse nome na Venezuela? Por acaso foram as últimas, nas condições de desvantagem da oposição em que transcorreram, com um poder eleitoral submisso ao regime, uma imprensa sufocada e um controle obsceno da recontagem dos votos pelos testas de ferro do governo?

Evidentemente, a oposição pacífica é o ideal na democracia. A Venezuela, porém, não é mais um país democrático e está muito mais próximo de uma ditadura como a cubana do que são, hoje, países como México, Chile ou Peru. A grande mobilização popular que a Venezuela vive ocorre precisamente para que, no futuro, haja ainda eleições de verdade e essas operações não se tornem rituais circenses como eram as da ex-União Soviética ou são as de Cuba, onde os eleitores votam em candidatos únicos, que ganham com 99% dos votos.

O que é triste, embora não surpreendente, é a solidão em que os valentes venezuelanos que ocupam as Trincheiras da Liberdade estão lutando para salvar seu país e toda a América Latina de uma nova satrapia comunista, sem receber o apoio que merecem dos países democráticos ou desta inútil e carcomida Organização dos Estados Americanos (OEA), que, segundo sua declaração de princípios, que vergonha, deveria zelar pela legalidade e pela liberdade dos países que a integram.

Naturalmente, que outra coisa pode se esperar de governos cujos presidentes compareceram, praticamente todos, em Havana, para a cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e para prestar homenagem a Fidel Castro, múmia viva e símbolo animado da ditadura mais longeva da história da América Latina.

Entretanto, o lamentável espetáculo não deve tirar as esperanças dos que acreditam que, apesar de tantos indícios contrários, a cultura da liberdade lançou raízes no continente latino-americano e não voltará a ser erradicada no futuro imediato, como tantas vezes no passado.

Os povos dos nossos países costumam ser melhores do que seus governos. Ali, estão para demonstrar isso os venezuelanos, assim como os ucranianos, arriscando suas próprias vidas em nome de todos nós para impedir que na terra da qual saíram os libertadores da América do Sul desapareçam os últimos resquícios de liberdade que ainda restam. Mais cedo ou mais tarde, eles triunfarão.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

quarta-feira, 5 de março de 2014

O EMBUSTE ORIGINAL

Escrevinhação n. 1101, redigida no dia 04 de março de 2014, dia de São Casimiro e de São Lúcio I.

Por Dartagnan da Silva Zanela


As estatísticas rezam que todo indivíduo, intencionalmente ou não, em apenas dez minutos de conversa, mente ao menos três vezes. Aliás, o Dr. House partia dessa premissa e seus pacientes e colegas nunca o decepcionaram, pois, reconheçamos ou não, todos mentem. Uns mais, outros menos, mas ninguém escapa desta falha originária.

Entretanto, as razões que levam uma pessoa a praticar esse desvio são as mais variadas possíveis. Tal miséria é abordada de modo instigante por J. A. Barnes em seu livro “UM MONTE DE MENTIRAS – para uma sociologia da mentira”. O assunto não é pouco e os problemas advindos deste dão pano pra manga.

Mas vamos em frente! Cada um de nós emite seu grito, verdadeiro ou não, a partir de um lugar que ocupamos na sociedade que, com maior ou menor intensidade, deixa sua marca em nossa fala. Além desse lugar societal, cada um de nós carrega em seu íntimo o que Antonie de Saint-Exupéry chamava de nossa pátria interior, a qual não podemos jamais renunciar. Esse reino íntimo é o que somos. É onde se vive independente de onde estivermos. De mais a mais, como nos ensina São Tomás de Aquino, em seu livro “Los Mandamientos”, pelas palavras dum homem sabe-se onde é sua pátria.

E é nessa pátria interior que encontramos as razões duma mentira. É neste ambiente solitário que vislumbramos os alicerces do mentir. Tomando essa constatação como pedra de toque, podemos, em resumidas pinceladas, tomar duas categorias classificatórias de farsantes que nos são apresentadas por Santo Agostinho. Diz-nos ele, em seu livro “De mendacio”, que podemos apartar os pilantras em dois grupos: os mentirosos e os embusteiros. Os primeiros seriam aqueles que, conscientes ou não da gravidade de seus atos, procuram sempre tirar vantagem de outrem através de toda ordem de subterfúgios. Esses indivíduos, independente dos pretextos que os levam a fazer o que fazem, são perigosos.

