PEDRINHAS NA ALGIBEIRA

Escrevinhação n. 1069, redigida entre os dias 19 de novembro de 2013, dia de Santa Matilde de Hackeborn e de São Roque Gonzales e companheiros mártires, e 25 de novembro de 2013, dia de Santa Catarina de Alexandria.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. Não quero mudar o sistema. Nem tenho planos para um mundo melhor. Tenho planos para mim, para tentar, na medida do possível e nos limites do impossível, corrigir esse mentecapto inveterado que habita esse mundo e navega sem rumo pelas linhas turvas do sistema. Sim, há muitas injustiças no mundo e o sistema que rege essa desafinada orquestra societal não colabora com realização da justiça. Ninguém nega isso e não serei eu o primeiro a fazê-lo. O que digo é que eu não peço, de modo algum, a Deus que me dê meios e poder para corrigir o mundo, porque eu não sou melhor do que a imagem que invade minhas vistas. Na verdade, estou bem abaixo e entregar os destinos de milhões de almas em mãos tão ineptas é algo temeroso por demais. Contento-me em estender minhas trêmulas mãos àqueles cuja face clama por um gesto de amor. Imagino que as alminhas revolucionárias nunca pararam pra pensar nisso e, por essa razão, são o que são: uma massa bufa, desalmada, que dissimula excelsas intenções.

2. Renato Rabelo, em discurso proferido no XIII Congresso do PC do B, afirmou que o regozijo manifesto pela sociedade brasileira frente à prisão dos [companheiros] mensaleiros, e a condenação em si dos mesmos, seriam reminiscências dos idos da inquisição. Ora, a alegria manifesta se deve a um reles sentimento de alma lavada, júbilo partilhado por todas as pessoas que ganham o pão de cada dia com o seu labor. Somente canalhas confessos e inconfessos não se indignam com a imoralidade pública de nosso país (independente da cor ideológica). De mais a mais, o senhor Renato Rabelo deveria louvar aos céus pelo fato da prisão dos [companheiros] mensaleiros ser numa prisão da polícia federal brasileira. Isso mesmo! Ele deveria lamentar se os mensaleiros tivessem sido presos em algo similar a um Gulag soviético, ou a um “Campo de reeducação” chinês, ou a uma prisão da República Democrática da Coréia do Norte (ditadura que seu partido tanto louva), ou um Campo de prisioneiros do Kimer Vermelho no Camboja, ou algo similar a prisão de La Cabaña em Cuba. Por fim, como nos ensina o brocardo popular: errar é humano, reconhecer nossos erros chamar-se caráter.

3. Vivemos na era do medo. Não me refiro ao medo advindo da criminalidade, dos atentados terroristas, da insegurança no transito e da Gripe do porco, da galinha e do tigre. Vivemos hoje numa época em que temos medo de ser sinceros para com os outros e, principalmente, para conosco mesmo. Vivemos um tempo em que as pessoas se borram nas calças de medo de falar e ouvir a verdade. E essa distinta dama é temida porque, necessariamente, ela nos chama para a realidade e, conseqüentemente, nos revela todas as nossas culpas que tanto nos esforçamos em nos esquivar e, principalmente, para fingirmos que elas nada têm para nos dizer. Ora, uma vida sem culpas é uma vida vivida pela metade. É a encarnação da irresponsabilidade, um monstro sem coração com a percepção tolhida pelo sacrifício da verdade em favor da vaidade e dos mais rasteiros desejos advindos dela. Tal é estado de nossa época tomada e governada pelo medo da verdade.

4. Não passamos de reles mendigos ingratos. Essas palavras da lavra de Leon Bloy retratam piamente a nossa mesquinha condição humanamente decaída. Temos nossos olhos por demais fintados nos momentos imediatos e em nosso umbigo, julgando o valor de tudo e de todos de acordo com a serventia que tenham para nós e não de acordo com a devida medida que é cabida a cada um e a cada coisa. Muitas pessoas nos servem. Gentilmente ou não, lá estão elas a nos servir e nós, em retribuição, apenas nos servimos delas como se tudo e todos tivessem o dever fundamental de estar ao nosso dispor. Os humildes diriam simplesmente que o que há nessas almas é ruindade pura e simples. Não tenho como discordar. Pensando bem, nada tenho para acrescentar. A ruindade nos cega. Ela nos faz crer na pífia ideia de que somos o centro da realidade e, deste modo, imaginamos que com apenas um estalar de dedos devemos ser atendidos, como se tudo e todos tivessem sido criados para nos servir. Nunca cogitamos que, uma vez ou outra, só pra variar, poderíamos servir aqueles que, gentilmente ou não, nos estendem a mão e os braços.

Pax et bonum
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