A SATISFAÇÃO AMARELADA

Escrevinhação n. 1085, redigida no dia 06 de janeiro de 2014, dia de Reis.

Por Dartagnan da Silva Zanela


J. R. R. Tolkien, em uma de suas epístolas, ensina-nos que devemos compreender o bem nas coisas para detectar o verdadeiro mal. Quem apenas conhece a face e o amargor do mal, de fato, não o conhece. Apenas o vive como sua segunda pele sem compreender com a devida clareza a real natureza de seus gestos e atos.

É a isso que F. Schuon se referiu quando afirmou que o mal é fruto da ignorância. O mal, em suas mais variadas formas e gradações advém do desconhecimento da natureza do bem. É no contraste de um com o outro que a verdade nos é revelada.

E evitamos o contraste porque a confrontação com a realidade nos deixa, inevitavelmente, desconfortável, arrancando-nos de nossas cômodas convicções que, por ignorância, acreditamos ser o bem, simplesmente porque sentimo-nos satisfeitos conosco mesmo.

Obviamente que tal falta de saber não nos exime da responsabilidade moral frente nossas obras diretas e indiretas, haja vista que em muitíssimas ocasiões preferimos ignorar o bem em nome do mal que satisfaz nossa fraqueza.

Vale lembrar que apenas idiotas vivem satisfeitos consigo. E idiotas são pessoas muito perigosas, principalmente por imaginarem que são inocentes. Perigosas porque os demais crêem que eles são apenas o que são: idiotas. E é justamente com uma massa dessa estirpe que são feitas as grandes tragédias da história. É com esse material amorfo que se dá forma às sangrentas revoluções paridas em nome do fugidio mundo melhor possível e sua etérea justiça social.

E não há nada mais volátil e facilmente manipulável que o desejo de sentir-se satisfeito. É fácil instigar a insatisfação. E assim o é por ignorarmos o bem que se faz presente em cada situação por enxergarmos apenas o que queremos que seja o bem.

No fundo não passamos de míseros interesseiros que acreditam que os nossos interesses miúdos sejam o sumo bem de toda nação.

Por fim, somente o fato de estranharmos essas palavras, de não entendermos que há uma diferença cabal entre o que seja nossa satisfação pessoal e o que seja o bem comum, demonstra o quanto ignoramos e desconhecemos a natureza do bem.

Pior! É com essa visão que participaremos de mais um ano eleitoral para escolhermos aqueles que irão zelar e cultivar o bem comum. Bem tão comumente ignorado por todos nós, eleitores e candidatos.

Pax et bonum
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