Quando aos segundos, seriam todos aqueles que sofrem do terrível vício de opinar levianamente sobre todo e qualquer assunto sem ter necessariamente parado para estudá-lo, nem para ponderar sobre as palavras que está proferindo. Esses indivíduos falam por falar, opinam pelo mero prazer de serem ouvidos, de estar recebendo um pingo de atenção mesmo essa seja um pífio simulacro de botequim motivado pela vaidade, onde o amor à procura pela verdade não tem lugar.

Ah! E como é difícil reconhecermos a presença dessa mancha em nossa alma. Consideramo-nos informadíssimos e providos de uma aguda consciência crítica. Todavia, se há em nosso coração ainda um pouco de sinceridade que seja, aproveitemos o início da Quaresma para fazer um voto de abstinência em manteria de opinião e ofereçamos essa modesta penitência aos pés da Virgem Santíssima para que o Bendito fruto de seu imaculado ventre nos revele a verdade sobre o nosso maculado coração elevando-nos em Espírito e Verdade para que não mais rastejemos sordidamente por entre embustes e auto-enganos que tanto infectam nossa pátria interior.

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[áudio] AOS JOVENS

terça-feira, 4 de março de 2014

DOLOROSAS LETRAS

Escrevinhação n. 1100, redigida entre os dias 27 de fevereiro de 2014, dia de São Gabriel de Nossa Senhora das dores e de São Leandro, e 04 de março de 2014, dia de São Casimiro e de São Lúcio I.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. 
Todos acreditam serem detentores não de uma opinião, mas de muitas. E essas não seriam apenas um amontoado de palavras minguadas, no entender de seus possuidores, mas sim, fortes expressões advindas da alma dum colosso que livremente opina sobre tudo e sobre todos sem, ao menos, dar-se ao trabalho de conhecer alguma coisa, sem conhecer-se e, inevitavelmente, sem nem mesmo ter ponderado sobre as palavras que foram emitidas por seus lábios.

Sobre o vício do opinar, Machado de Assis, numa das luminosas e cáusticas páginas de sua obra “Papéis Avulsos”, diz-nos: “Se uma coisa pode existir a opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”.

Não é à toa que nosso país a cada dia que passa mais e mais se assemelha com um manicômio dirigido por um bando de loucos mal disfarçados de lúcidos doutos.

2. 
Sinto-me derrotado. Uma batalha seguida da outra. Uma queda sobrepondo-se à outra. E vejo diante de mim a guerra continuar. Ouço, ao longe, o anuncio duma multitude de pelejas para serem lutadas. Pelejas essas inglórias. Todas.

Às vezes dá vontade de entregar as armas e hastear uma bandeira branca. Admito que em muitas ocasiões invada meu ser um desejo incontrolável de render-me.

Confesso que quando tal cobardia viceja meu íntimo, no mesmo instante, incendeia em meu coração uma força irascível ciosa por invadir as vistas de meus antípodas com a infantaria de verdades que eles tanto desejam silenciar em minha alma. Infantaria que jamais irão calar em meu tinteiro.

A peleja continua, porque um homem pode até ser derrotado, mas jamais destruído. Jamais.

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EU SOU O DO POSTE

Por Paulo Briguet

Agora que a poeira baixou, posso voltar ao assunto. Se visse aquele rapaz amarrado no poste com uma tranca de bicicleta, provavelmente eu o ajudaria. Daria a ele um pouco de água e ficaríamos conversando em voz baixa até a chegada da polícia. Qual o seu nome, rapaz? Quantos anos tem? Por que estava assaltando? Acredita em Deus? Ouviu falar em Jesus Cristo? Já olhou para o mar? Talvez rezássemos.

E não faria nada disso porque sou bonzinho. Sei que não passo de um pecador miserável. Conversaria com o rapaz só porque não consigo agir de outra maneira; porque meu pai me ensinou assim. Não posso ver ninguém sofrendo sem me lembrar de algo que aconteceu há muito tempo.

