Os black blocs e a rebelião da irracionalidade

Por Cesar Ranquetat Júnior

Há poucos dias, os jornais e redes de TV de todo o país noticiaram a covarde agressão sofrida por um coronel militar de São Paulo, perpetrada por integrantes do grupo Black Blocs. O coronel foi espancado por um bando de cerca de dez “manifestantes” e ainda golpeado com uma barra de ferro por um dos mascarados, quando da realização de mais um protesto organizado pelo Movimento Passe Livre, na capital paulista. Neste protesto, os  black blocs  ainda depredaram caixas eletrônicos e catracas, e tacaram fogo em um ônibus.

Tal modus operandi não é novidade. Este grupo vem se caracterizando pelo uso da violência e por atos de vandalismo nas manifestações que vêm ocorrendo pelo país. A depredação de lojas, bancos e do patrimônio público é uma tática de ação, uma estratégia de luta política dos black blocs.

Diante destes atos de violência e vandalismo que se avolumam, ficam no ar as seguintes questões: o que querem os black blocs? Qual o modelo de sociedade que desejam? Enfim, contra o quê e em nome de quem se rebelam?

Responder estas questões não é uma missão das mais fáceis, pois ainda são nebulosos, sem contornos precisos e claros – como insinuam suas vestimentas e máscaras pretas –, os objetivos políticos deste agrupamento. No entanto, as recentes atitudes e algumas declarações dos membros desta organização podem nos ajudar a lançar alguma luz e tornar mais compreensíveis as intenções e finalidades do referido grupo.

Em uma entrevista para um site jornalístico, uma integrante do movimento assim se manifestou: “Estamos lutando por algo que ainda não sabemos o que é, mas que pode ser o início de algo muito grande que pode acontecer para frente”.[i] A mesma integrante, em outro momento da reportagem, declarou: “Espero que estejam fazendo tudo isso por todo mundo”[...]. “É uma luta pela humanidade”.

Fica patente nestas colocações certo messianismo político, ou seja, a crença infundada de que uma organização política possa fazer algo de grandioso, inovador e revolucionário. Algo que sirva a todos os homens, e que modifique por completo a face do mundo. Para eles, a salvação do homem e do mundo vem através da ação política, numa luta do bem – encarnado por este movimento – contra o mal, que dependendo das circunstâncias pode ser a burguesia, a Igreja Católica, o capitalismo, os Estados Unidos, a moral tradicional, etc…

Em outras declarações à imprensa, os blac blocks afirmam lutar contra o  “sistema”, contra as injustiças do “capitalismo explorador”. Gostaria de saber que entidade abstrata é essa – o sistema -, e, se o modelo de sociedade que eles defendem será mais justo que o “capitalismo selvagem”. Bem, quanto à isso pouco sabemos, porque eles nada dizem sobre que tipo de sociedade querem implantar. Mas a julgar pelo seu uso desmedido da violência não será muito melhor que a “exploradora e maldita” sociedade capitalista. Na realidade, com este tipo de declaração, os black blocs nada mais fazem que repetir mecanicamente e ad nauseam os já surrados e anacrônicos chavões da esquerda tupiniquim.

Sob este aspecto, em seu ódio visceral ao sistema capitalista e às liberdades burguesas, esta organização política nada se assemelha com os outrora cunhados rebeldes sem causa, os revolucionários sem bandeira dos anos de 1960. Sua causa “sagrada” que redimirá a humanidade oprimida, nada mais é que o velho e famigerado socialismo revolucionário. Estamos, novamente, diante de um ativismo radical que, por meio da violência e da brutalidade, objetiva por fim às injustiças do mundo e instaurar uma suposta sociedade ideal, igualitária e fraterna.

Uma situação que pode esclarecer ainda mais os objetivos políticos deste movimento é a que ocorreu no Dia da Pátria, no Rio de Janeiro. Em pleno 7 de setembro, quando das comemorações deste dia cívico, os integrantes do movimento retiraram as bandeiras do Brasil, do estado e do município do Rio Janeiro de suas hastes e, posteriormente, as queimaram. No lugar destas, colocaram a bandeira negra do grupo. Vale lembrar que as bandeiras localizavam-se junto ao monumento Zumbi dos Palmares. Este ato é altamente significativo, porque se trata de um ataque ao símbolo máximo que representa a nação brasileira. Conspurcar o pavilhão nacional e substituí-lo pelo símbolo que representa a identidade do grupo é um ato de guerra à nação, ao seu passado, à sua história. É um ato de profanação a um ícone que materializa as tradições de uma comunidade.

