ENTRE O ORÁCULO E O SERMÃO

Escrevinhação n. 1072, redigida no dia 03 de dezembro de 2013, dia de São Francisco Xavier.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Deus nos convida, a todo o momento, a refletirmos sobre a nossa jornada por esse vale de lágrimas. Aliás, como nos lembra São Clemente de Alexandria, a filosofia é o pedagogo que nos leva ao Cristo. Tal observação pode parecer estranha para muitos, porém, esquisito mesmo é nosso estranhamento diante dessa observação.

Sócrates era um homem devoto, e filósofo pela mesma razão. Quando lemos os diálogos platônicos não são poucas as passagens em que se evidencia a piedade religiosa de Sócrates. Por exemplo: na “República”, a narrativa inicia com a ida de Sócrates ao Pireu onde ele ofereceu suas preces a Deusa Ártemis.

Mas o ponto central de sua vida, como todos sabem, é quando lhe foi comunicado que o Oráculo de Delfos declarou que o homem mais sábio da Grécia era ele. Essa declaração gerou em sua alma uma tensão singular que definiu sua jornada. Na ocasião, ele já era um homem feito e, tal anúncio, levou-o a realizar um exame de sua vida para ver se reconhecia em sua pessoa alguma forma manifesta de sabedoria. Nada encontrou. Estava cônscio de que ele era uma pessoa como outra qualquer, sem nada de especial.

Todavia, Deus não mente. O anúncio do oráculo de Apolo é divino, logo, deveria haver alguma sabedoria nele que lhe era desconhecida e que, agora, ele tinha o dever de encontrar. É essa tensão que gera a jornada filosófica trilhada por esse distinto homem: o reconhecimento da nulidade de sua pessoa e a confiança na palavra celestial que lhe foi revelada como sendo uma missão existencial, um dever que apenas ele pode cumprir.

Essa tensão é análoga a primeira bem-aventurança apresentada no Sermão da montanha (Matheus V; 3), onde a Sabedoria encarnada nos diz: “bem-aventurados os pobres de espírito porque a eles pertence o reino dos céus”. Ora, para que o Espírito Santo possa infundir em nossa alma a Sabedoria (o reino dos céus) é necessário que nos empobreçamos do espírito mundano, das opiniões, dos sentimentos desordenados, enfim, que abandonemos tudo aquilo que imaginamos saber sem nunca termos aprendido.

Tudo isso, junto e misturado, tolhe nossa percepção da realidade por permitirmos ser habitados por palavras demasiadamente vazias que utilizamos levianamente para ostentar uma sabedoria de papelão.

Por essa razão que Sócrates, aquele que procurava a Verdade, foi condenado pelos “sábios” de sua cidade. Pelo mesmo motivo Cristo, a Verdade que se fez carne e veio ao nosso encontro, foi sacrificado pelos “doutos”. E é por essas e outras que não há filosofia quando não somos capazes de sacrificar nosso orgulho que, o tempo todo, nos instiga a nos colocarmos acima de Sócrates e no lugar de Cristo sem ao menos sabermos quem realmente somos.

Pax et bonum
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