O Cristianismo existe para defendermos as vítimas, os fracos, os pobres, os solitários, os perdidos, os injustiçados. Por isso mesmo, foi igualmente vergonhoso o linchamento moral que se seguiu ao episódio do rapaz amarrado com a tranca da bicicleta. Para vingar o acontecimento, a militância eletrônica decidiu amarrar uma jornalista ao poste ideológico e violentá-la sem dó. A nenhum desses supostos indignados ocorreu que as pessoas podem ter amarrado o adolescente ao poste porque estavam com medo dele; porque não aguentavam mais ser assaltadas; porque ele é perigoso com as mãos livres.

Cristianismo não é coitadismo. Não se trata de criar uma legião de inimputáveis, isentos de qualquer de qualquer responsabilidade e livres para reincidir no mal. Cristo diz: “Ame seus inimigos”. Mas nunca disse: “Não tenha inimigos”. Quem ama o bem deve odiar o mal com todas as forças.

Engana-se quem acha que a atitude cristã se encerra com o perdão; o perdão é só o começo. Ao pecador, não cabe apenas arrepender-se, mas também realizar uma completa mudança de vida, renegando e expiando todo o mal antes cometido. “Vai e não peques mais.”

Hoje em dia o filho pródigo volta a dilapidar os bens do pai; a mulher adúltera insiste em pecar de novo na primeira esquina; e os mensaleiros presos querem continuar mandando na gente. É dever de todo cristão perdoar aquele que erra não duas, mas 490 vezes. O problema é que os pecadores modernos apreciam a parte do perdão, mas rejeitam a parte da expiação.

O rapaz preso no poste voltou a cometer assaltos uma semana depois do episódio. Quando vieram prendê-lo, ele disse: “Eu sou o do poste! Eu sou o do poste!” Lembrei-me do mensaleiro que, ao ser preso na Itália, evocou o nome do irmão e de um companheiro petista mortos: “Eu sou o Celso! Eu sou o Celso!” No Brasil, hoje estamos todos amarrados àquele poste. E o nome do poste é mentira.

[áudio] FÉ, AMOR E VERDADE - parte II

SÃO LUIZ MARIA GRIGNION DE MONTFORT. TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À VIRGEM MARIA. [pdf]

segunda-feira, 3 de março de 2014

[áudio] FÉ, AMOR E VERDADE - parte I

181. 8º Domingo do Tempo Comum - Não vos preocupeis

Apontamentos sobre um bestiário — Olavo de Carvalho e “O imbecil coletivo”



Todos os que militaram na esquerda sabem o quanto Olavo está certo; sabem que tal contradição é reconhecida e exaltada, nas fileiras esquerdistas, com o descaramento típico dos que se consideram acima do bem e do mal – e, principalmente, acima de todos os seus semelhantes.


Passados quase vinte anos desde sua primeira edição, esgotado há pelo menos um triênio, O imbecil coletivo, de Olavo de Carvalho, continua a constranger e afrontar a intelligentsia esquerdista nacional, que se mostrou, até o momento, incapaz de realizar um debate à altura das proposições olavianas, preferindo encaramujar-se na mudez aparente, por meio da qual recusa o debate franco mas porta-se como velha alcoviteira.

Envolver seus oponentes num halo de silêncio e desprezo ou refutá-los utilizando argumentos ad hominem – nessas duas atitudes pusilânimes resume-se a estratégia da esquerda para derrotar aqueles que não rezam segundo o catecismo marxista-leninista. Veja-se, por exemplo, o tratamento ministrado a Gilberto Freyre durante décadas, o esquecimento a que se condenou Álvaro Lins (depois de abandonar o catolicismo, tornou-se marxista, mas nunca se submeteu a ditames partidários) e as críticas que Wilson Martins recebeu depois de morto, como a de Flora Süssekind, que propôs “matar mais uma vez” o crítico literário.[1] Em todos esses casos, contudo, as estratégias esquerdistas funcionaram apenas temporariamente: o reconhecimento de Freyre não pára de crescer; Lins volta a ser, gradualmente, estudado pelos jovens; e os sete volumes de A história da inteligência brasileira, de Martins, receberam nova edição, revista e atualizada, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Veritas filia temporis, non auctoritatis [2] diziam, com razão, os antigos.

