RECADOS EM GARRAFAS VELHAS – parte II

Escrevinhação n. 1052, redigida entre os dias 01 de outubro de 2013, dia de Santa Terezinha do Menino Jesus, e 03 de outubro de 2013, dia de Santos Veríssimo, Máxima e Júlia [mártires], São Francisco de Borja, Santa Maria Josefa Rossello, entre outros.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. Estou convencido! Quando mais em uma sociedade se fala da importância do ato de ler, menos os seus membros cultivam o referido hábito. Diria até que tal evocação diária da dita importância da leitura reflete apenas um comportamento fetichista e nada mais. Um simulacro de moralidade postiça que serve apenas para encobrir a vergonha coletiva perante o indigno assassinado incruento do virtuoso hábito. 

2. Dói! Como dói ter de ouvir esse trololó de que a geração mais tenra não lê porque é preguiçosa, que é isso e aquilo. Conversa pra boi dormir! Quem vê esses caras pálidas falando pelos cotovelos sobre a pobreza cultural da rapaziada imagina que eles sejam exímios amantes das letras. Aliás, creio que nem imaginam, visto que, dum modo geral, no Brasil finge-se amar o conhecimento na mesma medida em que ele é desprezado como uma espécie de patinho feio. Qualquer jovem no Brasil lê muito, mas muito mais que qualquer adulto, aja vista que os primeiros são obrigados a cultivar essa virtude desdenhada civicamente. Já os segundos, por sua deixa, vêem-se faceiros da vida [des]governando seus dias de acordo com o rumo sem prumo apontado por seus vícios morais e cognitivos, estando assim incapacitados para ver e reconhecer o seu fiasco existencial mal disfarçado nessa posse bobinha de intelectual de botequim.

3. Ainda sobre a leitura, digo, sobre o fetiche do ato de ler: não se deve, de modo algum, ler por ler. Proceder assim seria similar a beijar por beijar, a fazer sexo por fazer. A leitura tem uma finalidade específica que é conhecer algo que nós não podemos aprender a partir de uma experiência direta, ou nos auxiliar a compreender algo que foi experimentado, ou vivenciado, por nós, mas que continua imerso nas sombras da incompreensão. No fundo, o que devemos ter em nosso horizonte não é um desejo irascível de ler cada vez mais. O que devemos ter é uma sólida vontade de aprender, de conhecer. Se for através dum livro, ótimo! Se não, que seja através dum filme, documentário, podcast, duma aula, palestra, roda de conversa ou duma experiência direta (se possível for). O importante é que tenhamos um sincero desejo de conhecer no âmago de nosso coração. Caso contrário, as leituras, e tudo mais, caem numa grande maresia de frivolidade sem propósito.

4. Toda vez que ouço referências a Idade Média como sendo a Idade das Trevas, mais que depressa, providencio um rolo de papel higiênico, visto que, tudo o que vier depois desta afirmação não passará dum amontoado de colóquios flácidos advindos duma estultice histórica descomunal. Ora, ensina-se ao caboclo, lá no ensino médio e fundamental (e por aí segue o andor), uma meia dúzia de estereótipos sobre a Santa Madre Igreja, e outro tanto sobre o período medievo, que vão sendo repetidos e utilizados levianamente como rótulos retóricos/erísticos de acordo com as mais variadas e torpes conveniências. E o elemento faz isso com aquela empáfia típica das almas ignaras que se especializam profundamente em coisa nenhuma para, com doutos ares putrefazes, falar sobre tudo sem nada dizer. De mais a mais, conhecer uma bibliografia mínima sobre um determinado assunto é condição basilar para poder dizer, com parcimônia: “sei do que estou falando”. Agora, fixar rótulos, ao bel prazer, é algo que qualquer um pode fazer sem ao menos pensar nas palavras proferidas, bastando apenas repetir aquilo que não sabe.

Pax et bonum
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