O SILENCIOSO CLAMOR DA ALMA

Escrevinhação n. 1051, redigida no dia 01 de outubro de 2013, dia de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Um claro sinal de decadência duma sociedade é a demasiada atenção que se dá aos conflitos de opiniões em detrimento dos princípios mesmos que subjazem as relações humanas, conforme nos ensina Fulton Sheen. E o mesmo nos adverte que quando chaga-se a uma situação como essa já está mais do que na hora de realizar-se um bom exame de consciência.

Naturalmente que falar disso numa sociedade onde tudo está permeado pela leveza insustentável da superficialidade seria algo similar ao esforço dum jesuíta que estivesse pregando o Santo Evangelho no coração duma tribo de antropófagos. Similar, porém, mui distante, aja vista que em meio aos segundos creio que havia um esforço sincero para ouvir as palavras do soldado de Cristo. Já na massificada sociedade atual um apelo para nos despirmos diante do tribunal da consciência é algo que acaba soando de maneira jocosa, mesmo que tal apelo seja urgente.

Joseph Ratzinger, em seu livro “Introdução ao Cristianismo”, lembra-nos que aquele que convida seus pares a defrontarem-se com a Verdade, acaba sendo visto como o palhaço duma velha historieta que, segundo conta-se, ia avisar os moradores de uma vila que havia um incêndio, porém eles não acreditaram. Imaginavam que seus apelos eram uma encenação chamando a atenção deles para o circo que estava para chegar.

Ora, estamos tão acostumados a viver imersos numa sociedade carcomida pelo cancro do espetáculo que pensamos que tudo deva ser pautado pelos folguedos da banalidade. Por isso acabamos por desdenhar todo e qualquer apelo para realização de tal exercício. Apelos, muitas das vezes, feitos por nossa consciência que grita em meio a balburdia alienante em que vivemos para que procurarmos seu conselho e pararmos de nos devorar mutuamente.

Se a ouvíssemos, compreenderíamos o quanto que esquecemos o fim que dá sentido à existência e que, por conseguinte, é o solo dos valores autênticos que devem definir as ações humanas. Devido a tal esquecimento, vemo-nos entregues a vacuidade duma existência encerrada em si mesma, solitária em meio a uma multidão de almas sós que procuram preencher esse vazio de sentido com qualquer bobagem que, momentaneamente, seja para ela uma razão, mesmo que pífia, para não desesperar.

Embebida em superficialidade e corrupção, nosso coração vê-se angustiado, a cultivar um mundo interior desordenado e irritadiço. E assim encontramo-nos, muitíssimas vezes, porque não mais procuramos compreender nossas vidas à luz da eternidade, preferindo a brevidade das sombras de nossos momentos pequenos e mesquinhos. Deste modo, projetamos em nosso entorno toda desordem advinda desse vácuo de sentido que nos habita como uma forma tacanha de compensar o nosso esquecimento da finalidade primeira da existência e não querer ser lembrado disso, meu caro Watson, é um claro sinal do quão grave é a decadência em que nos encontramos.

Pax et bonum
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