O caso de Olavo de Carvalho não é diverso. E os leitores encontrarão, no Imbecil coletivo, as reações folclóricas e risíveis que ele provocou: ninguém se propôs, repito, ao debate aberto, adulto – e, mais uma vez, o garrote de silêncio e ataques pessoais foi colocado em ação. O que a esquerda não esperava, entretanto, era, primeiro, deparar-se com um pensador de rara coragem, capaz de alardear suas fundamentadas críticas e acusações num tom de voz que se amplia na exata medida dos ataques sofridos, e, segundo, a massa de alunos, admiradores e amigos que Olavo granjearia, formando o vagalhão que hoje se espraia graças a seus inúmeros livros, às aulas do Seminário de Filosofia,[3] aos cursos que ministra, a cada semestre, na Virgínia (EUA), aos artigos semanais no Diário do Comércio, ao Mídia sem Máscara,[4] ao programa True Outspeak [5] e, de forma geral, à Internet, recurso que, infelizmente, outros críticos do pensamento esquerdista não conheceram ou não souberam aproveitar.

Esse trabalho intenso e diversificado só se concretizou porque Olavo de Carvalho é incansável estudioso, como ele próprio relata no ensaio autobiográfico “Memórias de um Esquisitão, ou: O Estado de Coisas”, presente no Imbecil:

Estudei, pois, e estudei muito, tão-somente em vista de compreender alguma coisa deste mundo, e eventualmente do outro, sem a menor pretensão de usar meus conhecimentos para me tornar aquilo que se convencionou denominar alguém.

Urso na toca, mantive-me por trinta anos entre livros e uns poucos amigos, ensinando em cursos privados, sem sentir a menor falta daquela tagarelice colorida que se entende por vida cultural.

Hábito que permanece inalterado e que ele transmite a seus alunos: afastar-se das panelinhas e estudar, estudar, estudar. Não há outra forma de se contrapor às falsas filosofias e ao manto de cinismo e mentira com que a esquerda pretende cobrir cada centímetro da realidade.

Fissura moral
Olavo de Carvalho não se assemelha a Euclides da Cunha, que se definia “como certos pássaros que, para desferir vôo, precisam de trepar primeiro a um arbusto. Abandonados no solo raso e nu, de nada lhe servem as asas; e têm que ir por ali afora à procura do seu arbusto”.[6] Mas apesar de pertencer ao grupo de escritores admirados pelo autor de Os Sertões, os “espontâneos”, que não dependem de “arbustos” – a expressão que Euclides utilizou para se referir a “fatos” –, elabora alguns dos ensaios presentes no Imbecil a partir do que se encontrava, à época da primeira edição, nas páginas dos jornais, ou seja, a partir do material que, difundido graças à cumplicidade midiática, influencia e muitas vezes condiciona as mentes incapazes de elaborar juízos críticos, sempre prontas a aderir aos modismos.

Suas análises, contudo, extrapolam o que poderíamos chamar de “crítica cultural” – e exatamente por esse motivo o livro provoca reações apaixonadas: os “arbustos” em que Olavo se apóia são apenas uma desculpa para expor os vícios de certa intelectualidade. Ele disseca o acordo tácito por meio do qual concentra-se “obsessivamente a discussão em certas correntes de idéias, para bloquear ao público o acesso às outras” – acordo, aliás, que é um “método elegante de censura prévia, que dá ao mais tirânico dirigismo mental a aparência de uma discussão democrática”. Expõe, a partir da análise das idéias de Christopher Lasch, a existência dessa “nova elite dominante no mundo”, insatisfeita em apenas uniformizar o pensamento e disposta a “reinventar o mundo à sua imagem e semelhança, doa a quem doer”, o que ela chama de “engenharia social”. Após desmontar o pensamento do próprio Lasch, apresentando-o como péssimo leitor de Ortega y Gasset, enfurece a intelligentsia, “hordas de filhinhos de papai”, desnudando cada perniciosa moda transmitida como se representasse um valor universal, cada erro de avaliação referendado pela mídia como filho do brilhantismo, da genialidade. Vira no avesso a lógica deformada que rege os intelectuais tupiniquins, apresentando-a na sua faceta mórbida por meio de uma tese inovadora: a classe cujo único referencial é a mudança política suportou a ditadura militar desprezando a criação de novas formulações, entregue à confusão existencial, à

