MEROS RESPINGOS DE TINTA – parte II

Escrevinhação n. 1040, redigida entre os dias 26 de agosto de 2013, dia de São Zeferino, e 31 de agosto de 2013, dia de São Raymundo Nonato.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. Há muitas perguntas canalhas que com freqüência são feitas às gerações mais tenras. De todas elas, penso que a campeã é essa: “o que você faria para melhorar o mundo?” Rapidamente, junto com essa pergunta, vem toda aquela enxurrada de idéias estereotipadas dum mundo melhor possível com os mais variados tons rubros. Em pouco tempo lá estão os mancebos passando pito na tal sociedade, no tal capitalismo, no dito sistema e, obviamente, em seus pais e demais seres quadrados. Com isso, esses moleques são instigados a crer que eles são a Justiça sem que, ao menos, tenham aprendido a ser justo. De minha parte, jogaria essa, e todas as perguntas similares, no lixo da história e perguntaria apenas: “o que você tem feito para ser uma pessoa melhor e, com isso, honrar os seus pais?” Imagino que o resto não seja preciso dizer.

2.  Perdão não é sinônimo de passar a mão na cabeça, nem de dó e muito menos de leniência. Perdoar é algo que se dá com todo o coração com o intento de que essa doação complete e repare o mal realizado. Se os corações que clama pela reparação e se dispõe a dá-la não se vêem receptivos e dispostos, o gesto perde sua eficácia. Por isso que, muitas das vezes, padecemos muito para compreender o que realmente devemos corrigir em nosso coração para podermos realmente perdoar ser perdoados e, acima de tudo, nos perdoar. No fundo, bem no fundinho, o que queremos na maioria das vezes é uma palavra de aceitação, que digam-nos que somos pessoas maravilhosas para sentirmo-nos bem, mesmo que essas palavras sejam tão superficiais quanto nossa condição. Um coração assim não quer perdão porque não deseja ver as máculas que estão em suas mãos.

3. As massas marcham para toda e qualquer direção, basta que lhe apontem o caminho que se assemelhe às suas inclinações rasas. As massas tremulam bandeiras junto ao azul do céu imaginando que as letras da flâmula sejam suas e que as idéias nelas impressas brotam de sua [in]consciente ação. As massas param, e gritam, no ritmo da histeria [depre]cívica reinante acreditando credulamente que seu gesto é grandiloquente, um exemplo edificante para as almas tenras. Por fim, as massas retornam, atomizadas, para sua condição de objeto inerme, para suas jaulas existências, muradas por palavras ocas, gradeadas com idéias superficiais e cimentadas com sentimentos artificiosos. Enfim, voltam para o cárcere de vácuo-sentido de suas vidas.

4. Ensina-nos José Ortega y Gasset que “a filosofia não necessita de proteção, nem de atenção, nem de simpatia das massas”. Ué! Então toda essa gente que grita aos quatro ventos para “conscientizar” as massas, que diz “labutar” no intento de ensinar as massas a “pensar” é o que? Na mais modesta das hipóteses, apenas um adolescente crescidinho carente de atenção (há muitos desses tipinhos por aí). Nas mais extravagantes, um militante empolgadíssimo com seus delírios utópicos. Dum jeito ou doutro, a estupidez é a estrela principal deste espetáculo bufo. Cabe lembrar que ela, a estupidez humana, não é sinônimo de filosofia e não tem limites, ao contrário da realidade e de qualquer saco de paciência.

Pax et bonum
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