O ato de agressão ao coronel militar e os enfrentamentos constantes com a polícia são também atitudes significativas. Visa-se, com estes atos, não tanto atacar pessoas, mas, sobretudo instituições e símbolos. Busca-se, aviltar os símbolos da ordem e da autoridade representados pela corporação policial. Desse modo, podemos perceber que símbolos que expressam a tradição, a ordem e a autoridade não são bem vistos por esta organização. Isto faz parte da lógica revolucionária,  pois, segundo esta mentalidade, é preciso desmantelar a tradição e a autoridade para fundar uma nova sociedade e uma nova cultura sem laços e vínculos com o passado – concebido pelos revolucionários socialistas e anarquistas como algo retrógado e opressor.

Incendiar ônibus, invadir casas legislativas, depredar lojas e bancos e outras atitudes do mesmo feitio denotam certo barbarismo e primitivismo, um prazer mórbido pela destruição, uma agressividade desmedida e um ativismo desordenado. Evidencia-se nestas atitudes uma tonalidade passional e mesmo irracional. Pergunta: será assim que pretendem edificar uma sociedade melhor? É possível construir uma sociedade mais harmônica com base no ódio e no ressentimento?

Ainda, é sintomático o modo como muitos jornalistas, intelectuais e demais formadores de opinião se mostram condescendentes e complacentes com a violência injustificada e o vandalismo que se espalham nas ruas das capitais brasileiras. Como e por qual razão justificar o injustificável? Curiosamente, os que nesta hora deveriam, mais do nunca,  pugnar pela racionalidade, prudência e moderação, batem palmas de pé para a irracionalidade e o radicalismo triunfante.  Defender organizações deste naipe, que usam e abusam da violência para supostos fins políticos, é colocar-se inevitavelmente ao lado da barbárie e da irracionalidade.

Ademais, será que tal modo de ativismo político revolucionário – de matizes anarquista e socialista – não é também um modo de evasão, uma maneira de contornar e evitar o confronto consigo mesmo? Em ultima instância, a agitação política não seria uma forma de fugir e de elidir-se ilusoriamente dos verdadeiros problemas de ordem pessoal, existencial e espiritual? Em síntese, projetando os males no mundo, na sociedade ou no imperialismo capitalista, acabo por eximir os homens concretos, os indivíduos de carne e osso, de toda responsabilidade, lançando sempre nas estruturas externas a culpa pelas dores do mundo.

O fato inconteste é que todo revolucionário acaba por esquecer uma lição básica. Em sua ânsia de transformar inteiramente o mundo, a sociedade e os outros, acaba por deixar de lado a única e fundamental mudança: que é a sua própria reforma interior, a sua  mudança de atitude frente à  realidade, a construção de si próprio, o árduo e vigoroso trabalho de autoconhecimento, autoformação e transformação pessoal. Será que antes de se agitar de forma abrupta nas ruas, espancando pessoas e destruindo o patrimônio público e privado não seria mais cabível e razoável tentar entender as razões de nossos problemas sociais, estudando a nossa formação histórica, o nosso sistema político e as peculiaridades de nossa cultura? Não é possível agir de modo razoável e prudente, procurando reformas graduais e pontuais na sociedade e em nosso sistema político sem antes dedicar-se de maneira paciente e cansativa ao necessário trabalho de reflexão e conhecimento de nossa própria cultura política. Antes de agir, temos que pensar e estudar. Estudar a nós próprios, nossa sociedade e o mundo em que vivemos.

Grupos revolucionários mais soam como sintomas de uma civilização em crise do que como uma reação justa contra os aspectos anômicos, alienantes e problemáticos da cultura moderna. Em outras palavras, tais movimentos afirmam lutar contra o “sistema”, mas não seriam eles próprios produtos deste mesmo “sistema”? Tudo leva a crer que estamos diante de insurgentes que desfraldam a bandeira negra do caos, da desordem e do niilismo. Avança a passos largos a barbárie e a irracionalidade.

[i] Entrevista para o ste BBC /Brasil. Disponível em:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131014_black_bloc_entrevista_mm.shtml

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