perda completa do sentido da vida, justificando todas as me­didas desesperadas, todas as loucuras, todos os aca­nalhamentos. [...] Não sabendo viver sem política, a classe letrada encontrou na ditadura o pretexto para legitimar a sua auto-indulgência. A esterilidade cultural do período foi depois inteiramente lançada à conta dos débitos da ditadura. A alegação pareceu verossímil a um público desprovido de pontos de comparação.

Incapaz de encontrar “valor e sentido no trabalho da inteligência fora das finalidades políticas imediatas”, restou à esquerda a inversão de valores que cansamos de presenciar: uma intelectualidade impregnada de “rancoroso preconceito contra o highbrow, de um populismo demagógico que não distingue entre letristas e poetas, jornalistas de idéias e filósofos, repórteres e historiadores, e que toma Gilberto Braga por Honoré de Balzac”. A síntese olaviana, presente em uma das notas de rodapé, tem o peso do veredicto inquestionável, em benefício do qual só surgiram novas e contundentes provas de 1996 para cá: “Um país que publica as obras completas de Antonio Gramsci, Carl Gustav Jung ou Simone de Beauvoir antes de possuir sequer uma tradução integral de Platão e Aristóteles, é que aposta muito mais na superfície do dia do que nas correntes profundas da História”.

Muito além do “pacto sagrado de badalação mútua ou pelo menos da mudez cúmplice que dá direito a prêmios, cargos, verbas e honrarias”, nossos intelectuais “dissolveram todo o senso de responsabilidade pessoal na poção mágica da ‘responsabilidade social’”: ou seja, há uma rachadura moral – “rachadura escondida no fundo da consciência”, diz Olavo – no comportamento desses heróis midiáticos, desses clowns ideológicos cujo cinismo é cultuado como um gesto revolucionário. O filósofo explica:

Há na alma de cada um desses homens uma parte que não se compromete com o pathos moralizador exibido em público; uma parte que olha tudo isso com frieza e ironia, e que desmente, por dentro, a convicção enfática dos gestos e palavras. Essa parte é a sua consciência crítica, que, formada numa tradição de materialismo histórico e relativismo sociológico, não pode levar integralmente a sério os valores morais.

Todos os que militaram na esquerda sabem o quanto Olavo está certo; sabem que tal contradição é reconhecida e exaltada, nas fileiras esquerdistas, com o descaramento típico dos que se consideram acima do bem e do mal – e, principalmente, acima de todos os seus semelhantes. A mente revolucionária torna-se um nada se abdicar dessa arrogância, dessa fissura ética, da qual se lembra apenas quando o malefício vem bater à porta. Um dos melhores exemplos da quinta-essência da mente revolucionária é o brado de Nikolai Bukharin, comemorando o terror stalinista: “Existe algo de grandioso e ousado na idéia de um expurgo geral”, ele dizia, febril, sedento de sangue. Logo depois, preso pelo monstro que ajudara a criar, escreve um bilhete a Stalin: “Koba, por que precisa que eu morra?”. É curioso que tal pergunta não lhe tenha surgido quando celebrava as mortes ordenadas pelo colega de partido... Mas assim se comporta a esquerda: os valores morais são úteis somente para salvar a própria pele.

Mentalidade amoral, esquematismo de pensamento, nacionalismo tacanho – o acertado diagnóstico de Olavo comprova que só poderíamos desembocar, necessariamente, no vazio metafísico:

No Brasil, as correntes metafísicas jamais chegaram a penetrar além da superfície. O pla­tonismo, o racionalismo clássico de Descartes e Leibniz, o idealismo alemão, a ontologia fenomenológica de Hartmann, isto para não falar da metafísica tradicional hindu ou chinesa, permaneceram para nós uma referên­cia exótica, muito distante das preocupações reais da intelectualidade, a cuja demanda de explicações as ciên­cias sociais pareciam fornecer uma resposta mais prática e ao alcance da mão. Daí que o sociologismo, positivista e depois marxista, tenha se tornado o molde e cadinho onde se formaram as idéias e inclinações dominantes da nossa intelectualidade.

