VERDE, AMARELO E ALGO MAIS

Escrevinhação n. 1041, redigida no dia 02 de setembro de 2013, dia de Santa Cândida.

Por Dartagnan da Silva Zanela



Em uma de suas Farpas Eça de Queiroz (com Ortigão Ramalho) declara do auto dos umbrais do século XIX, que a soma de milhões de egoísmos não faz uma nação, nem mesmo uma comunidade e muito menos uma família.

Que a verdade ululante seja dita: todos nós, em alguma medida, somos egoístas. Isso é inegável. Também é um fato humano a capacidade de nos tornarmos em muitas ocasiões maiores que nosso universo umbilical e, no transcender esse, temos a forja da vida familiar, da estruturação dos laços comunitários e, naturalmente, da edificação duma nação, apensar da egoística macula presente em nossos corações.

Sou franco em dizer: não vejo como algo monstruoso termos presente, em nosso coração, essas inclinações. Aliás, creio que seja de fundamental importância que nunca ousemos negar que tais inclinações se fazem presentes. O que torna a nossa cultura cívica doentia é o desdém cínico que cultivamos frente a qualquer possibilidade de abrirmos mão de nossos interesses pessoais, grupais, corporativos e ideológicos, em nome de algo que não vá nos beneficiar.

Claro que sempre há aqueles que dirão que isso é bobagem porque não são mais capazes de levantar os olhos acima das muralhas umbilicais que os rodeiam. Muralhas essas que, maliciosamente, chamam pela alcunha de interesse público, bem comum ou mesmo consciência classista para disfarçar o inegável egoísmo inconfesso.

Se não somos assim, desta estirpe, podemos fazer um exame de consciência muito simples. Perguntemos aos nossos alfarrábios quantas vezes nós, voluntariamente, prestamos algum serviço para nossa comunidade, quantas vezes nos dispomos a fazer algo graciosamente, não pela nação, mas sim, por nossa rua, por nosso bairro, quantas?

E não adianta vir com aquela lengalenga de que todo mundo é assim ou assado. Isso é coisa de moleque borra-botas e, por isso, de modo algum tal impostura é condizente com um indivíduo adulto responsável, vulgarmente chamado pelo epíteto de cidadão. De mais a mais, se me permitem a comparação, nos EUA cada cidadão, em média, realiza duas horas de trabalho voluntário semanais. Isso mesmo! Duas horas. E nós, o quanto de nosso precioso tempo é doado livremente para a nossa comunidade? Quanto?

Com o perdão da palavra, ou do abuso dela, a resposta a essa pergunta faz toda a diferença na formação duma nação porque permite vermos em que medida os egoísmos que compõem a sociedade são capazes de ver e viver algo maior que os limites de seus interesses (justos ou não). Agora, quando não somos nem mesmo capazes de conceber isso, ficando apenas naquela choradeira de quem imagina que o sacrifício sempre deva vir daqueles que possivelmente sejam piores do que nós (e que nos representam), aí não tem jeito mesmo. E por isso reafirmo o dito: ainda que somemos todos nossos corações não conseguiremos formar uma nação, nem mesmo uma caricatura verde-amarelo sem graça e sem ânimo, muito menos uma comunidade e nem de longe uma família.

Pax et bonum
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