APENAS UM PAPO BLÓGICO

Escrevinhação n. 1036, redigida entre os dias 18 de agosto de 2013, dia de Santa Helena, e 22 de agosto de 2013, dia de São Filipe Benício e da Virgem Maria Rainha.

Por Dartagnan da Silva Zanela


1. Nossas lembranças não passam de sombras. Sombras da grandeza, ou da singeleza, ou simplesmente da presença daqueles que um dia estiveram entre nós e que, em muitos casos, estavam bem próximos de nossas sombras. Para que essas sombras de antanho continuem vivas, contrastando com as nossas, ajudando-nos em nossa caminhada, é de fundamental importância que a Luz encontre morada e habite em nosso coração. Infeliz daquele que não respeita a memória dos que já partiram. Infeliz daqueles que fazem pouco caso da presença das sombras que, em contraste com a Luz, revelam tudo o que há em nossa alma através da grandeza ou da torpeza de nossos atos.

2. Nicolás Gómez Dávila afirma que “a solidão nos ensina a ser intelectualmente mais honestos, porém, nos induz a ser intelectualmente menos corteses”. De fato, ela nos permite um maior tempo de convívio com nossa consciência. Todavia, ficamos também um bom tanto com nossas paixões e cóleras a nos carcomer. Ela, a solidão, nos auxiliar na construção de nosso mundo interior e nos faz companhia junto com nossos problemas, independente de quais sejam eles. E é por isso que apenas nos dignificamos na solidão. Apenas ela é capaz de nos ensinar a conviver com os nossos iguais, a conviver conosco mesmo e a vermos o quanto que, no fundo, somos insuportáveis. Eis aí o princípio civilizador do “conheça a ti mesmo”. Conhecimento este tão desdenhado pelas almas presunçosas desta época de barbárie onde a desonestidade intelectual é a regra que torna a cortesia, em muitos casos, um insulto a inteligência.

3. Que há em nossa sociedade um grande desfibramento moral é algo praticamente incontestável. Desfibramento esse que procura camuflar-se com densas camadas de moralismo fingido em misto com doses cavalares de afetação que mui canhestramente encobrem as realidades mais tacanhas que habitam o coração humano. Se fôssemos listar todas as baixezas que se encontram entranhadas entre nossas costelas, gastaríamos muitos bilhetinhos que se acumulariam sobre a empoeirada mesa de nossa consciência. E se não o fazemos é porque é-nos mais cômodo dar de ombros e dizer, como o fariseu da parábola do publicano, porém, sem a mesma convicção da referida personagem, visto o nosso decrépito estado moral.

4. O homem comum vive entre fantasias, somente o solitário caminha entre realidades. Essas são as palavras de Nicolás Gómez Dávila. Palavras essas que refletem o nosso dia a dia. Quando estamos imersos no convívio de nossos pares, em especial, nos momentos festivos e/ou rotineiros, tudo torna-se banal, leve. Os risos sem sentido fluem, as palavras sem nexo saem desembaraçadas tropicando em nossa língua para dizer coisa alguma simplesmente para preencher o tempo e tudo isso, junto e misturado, nos envolve numa atmosfera que nos agrilhoa na pérfida alcova mundana de imagens que dissimulam a realidade duma vida digna de ser vivida. Mas eis que vem o silêncio com seu impetuoso sopro e arranca de nós todos esses andrajos que nos distanciam de nós mesmos, da realidade e de Deus. E por isso que as almas medíocres tanto temem o solitário silêncio. Preferem as companhias superficiais que tanto as distraem.

Pax et bonum
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