Conclusão que, em outro trecho, surge exposta sob nova forma, referindo-se exclusivamente à produção intelectual da Universidade de São Paulo (USP):

Façam o que fizerem, andem por onde andarem, os cérebros uspianos estarão sempre girando em torno do valor, da alienação, do capital, e de todas aquelas palavras mágicas que, nascidas para a descrição de um fenômeno histórico local e passageiro, são infladas em seguida até se constituírem em chaves, princípios e critérios de ilimitado alcance ontológico, dos quais se pode esperar licitamente a explicação de tudo quanto existe sob o Sol e acima dele, bem como dentro e em torno.

Entre a síntese e a veemência
O período acima demonstra também a qualidade estilística do texto olaviano: no trecho de pontuação correta, idéias se sucedem, sobrepondo camadas de sentido que clarificam o núcleo do pensamento até alcançar as últimas palavras, hiperbólicas exatamente para expressar ironia.

Olavo de Carvalho também produz frases lapidares, que arrematam a discussão e permanecem como juízos empolgantes, principalmente num tempo como o nosso, em que os intelectuais temem as certezas, fogem do texto assertivo, inclinam-se à inanidade ou à ataraxia:

Uma cultura em que as regras de bom-tom são mais relevantes do que a veracidade intrínseca dos argumentos é uma cultura moribunda

– ele afirma, construindo o aforismo que tem o impacto de uma bofetada. Safanão que se repete ao concluir um raciocínio sobre nossos intelectuais:

Volúveis e inseguros, esfalfam-se por acertar o passo com as badaladas do relógio da moda, esse eco da História que tomam pela História mesma.

E ninguém, em sã consciência, poderá contestar a verdade que Olavo resume nestas linhas:

Um povo, para ter independência mental, não precisa ter nenhum novíssimo e extravagante esquema de percepção sacramentado pela moda filosófica européia e norte-americana. Precisa apenas ter a coragem de raciocinar.

Utiliza semelhante tom afirmativo para explicar a quem se refere, afinal, o título deste livro; sem dispensar, é claro, o meio sorriso:

O imbecil coletivo não é apenas a soma de um certo número de imbecis individuais. É, ao contrário, uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior, que se reúnem com a finalidade precípua de imbecilizar-se umas às outras e obtêm nisto um razoável sucesso.

Sua habilidade para a síntese, contudo, apenas anuncia o que ele pode fazer num longo período. Veja-se este trecho pleno de irreverência, por vezes agradavelmente coloquial, mas sem contemporizações ou platitudes:

[...] o Brasil é o único país do mundo onde a filosofia é uma especialização, dispensável para os intelectuais de todos os outros ramos, e onde – numa espécie de perversão complementar – um diploma de bacharel em filosofia dá direito ao título de “filósofo”. Isto produz nos ambientes letrados um estranho cacoete burocrático: quando sou apresentado como filósofo, logo o interlocutor me pergunta em que departamento estou, quem é meu chefe, se sou efetivo ou contratado, e outras coisas por este gênero, que subentendem ser a condição de filósofo um tipo de cargo público. Um ar de profunda consternação esboça-se no rosto do interrogante quando respondo que não estou em parte alguma, não tenho chefe nem subordinados como aliás não os teve o bom Sócrates, nada entendo de planos de carreira e, quanto a títulos, só os tive no protesto, graças a Deus resgatados a tempo. Explico então, mais que depressa, que não sou filósofo não, apenas um escritor de livros que, por mera coincidência, tratam de filosofia, professor em cursos privados que, dada a minha carência de outros conhecimentos, tratam também de filosofia, e proprietário de um cérebro que, por absoluta falta de outros interesses, se ocupa de filosofia obsessivamente e em tempo integral. Ao ver-me reconhecer que todas essas coisas não bastam para me fazer um filósofo – condição funcional reservada àqueles que, sem nunca terem escrito livros de filosofia, proferido cursos de filosofia ou pensado em problemas filosóficos por um único instante, bocejaram aplicadamente por quatro anos num cursinho universitário –, o interlocutor parece sentir-se aliviado. Mas por dentro fico me perguntando quando uma similar identificação funcional começará a ser exigida aos poetas, aos santos, aos heróis, os quais formam, com o filósofo ou aspirante a sábio, a quaternidade das formas superiores de existência, que nós outros, passadistas empedernidos, imaginávamos irredutíveis a qualquer carimbo de identidade profissional.

E ainda este outro exemplo, delicioso período anafórico no qual podemos ouvir o tom candente de um professor que fala ex cathedra:

Mesmo antes do advento do mundo moderno e do “intelectual” ou retórico puro que constitui a sua figura dominante, já era a retórica a fonte do poder. Quem transformou a Igreja em força polí­tica não foram os teólogos especulativos, mas os pregadores. A Europa já estava toda cristianizada pelo verbo candente dos apologistas quando, sécu­los mais tarde, se organizou com Alberto e Tomás o corpo doutrinal da teologia aristotelizante, que após enfrentar muitas resistências veio a ser aceita como doutrina oficial da Igreja no século XIX (!), e à qual no entanto Maranhão,[7] com a mais completa ignorância do assunto, atribui “vinte séculos de repressão da verdade”. É a retórica de S. Bernardo – e não a teologia de Tomás ou de quem quer que seja – que leva a Europa à aventura das Cruzadas, da qual sai menos cristã do que quando entrou. É a retórica que acende as fogueiras da Inquisição e é a retórica que, ao apagá-las, aproveita para afogar num banho de calúnias a filosofia escolástica, à guisa de bode expiatório. É a retórica de Hobbes e Bodin que, contra o poderio papal, ergue os fun­damentos da monarquia absoluta, e é a retórica que volta as massas contra a monarquia absoluta, lan­çando as culpas dela à conta da Igreja que fora em verdade sua primeira vítima. A retórica move o mundo desde sempre, e, se ele vai para o abismo, é levado pelos retóricos. Pelos retóricos, e não pelos teólogos, pelos filósofos, pelos homens de ciência, pelos contemplativos e indagadores da verdade. Mesmo a força das armas permanece adormecida e inofensiva se não é despertada por uma boa retó­rica. É preciso ser um completo desconhecedor da História — ou então um rematado mentiroso, coisa que não creio que Maranhão seja — para vir agora nos oferecer o império da retórica como uma novi­dade e como uma via de salvação. Esse império é quase tão velho como o mundo. Ele começa na­quele dia em que o primeiro retórico apostou na eficácia persuasiva do primeiro símile: “Sereis como deuses...”. Não há como deixar de reconhecer um eco distante dessa proposta no momento em que o homem de marketing vem nos oferecer o livre mer­cado das idéias como uma proteção contra a “tirania da verdade”. Pois toda idéia que não se submeta de bom grado a essa “tirania” não vale nada: é pura retórica.

Literatura e mediocridade
Décadas de governo esquerdista infligem ônus avassalador à cultura, extremam tentativas de controle ideológico. É o que vemos hoje, inclusive no crescente movimento para transformar Lima Barreto num escritor que mereça ser equiparado aos maiores da língua portuguesa. A crítica que não admite matizações trata o autor de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá como um gênio: endeusa até mesmo seu alcoolismo e seus eternos ressentimentos. Mas, em 1996, Olavo de Carvalho anunciava essa inversão de valores:

Já houve quem, preferindo a simples nacionalidade dos temas à grandeza consumada de um clássico, pretendesse destronar Machado de Assis para colocar em seu lugar Lima Barreto, um escritor muito bom, sem dúvida, mas cujas realizações ficam obviamente aquém das promessas.

O próprio major Quaresma – protagonista de Triste Fim de Policarpo Quaresma –, hoje visto, por alguns exaltados, como símbolo do melhor idealismo, nacionalista de esquerda circundado de estúpidos, sonhador corajoso e pueril, recebe de Olavo a análise correta:

[...] o Major Quaresma é ao mesmo tempo, e inseparavelmente, um estudioso autêntico e um pseudo-intelectual – um herói trágico e uma caricatura. Seu empenho científico é tão genuíno quanto a vocação literária de Isaías Caminha; e sua visão do mundo, viciada pela estreiteza da mania nacionalista, é tão falsa quanto a identidade profissional do “homem que sabia javanês”. É precisamente a sinceridade da falsa consciência que singulariza o Major e faz dele a epítome da intelectualidade brasileira.

Nesse empenho para exaltar Lima Barreto, nossos críticos só aprimoraram suas próprias caricaturas, incorporaram ainda mais a “falsa consciência” apontada pelo filósofo.

Olavo de Carvalho salienta também outros dois desvios, cada vez mais presentes em nossos estudos literários: a regra imperiosa de que a obra de ficção seja, antes de tudo, “‘nacional’ na linguagem e nos temas”, pouco importando se é “bela, profunda e verdadeira”; e o vício ufanista de utilizar critérios estéticos condescendentes, tornando o medíocre genial apenas para criar, à força, um corpus que ocupe largo espaço nas bibliotecas – e impressione o senso comum ou os desavisados:

[...] nossos educadores julgam muito natural impingir aos jovens a leitura de Joaquim Manuel de Macedo, de Bernardo Guimarães e de toda uma plêiade de autores de segunda ou terceira ordem, por serem tipicamente nacionais, ou típicos da formação histórica nacional, ao mesmo tempo em que se omite da educação literária qualquer menção a escritores de valor muito mais alto, como Da Costa e Silva, por ser muito grego, José Geraldo Vieira, por ser excessivamente português, ou Hilda Hilst, por não ter raízes em nenhum lugar conhecido no sistema solar. 

Não é estranho, portanto, que nossa literatura contemporânea mostre-se incapacitada, em grande parte, para tratar de questões universais, presa, com raras exceções, ao exercício de descrever a banalidade da vida por meio de uma linguagem igualmente banal, mas que alguns escritores e críticos crêem, erroneamente, ser a melhor expressão de alguma suposta vanguarda. Não haveria outro caminho para um país em que se cultua a mediocridade em nome de critérios externos à própria literatura, apenas para dar vida a um projeto de nacionalismo exacerbado de forma estrábica pela Semana de 22. 

Seres excêntricos 
Longe de ser análise exaustiva de O imbecil coletivo, este breve ensaio almeja entusiasmar o leitor a empreender o percurso proposto pelo filósofo: perscrutar o Brasil dando as costas, inicialmente, às escolhas diárias que a mídia impõe; depois, não “julgar o passado com os olhos do presente – o mais volúvel dos juízes –, mas [...] julgar o presente à luz do passado; à luz das suas esperanças, sobretudo, que são às vezes o mais temível testemunho contra a arrogância do presente”. 

Se conseguirmos olhar a realidade a partir dessa inversão extraordinária, os personagens que surgem no Imbecil coletivo, alguns ainda pontificando na vida do país, assumirão sua verdadeira natureza: raríssimos com inteligência própria; a maioria, seres excêntricos, exemplos estapafúrdios ou nocivos do pesadelo nacional, dignos de constar num bestiário de monstros híbridos ou espécimes abomináveis apenas porque grunhem suas mentiras sob o comando justo e rigoroso de Olavo de Carvalho.


Notas:
[1] “A crítica como papel de bala”, jornal O Globo, 24 de abril de 2010, disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/04/24/a-critica-como-papel-de-bala-286122.asp.

[2] A verdade é filha do tempo, não da autoridade.

[3] http://www.seminariodefilosofia.org/.

[4] http://www.midiasemmascara.org/

[5] http://www.blogtalkradio.com/olavo.

[6] Luso, João. “Dominicals”, Jornal do Comércio, 22 de agosto de 1909. Apud Rabello, Sylvio. Euclides da Cunha, Capítulo VI, Editora Civilização Brasileira/INL/Fundação Nacional Pró-Memória, 3ª edição, RJ, 1983.

[7] Refere-se a Jorge Maranhão e ao livro de sua autoria, Mídia e Cidadania. Faça Você Mesmo, publicado pela Editora Topbooks em 1993.

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